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"Tem café no bule"


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As revistas semanais têm revelado os salários pagos pelas emissoras de televisão aos seus artistas e apresentadores. Provocam inveja e revolta. Quem luta para pagar suas contas todo mês sente-se mal aquinhoado na vida. “O que que eles têm que eu não tenho?” A apresentadora Angélica recebeu R$ 2 milhões em luvas para renovar seu contrato e fez uma concessão para submeter-se a um salário de R$ 300 mil. Carlos Ratinho Massa recebeu uma oferta de quase R$ 2 milhões por mês para renovar com o SBT, mas a Record acena com uma proposta melhor. A revista “Veja” desfila os principais ganhos mensais da TV do Reino de Deus, literalmente: Ana Hickmann, R$ 120 mil; Paulo Henrique Amorim, R$ 200 mil; Marcelo Resende, R$ 250 mil; Boris Casoy, R$ 750 mil; Tom Cavalcanti, R$ 350 mil em salário mais merchandising; Netinho, R$ 350 mil; Claudete Troiano, R$ 350 mil; Raul Gil, R$ 700 mil; Milton Neves, R$ 800 mil. Ufa! Coitado do Lula que está o dia inteiro na televisão e fornece manchetes para jornais todos os dias para ganhar menos do que R$ 11 mil.

O raciocínio lógico que qualquer pessoa faz tem como premissa básica o fato de serem empresas privadas, donas do próprio dinheiro. Se cacifam tão alto no profissionalismo dessas senhoras e senhores é porque valem seu peso em ouro... ou diamantes.

Agora, o que violenta a razão é a notícia da incessante busca de recursos por parte das empresas de radiodifusão e dos jornais e revistas junto ao BNDES, um banco de desenvolvimento social que se utiliza do meu, do seu, do nosso dinheiro, para “alavancar a economia”. Pelo menos segundo seus estatutos. Se o faturamento comporta salários milionários é sinal que a margem de lucro é grande. Então, o governo não tem que socorrer nenhuma pessoa jurídica na UTI, atacada por dívidas contraídas em dólar. O banco existe para financiar projetos novos. Chega a emenda à Constituição que agora permite capital estrangeiro na mídia nacional. Essa participação, hoje, é de 30%, mas as empresas querem chegar a 100% de participação acionária. Os megaconglomerados da indústria do entretenimento, o capital sem rosto, vão acabar tomando conta dos meios de opinião e da indústria cultural.

O pior é que essa generosidade financeira parece ter contaminado também o presidente Lula. O Brasil tem uma dívida externa de R$ 900 bilhões (US$ 300 bilhões). Isso não preocupa nosso amado supremo mandatário que outro dia recebeu o presidente de Moçambique Joaquim Chissano e brindou-o com o perdão de uma dívida de US$ 315 milhões. Quando visitou o Gabão deixou barato para o ditador sanguinário do país africano, mais US$ 36 milhões. Na mesma viagem, para não perder o embalo, pendurou a conta de Cabo Verde avaliada em US$ 2,7 bilhões. E para provar que não veio ao mundo a passeio Lula aconselhou o seu colega boliviano não esquentar com o que seu país deve ao Brasil - uma bagatela de US$ 48,7 bilhões. É verdade que essa farra com o nosso dinheiro vem desde o tempo do Barão do Rio Branco que se associou ao país-irmão para construir a ferrovia Madeira-Mamoré. O Brasil vem de longe com esses prodígios. A Polônia, no tempo do Lech Walensa, o Lula que não deu certo, conseguiu perdão de US$ 1,2 bilhão. FHC isentou a Nicarágua de míseros US$ 126 milhões.

Pesquisa de uma subsidiária do Ibope nos dá conta de que 52 milhões de brasileiros de 15 a 64 anos (29% da população) não sabem quanto é 15 + 7. É o analfabetismo matemático, fruto das deficiências do nosso ensino por falta de verbas apropriadas. Como diz o Lula repetindo o Ratinho quando este se refere ao crime organizado: “Tem café no bule!”. A gente não sabe o que isso significa, mas... imagina. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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