Bairros

Casos simples sobrecarregam o HE

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Com fortes dores nas costas, o paciente agenda consulta com o ortopedista e descobre uma infecção nos rins. A criança, com dor de cabeça intensa, passa pelo neurologista, mas sofre de asma. Homem é encaminhado para cirurgia geral para remover uma verruga, quando o procedimento não exige nem anestesia local. Casos simples como esses, que poderiam ser resolvidos pelas unidades básicas de saúde, vão bater às portas do Hospital Estadual (HE) de Bauru todos os dias.

Com o sistema público de saúde precário, quase metade dos pacientes encaminhados ao hospital, cuja atribuição é prestar atendimento especializado, é conduzida para lá de maneira equivocada ou aguardou desnecessariamente por uma consulta. “Isso acaba sobrecarregando o serviço”, alerta o diretor de assistência à saúde do HE, Carlos Alberto Macharelli.

Os números confirmam: 10.143 consultas são realizadas por mês, sendo que a previsão de atendimento não passa de 8.835. Por causa do fluxo de pacientes além do estimado, o HE está providenciando a ampliação do ambulatório em 700 metros quadrados, obra orçada em aproximadamente R$ 600 mil.

A aposta para estancar os números está no treinamento das equipes médicas das unidades e núcleos de saúde. Segundo Macharelli, o assunto foi discutido recentemente com o secretário municipal de saúde, João Sérgio Carneiro.

“Tem paciente que não aceita o tratamento da unidade básica de saúde. Ele quer o especialista por uma questão de tranqüilidade pessoal. Não tenho estatísticas, mas acho que o percentual de consultas desnecessárias não é tão expressivo quanto o apresentado pelo HE”, explica Carneiro.

No Hospital de Base (HB), também responsável por atendimentos especializados (principalmente os de urgência e emergência), a incidência de casos dessa natureza deve ser de no máximo 20%, estima José Cardoso Neto, administrador da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), entidade que gerencia o HB, a Maternidade Santa Isabel e o Hospital Manoel de Abreu.

“Deveria haver maior rigidez no controle de pedidos de exame e encaminhamentos para especialidades”, reitera Cardoso Neto. De cada quatro pacientes que chegam à unidade básica de saúde, um é conduzido a uma unidade especializada, acrescenta o diretor da Direção Regional de Saúde (Dir-10), Affonso Viviani.

Ele tem discutido com os municípios da região a elaboração de protocolos de atendimento que, se cumpridos pelos profissionais de saúde, podem evitar consultas desnecessárias ou equivocadas. “Parte (dos protocolos) está definido. Algumas especialidades estão em fase de elaboração. Precisamos qualificar (o atendimento nas unidades para ampliar o atendimento)”, explica.

Concorda com ele, o artista plástico Percy Coppieters, que há pouco mais de um ano sofreu um infarto e uma parada cardíaca. Safenado, ele não se sente tranqüilo ao passar apenas pelo atendimento do núcleo de saúde. “É muito precário, não tem exame, não tem medicamento. Assusta o paciente e o médico”, conclui.

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Unidades especializadas têm gargalos

Dois meses na fila de espera para conseguir uma consulta com um otorrinolaringologista (médico especialista em nariz e garganta). Foi o período que Silvia Cardoso da Silva esperou para levar a filha Kerolin Dayan de Oliveira ao médico. “Foi um achado. A assistente social do núcleo disse que é muito difícil conseguir em pouco tempo”, conta.

Além da sorte, a espera só não foi maior porque a especialidade que ela procurava é a quarta com maior número de agendamentos no Hospital Estadual (HE). Estão à frente a oftalmologia, seguida pela neurologia adulta e pela ortopedia. Os gargalos são os mesmos no Hospital de Base (HB), que assim como o HE não divulgou números.

Para passar por um oftalmologista no HE, o paciente aguarda em média cinco meses. Com a realização de mutirões e a contratação de mais médicos, a diretoria do hospital espera equacionar a situação. Já a ampliação de atendimento no HB depende das cotas estabelecidas pelo SUS.

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