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A droga da felicidade


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Meu filho tem 14 anos. Nesses últimos dias vem repetindo que anda muito estressado e que não vê a hora de chegarem as férias. Num primeiro momento, achei que era mais um chilique, mas, depois, consultando sua agenda, parei para pensar. Faz curso de inglês, português, xadrez. A escola e as tarefas absorvem mais da metade do seu dia e ainda há a tal da aula de tênis. Agora ele quer fazer aulas de violão também! Aí me fiz uma série de perguntas.

Quantas horas sobram para ele ser criança. Para ver os amigos. Para aproveitar a vida. Para viver sua idade? Como meu filho, meus alunos cada vez estão mais tensos, mais chorosos, mais agressivos, mais chatos.

A agenda deles é pior do que a de muitos executivos de multinacionais. Colocamos nos ombros deles um nível de responsabilidade em relação ao seu futuro só comparável aos dos reis ou sacerdotes da antigüidade.

Investimento. Essa é a palavra da qual os pais e os professores mais gostam. “Estou investindo em você, filho!” Estresse, depressão, medo, nervosismo: só se fala nisso nos corredores das escolas. Por quê? Porque são impostas metas a eles para as quais não estão nem orgânica, nem psicologicamente preparados. Ouvem o tempo todo que, se não estudarem, o bicho-papão do vestibular irá engoli-los, sem que esbocem uma reação. Têm que escolher uma profissão, geralmente para herdarem a clínica ou consultório do pai ou para ganharem dinheiro ou para terem status ou para atenderem às novas exigências do mercado. Sempre o mercado! E o talento? Talento é apenas um detalhe, quase sempre desprezado tanto pelos pais quanto pela sociedade. Dinheiro compra tudo, até mesmo a respeitabilidade para os incompetentes.

Esses garotos e garotas viraram reféns de um sistema educacional para lá de desumano e de uma sociedade que cultiva valores para lá de absurdos. Foi instituído o pior tipo de darwinismo social, o vestibular. Preparar-se para ele é como escalar o Himalaia: em cada canto, haverá uma surpresa; a cada instante poderá haver um deslizamento; a cada momento a tentação de desistir será mais intensa do que a resistência para atingir o objetivo.

Durante as minhas aulas, tento conversar com meus alunos. Sempre digo a eles: Pensem como os alcoólicos anônimos - um dia de cada vez. Não adianta nos impormos metas que estão muito distantes, pois, invariavelmente, perderemos o foco. Sempre um deles grita: aula! aula! Em alguns bate-papos nos corredores, proponho que procurem estudar para saber e não para passar numa prova. Proponho que escolham a profissão que os fará felizes, porque o dinheiro será conseqüência disso. Eles riem ironicamente no meio da frase: “Vou trazer meu pai aqui pro senhor falar isso pra ele”. Essa entidade tão concreta e, ao mesmo tempo, tão abstrata, chamada mercado, não anda perdoando os frustrados ou infelizes ou despreparados. Estamos criando nossos filhos para os terapeutas, para os psiquiatras ou os psicólogos.

O que estamos fazendo com nossos filhos? Em nome do tal do mercado, estamos transformando-os em depósitos de matérias. Trocamos a formação pela informação. Falamos para eles, com aquele ar saudosista, que, no nosso tempo, era diferente, como se tivéssemos saído do paraíso. Entupimos nossos filhos de compromissos em nome de um sucesso que eles só terão se estiverem preparados para brigar por seu lugar ao sol, mesmo que não estejam felizes. Se sentirem frustrados, incapazes, desprezados, temos a droga da felicidade que estabelecerá novas conexões neurais: E viva o Prosac! (O autor, Luiz Cláudio Jubilato, é professor )

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