Reportamo-nos, nesta oportunidade, a um fato de anos passados, referente à aparição, na tevê, da atriz Regina Duarte, à época das últimas eleições para presidente. Mostrando-se temerosa a respeito do resultado do pleito, a ex-namoradinha do Brasil foi duramente patrulhada pelo PT, como se estivesse cometendo uma heresia e, por isso, devesse ser queimada na fogueira. Já naquela ocasião, e em virtude das represálias sofridas pela atriz, nós brasileiros deveríamos ter aberto os olhos para o que poderia vir por aí. Preferimos, entretanto, como sempre, fechar os olhos e continuar dormindo o sono dos indolentes.
Agora, o palco está aberto para os espectadores. E que ninguém alegue ignorância. Nosso presidente vem deitando e rolando. “A vol d’oiseau”, relembremos tão somente alguns fatos como a tentativa de expulsão do jornalista americano que escreveu sobre o consumo de bebidas alcoólicas por Lula. Transitaram pelas manchetes de revistas e jornais os escândalos de Waldomiro Diniz, a aquisição da nova “espaçonave” presidencial, os financiamentos do BB para o PT e os recados de Lula a Delúbio - secretário do PT, envolvido em polêmicas -, para que sumisse um pouco da cena política.
Numa seqüência ininterrupta de sustos e hilaridade, o governo propõe agora a criação do Conselho Federal de Jornalismo destinado a “orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de jornalista e a atividade jornalística”. E, dentro do rigor stalinista, esse conselho poderá punir os jornalistas com penas que poderão ir da censura até a cassação do registro profissional. Como se isso não bastasse, por não apoiar essa iniciativa, Lula chamou os jornalistas de “um bando de covardes”. Ora, a missão desse “bando de covardes” é, entre outras coisas, investigar, informar e descobrir as realidades sombrias de qualquer governo. Você sabia que durante a época de Stálin a história foi reescrita para ocultar fatos ultrajantes? Só mesmo em períodos de escancarado autoritarismo se colocou o garrote no pescoço dos jornalistas. Por que será que em Brasília muita gente grita o refrão: “Stálin não morreu, encarnou no Zé Dirceu”?
Dando continuidade àquilo que Lula chama de “futricas”, o governo guindou Henrique Meirelles a ministro, obviamente com todos os privilégios judiciais do cargo, 24 horas antes de ser desfechada uma coleta de dados, em âmbito nacional, sobre movimentadores ilegais de dólares. Alguém já viu um banco com status de ministério?
Não param por aí os estragos do governo. Na capital da República Dominicana, Lula declarou que um dos motivos de sua viagem ao Gabão foi “aprender como um presidente consegue ficar 37 anos no poder”. Ora, interpretou o ex-presidente Sarney, isso foi um “chiste”, nada mais. Convenhamos: mesmo ao fazer blagues, Lula deveria ter um pouco mais de cautela e pesar a responsabilidade inerente ao cargo. Tais atitudes presidenciais vêm provocando piadas, tanto que o tucano Arthur Virgílio não se fez de rogado: “Imagine se ele (Lula) resolver visitar o papa: vai querer ficar no cargo até morrer.”
É preciso que Lula não acredite nas próprias palavras, quando diz que os autores dos reparos à sua administração estão “fazendo figa” e “urucubaca” para seu governo não dar certo. Todos os brasileiros querem viver em paz e estão à espera de que o presidente cumpra pelo menos sua promessa de dobrar o poder de compra dos salários que, até agora, vem diminuindo mês a mês.
Essa democracia foi conquistada a duras penas e queremos continuar vivendo num regime de tolerância, de debate onde o conflito de pontos de vista nos ajude a crescer. Desejamos, sim, que a esperança triunfe sobre o medo. Para tanto, porém, não poderemos escamotear a informação dolorosa que poderá ser facilmente usada para manter uma ficção política. Além do mais, é oportuno que Lula deixe de lado o vezo do sindicalista provocador, inadequado e de gosto duvidoso para o cargo que ocupa. É o mínimo que temos o direito de aspirar numa democracia. (Drª Maria da Glória De Rosa)