É importante ter janelas abertas para o mundo todo e conhecer a cultura, os problemas, as belezas e conquistas de outros povos. Mas é ainda mais importante assegurar o espaço para que a expressão e a elaboração dos problemas locais sejam discutidos pelos próprios cidadãos. Assim, a imprensa do interior, que muitas vezes sofre de pruridos globalizantes, deve ajudar na auto-organização das comunidades onde atua. A mídia do local ou da região compõe um fórum de discussões propício à avaliação das políticas públicas. Mais ainda como instrumento fiscalizador da aplicação do dinheiro dos impostos arrecadados, de forma a assegurar total transparência nos gastos.
Rosseau (1712-1778) já pregava que a vontade geral tem que ser construída com a participação efetiva dos cidadãos. Modernamente Jacques Derrida, o grande pensador francês, ainda há pouco no Brasil assegurava que o equilíbrio entre o Estado e o Mercado para poder de alguma forma minorar os efeitos da globalização (mundialização, como preferem os franceses), começa na comunidade. Este é o campo lógico das lutas que têm como objetivo a conquista dos direitos sociais e onde também se perde o que já foi conquistado a duras penas. O próprio Banco Mundial, desde 1970, vem batendo num slogan que ele mesmo criou para este milênio – “Pense globalmente. Aja localmente”. Com toda razão a instituição de fomento a programas sociais nos países pobres defende que o localismo é a força para se chegar à democracia e ao controle social sobre as tomadas de decisões e desenvolvimento. Muitas histórias de sucesso demonstram que os esforços com base na comunidade, ajudadas pelos governos nacionais e agências globais, são determinantes no desenvolvimento.
É assunto “pra mais de metro”, como se diz lá em Minas. Defendi meu doutorado em cima desses conceitos e por isso mesmo fiquei muito agradecido por ter sido convidado para assistir ao I Seminário da Associação Paulista de Jornais, tendo o JC como anfitrião, e que tratou, justamente, da importância da informação regional. A palestra principal do jornalista Marcelo Rech, diretor de redação do Zero Hora, foi sobre as experiências bem sucedidas dos jornais do grupo de comunicação RBS, no Sul. Debita o sucesso, entre outras coisas, ao enfoque local na defesa da comunidade, dos seus valores e tradições, além de fazê-la pensar. Mesmo os países de cultura hegemônica como os Estados Unidos têm essa preocupação. As pesquisas de recepção revelam o sucesso de leitura das matérias onde pessoas comuns (ordinary people) aparecem fazendo coisas estimulantes e positivas. As matérias de perfis contando histórias como a do vendedor de frutas da esquina do bairro têm mais aceitação de que os grandes fatos globais. Mais nos toca, e revolta, a foto da garotinha despedindo-se do seu cão atacado de leishmaniose e a caminho do sacrifício, do que a tragédia na Chechênia. O forte relacionamento com o leitor mediante a publicação das suas cartas, do atendimento aos seus telefonemas e e-mails é o que tem servido para reverter a tendência de queda de leitura e conseqüente queda de tiragem dos produtos impressos em todo o mundo. O Zero Hora mantém uma editoria, com sete pessoas, só para atender o pedido dos leitores que querem saber a receita de algum prato especial ou onde adquirir o sapato calçado pela moça fotografada na página de modas. Essa atenção é que torna os leitores solidários ao meio e ampliam a sua credibilidade.
Não é à toa que a Constituição obriga ao rádio e à televisão a regionalização da produção cultural, artística e jornalística. Infelizmente, por falta de lei ordinária fixando os percentuais, o dispositivo nunca foi cumprido. Por outro lado, por exigência do próprio mercado vemos as emissoras de TV cada vez mais ampliando os seus programas dedicados à comunidade. Descobriram que o anunciante prefere identificar seus produtos com as coisas locais. É uma forma de se solidarizar com a população. De nada vale um mundo sem fronteiras, mas a mercê dos megaconglomerados do entretenimento, se viermos a perder a nossa identidade. Isso não significa uma “briga” contra os processos de globalização. O local e o global são duas caras do novo mapa informativo.
Todos esses aspectos devem presidir nossas reflexões, mas sem esquecer que no novo marco da sociedade do terceiro milênio o âmbito das relações primárias dos cidadãos continuará sendo com as pessoas próximas, as que têm um mesmo idioma, um mesmo horizonte e uma mesma identidade e realidade local. A maioria dos cidadãos, diante dessa pletora intercomunicativa planetária, acabará por repensar as relações com o seu entorno, com o seu âmbito social mais imediato.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC