Se os moradores do Jardim Ivone dependessem exclusivamente da Prefeitura de Bauru para melhorar suas condições de vida, seria difícil ver uma luz no fim do túnel. É que, das cerca de 1,2 mil pessoas que vivem no local, apenas 15 famílias são atendidas por programa municipal de assistência. A informação é de Lilia Christina de Oliveira Martins, titular da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes).
A partir desta afirmação, pode-se entender melhor o motivo pelo qual boa parte dos moradores do Jardim Ivone entrevistados pelo JC nos Bairros afirmam que não recebem qualquer tipo de assistência. Em outros casos, dizem que de vez em quando ganham sacolas com alguns mantimentos.
Vale lembrar que dos quase 1,2 mil habitantes do bairro, cerca de 40% moram na favela localizada às margens do córrego do Barreirinho.
A secretária admite que há diversas e intensas carências no bairro mas afirma que nada além do que está sendo realizado pela administração municipal pode ser feito nesse momento. “Acho que 15 famílias é pouco, mas é o que a Sebes pode fazer por enquanto”, diz.
Lilia acredita que a assistência oferecida à comunidade da favela do Jardim Ivone deveria ser melhorada. “É uma comunidade bem sofrida, bem carente. As casas são muito pobres e no bairro há apenas um espaço de lazer que é um terreno onde os meninos jogam bola e as pessoas se encontram. As residências da favela não têm infra-estrutura. São pessoas que estão na linha da exclusão social e teriam de ter atendimento do poder público”, admite.
O agravante é que a administração municipal alega que atualmente não dispõe de meios para implantar projetos no local. “Esse atendimento especial direto ao Jardim Ivone nós não temos ainda”, lamenta.
De acordo com Lilia, a forma mais próxima e completa de atender uma comunidade carente em Bauru é através da criação de Núcleos de Apoio Sócio-Familiar (NAFs). Atualmente, existem três unidades em Bauru - Parque Jaraguá , Ferradura Mirim e Nova Bauru.
Lilia explica que o NAF Nova Bauru atende os bairros Pousada da Esperança, Vila São Paulo, Quinta da Bela Olinda e cerca de 15 famílias do Jardim Ivone. Devido à abrangência de atendimento da unidade, não é possível incluir mais moradores da favela.
“Nós atendemos algumas famílias do Jardim Ivone na unidade do Nova Bauru. Não temos instituição assistencial dentro do bairro Jardim Ivone. Mas há um atendimento muito atuante da igreja católica Nossa Senhora das Graças”, garante.
Dada a grande quantidade de famílias marginalizadas, como é o caso de grande parte da população do Jardim Ivone e de outras favelas de Bauru, a titular da Sebes afirma que o ideal seria criar NAFs exclusivos para o atendimento a determinados bolsões de pobreza.
Com esse objetivo, está sendo estudada pela Sebes a criação de uma unidade no Parque Real, que também concentra grande quantidade de habitantes carentes. A previsão é que a nova unidade seja inaugurada até o final deste ano.
“O Parque Real tem uma realidade semelhante à do Jardim Ivone. Através de parcerias, estamos montando um NAF naquele local”, argumenta.
Entretanto, ainda não há previsão de criação de uma outra unidade que supra a demanda reprimida do Jardim Ivone. Não há locais definidos nem prazos estipulados para isso.
“Temos previsão de aumentar os NAFs. Há perspectiva de construção de novos. Os locais ainda não foram definidos. Vai depender de estudos da prefeitura”, diz. “Não temos prazo para novos NAFs ainda”, reforça a secretária municipal do Bem-Estar Social.
Lilia acrescenta, ainda, que a Sebes tem utilizado estudos realizados por instituições privadas de ensino e pesquisa para detectar os principais focos de
carência e pobreza de Bauru. Ela cita uma pesquisa realizada pela Faculdade de
Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) sobre o Jardim Ivone – Desvelando a exclusão social no Jardim Ivone”.
“Como a ITE tem esse trabalho de diagnóstico das regiões, fizemos uma parceria para que eles nos repassem cada estudo realizado. Assim, podemos ter de maneira científica os levantamentos de cada bairro. Isso ajuda na implantação de novos NAFs”, justifica a secretária.
Questionada sobre a existência de um trabalho de diagnóstico realizado pela própria prefeitura, Lilia responde que a Sebes também faz esse tipo de pesquisa com objetivo de localizar e traçar um perfil dos bolsões de pobreza do município.
Entretanto, o trabalho não é científico.
“A Sebes também faz estudos, mas agora estamos mais respaldados cientificamente. Achei esses estudos sérios e científicos. Os diagnósticos
são importantíssimos”, destaca.
NAFs
Os NAFs são programas que podem ser implantados pelo poder público municipal através de parcerias com instituições privadas. A unidade do Parque Jaraguá, por exemplo, é mantida pela prefeitura e pela Fundação Toledo. O NAF do bairro Ferradura Mirim recebe recursos municipais e da Universidade do Sagrado Coração (USC). Já a unidade Nova Bauru, inaugurada recentemente, é mantida exclusivamente comverba municipal.
Trata-se de um programa de atendimento global à família carente. Através do NAF, as famílias recebem atendimento psicológico; cursos de geração de renda; atendimento emergencial com encaminhamento para cestas básicas, medicamentos, óculos, etc (quando houver necessidade); capacitação e encaminhamento para o emprego ou para a central de encaminhamento ao mercado de trabalho.
Através do NAF, os moradores são inscritos em programas municipais de assistência, além de escolas e creches. Por exemplo, um idoso pode ser cadastrado num programa voltado para a terceira idade.
“O NAF centraliza as ações e utiliza toda a rede de serviços assistenciais para fazer o atendimento”, afirma a secretária.
Para que cada família seja atendida da forma considerada adequada ela passa por avaliação de um técnico que estuda os principais problemas e define as ações necessárias para buscar a emancipação dos moradores.
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Violência
Quanto à segurança do Jardim Ivone, dados da Polícia Militar (PM) não confirmam as reclamações dos moradores.
De janeiro a agosto deste ano, foram registrados apenas dois furtos e um roubo no local. De acordo com o tenente Alessandro Rosseto da Silva, relações- públicas
do Comando de Policiamento do Interior 4 (CPI-4), grande parte das ocorrências atendidas pela PM no Jardim Ivone não têm gravidade.
“Esse medo ou insegurança ocorre pelo próprio estigma de favela. Mas não é tudo aquilo que se pinta”, garante o tenente.
Ele afirma que o número de ocorrências graves é muito baixo ou praticamente inexistente. “Existem áreas muito mais violentas naquela região”, destaca.
A PM é acionada com mais freqüência no bairro por pequenos furtos ou desentendimentos entre vizinhos, por exemplo. “Não existe essa violência de que o pessoal fala. Está na cabeça das pessoas”, diz.