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Campanha incentivará a adoção de crianças negras

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Enquanto 66 crianças com mais de 10 anos de idade esperam um casal candidato para adotá-las, 36 famílias disputam um recém-nascido no Estado de São Paulo. Não bastasse isso, 98% dos pais interessados na adoção querem crianças brancas. A dura realidade fruto do preconceito será combatida em Bauru a partir de uma campanha cujo objetivo será o de incentivar a adoção tardia e inter-racial.

Como os números divulgados pelo Centro de Capacitação e Incentivo à Formação de Profissionais (Cecif) e o percentual apurado pela Universidade Católica de Pernambuco já haviam sido constatados empiricamente, a presidente do Grupo de Adoção Amigos da Vitória, psicóloga Maria José Barbosa, realizará uma palestra para abordar a questão.

Na oportunidade, ela apresentará as aspectos positivos da adoção tardia e inter-racial. “Para o pai adotivo, a consciência (que a criança terá sobre a adoção) pode facilitar (o relacionamento familiar e social), porque ela sabe que é adotiva e estará melhor preparada para lidar com a situação em qualquer circunstância”, diz Barbosa, que não dispõe de números sobre a realidade local.

De acordo com ela, no geral, 13% dos pais não contam para os filhos sobre a adoção, iniciativa que pode prejudicar a criança quando ela souber. “Romper com a origem pode provocar um rompimento com o existir. Na palestra, vamos adotar aspectos psicológicos e sociais da adoção”, informa.

Por acreditar que uma família interessada na adoção já está apta a adotar uma criança de outra etnia, sem semelhanças físicas, a psicóloga também vai aproveitar a ocasião para desconstruir o mito de que apenas casais de classe média e alta podem se candidatar.

“Casais com renda mais baixa também podem, mas evitam porque têm receio de expor sua condição financeira e não conseguir. Quero também chamar os casais negros que têm receio. A minoria (dos interessados em ter filhos adotivos) é negra. Ainda farei um alerta para que todos os pais (interessados na adoção) se permitam conhecer crianças com mais de 7 anos de idade e negras”, acrescenta.

Projeto

Para tanto, a psicóloga remeteu ao Fórum um projeto propondo que todas as famílias interessadas na adoção sejam encaminhadas ao Grupo Amigos da Vitória para que recebam informações e conheçam as crianças negras e mais velhas.

No entanto, de acordo com o juiz Ubirajara Maintinguer, esse procedimento já é adotado. Monitorados por técnicos, esses pais são chamados a visitar os abrigos. Na opinião dele, a iniciativa exige muita cautela porque uma postura inadequada das famílias pode resultar em problemas para as crianças visitadas.

“(A criança) fica muito sensível. Basta um olhar (para que a criança interprete uma rejeição, por exemplo)”, avalia o juiz, que respondeu pela Vara da Infância e Juventude por cinco anos e volta a assumi-la no próximo mês.

A fragilidade é tão explícita, que Barbosa está acompanhando o caso de uma menina de 7 anos que enfrenta uma depressão porque ainda não foi adotada. “Essa criança (qualquer uma ainda não adotada) fica no abrigo até os 16 e 17 anos. Quando sai, sem família e formação, vai parar na periferia. Nós temos que assumir nossa origem. A sociedade brasileira é miscigenada, formada por negros, índios e brancos”, ressalta.

Por concordar que ainda vivemos sob preconceito, Vera Lúcia Oliveira Fernandes chegou a se preocupar quando adotou a filha mestiça, que foi para os braços dela 24 horas após o nascimento. No entanto, dona de uma beleza que já rendeu capa de revistas, a moça hoje com 18 anos passou por todas as fases da vida longe de qualquer discriminação.

“Os meus quatro filhos (dois adotivos e dois biológicos) só me trouxeram alegrias. A adoção inclusive une a família”, conclui.

Serviço

A palestra será realizada no dia 13 de setembro, no Teatro Municipal, situado na quadra 8 da avenida Nações Unidas, às 20h. Outras informações pelo telefone (14) 3223-0225.

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