Sobre Tito Madi, compositor e cantor, o sr. Edson Marindo Ó teceu oportunos e merecidos comentários em carta a este jornal, por sua apresentação no Sesc, acompanhado do pianista Haroldo Goldfarb. Gostaria, entretanto, de comentar o Tito Madi cronista, que há mais de ano brinda os leitores do semanário “O Alfinete”, de Pirajuí, a cidade do artista, o qual já está em seu sexto ano de publicação.
Semanalmente leio a “Crônica do Tito”, bem como outras colunas, a do professor e poeta Omar Khouri, a do Lê Touchê, a do Henrique Perazzi de Aquino, e de outros profícuos colunistas.
Tito Madi, cronista, é simples, direto, mas leve, tranqüilo, despretensioso, de bem com a vida, escreve com muita graça. A impressão é a de que não quer fazer crônica, apenas conversar com o conterrâneo, lembrando o Tito cantor, quando conversa com o público no intervalo entre uma canção e outra. Aliás, o próprio artista diz que apenas relata “momentos e fatos importantes e inesquecíveis que colecionou em seus cinqüenta e dois anos de música”. Mas o que ele nem imagina é a importância desses relatos, em que tomamos conhecimento de fatos interessantes e até então desconhecidos da história da música popular brasileira, dos artistas, dos bastidores dos palcos, de sua vivência e experiência, da vida de admirados cantores e compositores da música popular brasileira e até internacional.
Das muitas crônicas, uma delas chamou-me a atenção particularmente. “Chove lá fora”, exatamente o nome de seu maior sucesso musical, que gravou em 1955, no Rio. Além de informações bem interessantes sobre fatos que envolveram a canção, como a gravação, o prêmio recebido, a inúmeras gravações por outros cantores, destacando-se a do conjunto The Platters, Tiro relata o momento em que surgiu a inspiração para compor os versos da inesquecível canção. Surgiu em Pirajuí, na propriedade de sua irmã. Compôs ali dentro de um barquinho, embaixo de uma linda árvore, que o protegia de forte sol, num céu azul sem nuvens e, claro, nem um pingo d’água. No entanto, escreveu: “A noite está tão fria/ chove lá fora.../ e essa saudade.../ não vai embora./ Quisera compreender/ por que partiste.../ E a chuva continua/ mais forte ainda,/ só Deus pode entender/ como é infinda...” Tito termina a crônica dizendo que quando lhe perguntam se de fato chovia muito naquele momento, sempre responde: “Chovia sim intensamente dentro de mim.” Este final me fez refletir sobre alguns aspectos da criação literária, particularmente a poesia, que gostaria de registrar aqui.
O compositor revela-se um poeta pela presença do eu-lírico, aquele outro “eu”, independente do cantor, do profissional. De um lado, o autor, em seu aprazível ambiente, embaixo de uma árvore, protegido de sol forte, preocupa-se apenas em descansar. Por outro lado seu eu-lírico, seu lado “poeta”, naquele mesmo momento, em ambiente inóspito, noite fria e chuvosa, pensa num indefinido amor que partiu. Vê-se que o ambiente circunstancial imaginário é tão diferente do ambiente real, quanto possa ser diferente a musa ideal (de idéia) e fictícia, da companheira real. São duas entidades em situações bem diversas e insólitas.
Mas o interesse do autor, bem como do leitor, deve estar voltado à qualidade ou novidade da linguagem do texto, ao produto acabado, não importando que o motivo de uma canção ou poema tenha sido um sentimento de alegria ou tristeza, real ou fictício, em relação ao amor. Pode acontecer que autor e eu-lírico tenham ou não a mesma ideologia, gostem ou não das mesmas coisas, amem ou desprezem a mesma mulher. Entretanto, quem apostar que num poema lírico, a mulher endeusada ou desprezada é a ex-mulher, a atual ou uma outra futura do autor, e não alguma musa momentânea e a descartável de seu eu-lírico, pode estar redondamente enganado. A essa característica do poeta, Fernando Pessoa denominou “fingidor”, nos versos: “O poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente.” Fingidor para mim, salvo outra interpretação, é o criador, isto é, a pessoa, homem ou mulher, que extrai de si, de sua sensibilidade, intuição, de sua longa experiência e vivência, a matéria para compor a criatura, seja essa criatura o “eu-lírico” do autor, como se nele incorporado, ou um personagem qualquer, se o autor for um escritor ficcionista. O próprio Fernando Pessoa teve que criar os famosos heterônimos, para agasalhar as diferentes personalidades de seus vários eu-líricos, como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e outros. Há outros poetas que criam heterônimos ou pseudônimos, com pensamento e linguagem diferentes do próprio eu-lírico original, como os nossos estimados poetas bauruenses Mafra Carboniéri e José Carlos Mendes Brandão, ambos nossos confrades na Academia Bauruense de Letras. Aquele publicou obras de seus heterônimos Conrado Honório, Aldo Tarrento e Orso Cremonesi. Este assina Gregório Vaz em dezenas de poemas.
As idéias, sentimentos ou personagens, depois de inventados e transformados em produto artístico pelo autor (poeta ou ficcionista), passam a ter vida própria e a pertencerem ao contexto inventado, tornando-se criaturas, sem vinculação com o contexto da vida do autor.
O privilégio da criação literária somente é dado ao poeta ou ao ficcionista, pequenos demiurgos, criadores de um mundo fictício, mundo paralelo a esta nossa realidade, que por sua vez nos é oferecida ou imposta, com interrogações e infinitas contradições, pelo grande demiurgo, autor deste vasto mundo e da vida. Admirei a crônica do Tito Madi, por ser um exemplo vivo de vivência poética ou lírica, possibilitando nossas reflexões sobre a distinção entre o profissional (autor) e o seu eu-lírico. Ao Tito (Chauki) Madi, ilustre conterrâneo da minha também saudosa Pirajuí, parabéns e obrigado pelo mundo poético e bom que criou ao longo de sua carreira, e que está enriquecendo ainda mais com suas interessantes e agradáveis crônicas.
Caleb P. de Barros - RG 2.549.247