Exclusão social talvez seja a palavra mais indicada para retratar a realidade do Jardim Ivone. O bairro, localizado na região Norte da cidade, tem um dos bolsões de pobreza mais carentes do município.
A comunidade tem cerca de 1,2 mil habitantes. Aproximadamente 480 moram na favela do Jardim Ivone, localizada às margens do córrego do Barreirinho. Do total da população, 40% têm renda familiar de até um salário mínimo. Outros 34% recebem de um a dois salários mínimos.
Os números são de pesquisa realizada pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE). Outro dado alarmante é a grande quantidade de desempregados - 11% - e de pessoas que sobrevivem através de empregos informais - 20%.
Das crianças moradoras do Jardim Ivone, 84% não estão matriculadas em escolas. As que freqüentam aulas são obrigadas a atravessar diariamente a rodovia Bauru-Iacanga para chegar à unidade localizada na Vila São Paulo.
Embora trate-se de uma população bastante carente, 85% das pessoas não recebem benefícios assistenciais. A própria Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) admite que os programas municipais direcionados a pessoas carentes atendem apenas 15 famílias do Jardim Ivone.
“Acho que 15 famílias é pouco. Mas é o que a Sebes pode fazer por enquanto”, diz a titular da pasta, Lilia Christina de Oliveira Martins.
A secretária afirma que a solução seria a implantação de novos Núcleos de Apoio Sócio-Familiar (NAFs). Entretanto, ainda não há previsão de criação de uma unidade que supra a demanda reprimida do Jardim Ivone.
“Temos previsão de aumentar os NAFs. Há perspectiva de construção de novos. Os locais ainda não foram definidos. Vai depender de estudos da prefeitura”, diz Lilia.
Para a professora Maria Inês Fontana, que coordenou a pesquisa sobre o Jardim Ivone, o bairro demanda medidas emergenciais por parte da administração municipal.
“Eu não acredito que seja só culpa da prefeitura, mas acho que ela deveria fazer alguma coisa. Pouca gente nesse bairro tem algum tipo de benefício. E, quando eles falam em benefício, se reportam apenas às pessoas que distribuem cestas básicas”, diz.
A professora reforça que os programas municipais de assistência são praticamente ausentes no bairro. “Essa comunidade deveria ser incluída nos programas. O Bolsa-Escola, em que alguns estão inscritos, só atende a criança. E as famílias precisam de um atendimento global. É preciso orientar e trabalhar com essas famílias”, frisa.
Maria Inês explica que a pesquisa realizada teve como objetivo traçar um perfil do bairro para posteriormente servir de ferramenta para beneficiar a população carente. “O primeiro passo para intervir num local é conhecer a realidade da comunidade a ser atendida”, afirma.
Ela salienta que a situação é extremamente crítica no local. “É uma comunidade muito, muito pobre. Não tem escola, não tem recursos no bairro. Parece uma população esquecida. É um bairro que parece não fazer parte de Bauru. Tem muita gente desempregada e muitos vivem de catar lixo. É preocupante”, expõe. E os habitantes sofrem. É o caso de Isabel Alcácia de Souza, 41 anos. Ela mora com um filho e o marido em um barraco da favela do Jardim Ivone. Todos estão desempregados há cerca de seis anos.
“Nós pegamos doações de entidades e vamos vivendo. Não aparece nem um bico para o meu marido. Quando aparece, eles nem pagam direito. Por isso sempre falta mantimento e outras coisas em casa”, revela.
A moradora conta que antes do marido perder o emprego, a família morava no Parque Vista Alegre. “Pela primeira vez estamos morando numa favela. É bem diferente. Onde eu morava era gostoso”, conta.
Há dez anos na favela, Valdir Alves Teodoro, 45 anos, pede providências aos
governantes. “Não temos nem mais esperança de que as coisas melhorem. Temos sempre promessas, promessas. Somos um pessoal esquecido”, argumenta.
Valdir confirma que a boa parte dos moradores estão desempregados e que muitos sobrevivem recolhendo materiais recicláveis pelas ruas.
“Se tem alguém empregado aqui são um ou dois. Em vez de melhorar, as coisas estão sempre piorando. Aqui não há tendência de melhorar. As pessoas são necessitadas em todos os aspectos. Não há condições nem de manter a higiene. As casas são uma no fundo da outra. As mulheres não têm condições de cuidar direito das casas e os esposos não conseguem dar aquilo que queriam para suas famílias”, diz.
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Sobre o bairro
O loteamento que deu origem ao Jardim Ivone foi aprovado pela Prefeitura de Bauru em 1972.
Ele está localizado a cerca de oito quilômetros do centro da cidade, na região Norte do município. O bairro é separado da Pousada da Esperança e da Vila São Paulo pela rodovia Cezário José de Castilho (Bauru-Iacanga).
Atualmente, há cerca de 1,2 mil habitantes no bairro. Desses, aproximadamente 500 pessoas são moradoras da favela do Jardim Ivone (os demais vivem na “parte alta” do bairro, que é melhor servida em infra-estrutura).
Na época da aprovação do loteamento, as exigências de infra-estrutura feitas por parte da administração municipal não eram tão rígidas como as de hoje. É que ainda não haviam sido aprovadas as leis federal (de 1979) e municipal (de 1982), que viriam a determinar os pré-requisitos a serem cumpridos pelo loteador para liberação do empreendimento.
Foi destinada como área verde do bairro uma área de preservação permanente - às margens do Córrego do Barreirinho - que hoje é ocupada pela favela.