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Olimpíadas: Sem abatimento, Sabino quer lutar mais

David Cintra
| Tempo de leitura: 9 min

São Paulo - O judoca bauruense Mário Sabino Júnior está de volta ao Brasil, depois de sua segunda participação em Olimpíadas. O meio-pesado não foi feliz em Atenas e acabou derrotado na primeira luta, pelo israelense Ariel Zeevi. Apesar de não ter conseguido seu objetivo, que era uma medalha olímpica, Sabino não está abatido e já vai começar a preparação para os Jogos Abertos, de 13 a 26 de setembro, em Barretos. O judoca deu entrevista ao Jornal da Cidade e falou de sua participação, do judô brasileiro e sobre o futuro.

JC – Você foi confiante para Atenas, como está voltando?

Mário Sabino - Para mim, a derrota está um pouco recente ainda. Queiram ou não, eu era um dos favoritos ao pódio, assim como o Zeevi, que esse ano estava invicto na Europa, ganhou o Aberto da França e os torneios mais importantes de lá e acabou levando o bronze de Atenas. Eu sabia que era difícil, mas fui brigar por medalha e estava confiante, infelizmente, dos dez que eu apontava como “cachorros grandes” na briga pelo pódio, sete caíram na minha chave. Fico triste porque a preparação foi boa. A gente saiu quatro meses antes das Olimpíadas, coisa que aqui no Brasil é novidade e nós treinamos fora, teve todo um planejamento para brigarmos por medalha, infelizmente não aconteceu.

JC – Qual a maior lição que você tirou de Atenas?

Sabino - Uma coisa eu já tinha percebido desde Sydney. Quando eu não era favorito e ninguém me conhecia era melhor. Seu judô desenvolve mais quando você não está preocupado com os adversários e ninguém te conhece, que foi o caso do Leandro (Guilheiro, medalhista de bronze). Favoritismo sempre vai ter, mas é só no papel, é bom para currículo, para você guardar revistas e dizer “olha, eu era favorito para medalha”. Mas quando chega lá dentro a história muda, é tudo zero a zero, todo mundo de igual para igual, não tem vantagem para ninguém. Em Atenas teve muita gente que foi bem no Mundial do Japão e que não subiu no pódio. O próprio Kosei Inoue (campeão mundial), que era bem cotado, perdeu duas lutas por ippon e ficou fora do pódio. A lição que eu tirei é que favoritismo é só no papel.

JC – Se você tivesse outra chance, faria algo diferente do que fez na luta contra o Zeevi? Ou repetiria a mesma estratégia?

Sabino - Acho que o pior sentimento que existe é perder sem ter dado o máximo de si dentro da luta. Eu tentei fazer o máximo. Eu e o Zeevi éramos favoritos a medalha e logo de cara tivemos de nos enfrentar, então foi uma luta bem estratégica. Eu assisti a luta depois e analisei tudo. Acho que a primeira punição que o árbitro me deu foi injusta, ele foi muito precipitado, porque a luta estava empatada , ninguém estava amarrando o jogo. E depois a última também, foi a única vez que eu olhei no relógio e faltava só oito segundos para terminar, então não tinha onde, eu já estava perdendo e jogava aberto.

Mas o meu jogo é aquele, meu ritmo é aquele, é segurar no quimono, tenho que segurar na manga e na gola para fazer meus golpes. Não posso chegar lá e mudar meu estilo na hora, porque aí eu não luto mesmo. Eu tentei fazer o máximo justamente para não ficar com esse sentimento de “eu poderia ter feito isso ou aquilo”. Saí com o sentimento de que eu fiz o máximo que podia.

JC – Você vai tentar a terceira Olimpíada, em Pequim-2008?

Sabino - Esse ano ainda tem várias competições, o ano ainda não acabou. Essa semana eu já recomeço a trabalhar a parte física porque no mês que vem já tem Jogos Abertos, que é uma competição grande e que eu gosto muito. Em outubro tem o Sul-Americano, que vai ser a equipe olímpica que vai lutar. Além disso, vai ser no Rio de Janeiro e a gente quer manter a tradição e vencer. Em outubro ou novembro eu tenho o Mundial Militar, no Azerbaijão, que é uma competição forte, da qual praticamente todo mundo da Europa participa e eu quero ir para tentar o tricampeonato. E tem ainda o Brasileiro Interclubes no final do ano.

A longo prazo eu penso no Mundial do ano que vem, no Egito. Eu quero ganhar minha segunda medalha em Mundial. Mas vou pensar ano a ano. A gente sabe que Olimpíada é sempre sonho. Ainda estou muito triste, mas é meu sonho ir para Pequim e buscar uma medalha olímpica. Tem ainda o Mundial no ano que vem, em 2006 tem os Jogos Sul-Americanos, em 2007 tem o Pan-Americano aqui no Brasil e o Mundial, também aqui.

JC - Qual a sua impressão dos Jogos de Atenas, o que te marcou mais lá, além da sua participação, é claro?

Sabino- A abertura. Foi a primeira vez que participei. Achei uma coisa fantástica, bem organizada. Na hora que acendeu a tocha a maioria dos atletas estava chorando. Acho que naquela hora o espírito olímpico caiu mesmo sobre os atletas tinha muita gente se abraçando e chorando e ali eu pensei: “agora não tem mais para onde correr”. É algo que, se Deus quiser, vou sentir de novo, não dá para descrever, só quem está lá é que sente.

Aí você começa a lembrar das dificuldades que passou, a infância, a falta de patrocínio e um monte de coisa que sempre tentou te atrapalhar. Começa a lembrar também das pessoas que sempre te apoiaram, que sempre torceram por você, começa a lembrar de todo mundo. Aí você pensa: “tenho que voltar com uma medalha, está todo mundo esperando”, claro que essa cobrança foi minha mesmo.

JC - E a segurança, havia clima de medo entre os atletas?

Sabino - Em volta de Atenas havia muita segurança mesmo, parece que eles estavam esperando a terceira guerra mundial. Dentro da Vila, a gente sempre via um policial e um soldado do exército juntos. Nos ônibus também ia sempre um policial junto, fortemente armado. Nós ficamos num lugar bem alvo mesmo, entre as delegações de Israel e Estados Unidos, mas eu particularmente acho que ninguém ficou preocupado com esse tipo de coisa. Mas nós reparamos que cada vez que eles (israelenses e americanos) iam para as competições ou para treinamento sempre tinha um agente do próprio país junto. Acho que esse clima de terrorismo foi mais no início, é claro que a segurança tem que sempre estar atenta 24 horas. Vamo torcer para que até o final dos Jogos não aconteça nada.

JC - Os atletas se misturavam?

Sabino - Perto dos alojamentos era difícil, a mistura acontecia nos ônibus e no refeitório, na sala de Internet, internacional, ali você encontrava todo mundo, era uma torre de babel. Na sala do COB, que tinha Internet, os atletas do Brasil se encontravam. Então de repente você estava do lado do Bernardinho, do Robert Scheidt, do Guga e dava para conversar bastante com eles. É engraçado porque há poucos dias você tinha visto os caras na tevê e agora estava lado a lado com eles.

O pessoal do vôlei é muito legal. O Bernardinho tem um educação fora de série. No treino ele ranca o couro dos caras, mas pessoalmente é super-educado. No dia da abertura, ficamos todos num ginásio esperando nossa vez de entrar no estádio e alguns atletas do vôlei pediram para tirar foto comigo. Eu tinha me perdido do pessoal do judô e estava meio sozinho, de repente aparece o Escadinha e o Anderson me chamando pelo nome e pedindo para tirar foto. O Escadinha ainda comentou que já tinha lido reportagem sobre mim, falou que eu era policial, sobre minhas duas filhas adotivas.

A gente pensa que os caras estão em outro nível, mas eles também fazem tietagem. Não tem nada que paga isso, de você estar numa delegação olímpica em contato com todos esses atletas de ponta. Fiquei muito contente de saber que eles conhecem a minha história, não só no judô mas particular.

JC – Você acha que depois de Atenas o judô brasileiro tem que mudar?

Sabino - Eu creio que tem de manter esse trabalho. Eu sei que logo terão eleições e tem muita gente querendo entrar na CBJ (Confederação Brasileira de Judô). Claro que a Confederação não é a mais perfeita do mundo, sempre se cometerão erros. Mas eu acho que o trabalho foi o ideal, o processo seletivo foi bom. O treinamento nosso no Japão foi correto, os investimentos foram bem feitos, acho que procurou-se suprir ao máximo as necessidades dos atletas, houve respaldo para chegarmos lá e brigar por medalha, se não veio foi por uma fatalidade.

Tem gente que falou que esperava até sete medalhas do judô, mas é uma Olimpíada, a gente não estava num Sul-Americano. E a gente sabe que os que mais falam e cobram são aqueles que nunca subiram no tatame, que nunca colocaram a bandeira no peito e competiram de igual apara igual com atleta da Europa, da Ásia, da Oceania, da África. Mesmo que um dia eu fique fora da seleção se eu perder uma seletiva, acho que eles estão no caminho certo.

JC - Se você tivesse que dar uma medalha de ouro para um só atleta, para quem você daria?

Sabino - Eu daria para delegação toda, porque para chegar nessas Olimpíadas não foi fácil, passamos por um processo seletivo muito duro, com três seletivas. Depois tivemos um Pan-Americano na seqüência, fomos para a França treinamos dez dias, depois 20 dias no Japão, que não foram fáceis também. Tudo para fazer o máximo numa Olimpíada e chegou lá todos deram tudo de si. Acho que o Brasil não ficou atrás de ninguém em termos de vontade.

A medalha de ouro vai para a equipe inteira, inclusive para a comissão técnica, porque tivemos um trabalho nutricional muito bem feito, tivemos uma psicóloga e uma fisioterapeuta que, aliás, trabalhou muito para soltar braço, destravar pescoço, etc.

JC – Uma palavra fnal.

Sabino - Eu quero agradecer todos que torceram por mim, não preciso citar nomes porque sempre tem pessoas que me ajudam muito aqui em Bauru, apesar de eu lutar por São Caetano. Quero deixar meu agradecimento ao povo de Bauru, à corporação da Polícia Militar e deixar claro que minha briga por uma medalha olímpica não terminou e eu não vou descansar enquanto não buscá-la. E com certeza vou fazer de tudo para estar nas próximas Olimpíadas e que até lá não vou parar.

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