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Conteúdo, a demanda do leitor


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A Associação Nacional de Jornais (ANJ) completou suas bodas de prata. Ao contrário do que afirmam certos representantes de um sindicalismo amargo e rançoso, a instituição tem sido responsável pela crescente profissionalização das Redações, pela promoção do debate aberto e democrático a respeito de temas relevantes para o jornalismo, pela defesa firme da liberdade de imprensa e de expressão e pela valorização dos recursos humanos. Em artigo que escrevi para o jornal da entidade, manifestei algumas preocupações com os rumos da mídia impressa. Gostaria, caro leitor, de compartilhar com você, destinatário final dos nossos erros e acertos, algumas dessas idéias.

Para quem acredita que o sucesso das empresas de comunicação depende de sua capacidade de dar ao público o que ele quer (ou imagina que quer), proponho uma reflexão: quem só vai atrás de supostas demandas do mercado pode conseguir sucesso imediato, mas corre o risco de perder prestígio a longo prazo. No setor da informação, a empresa que mais se fortalece é aquela que tem a coragem de mudar, mas, ao mesmo tempo, crê em alguma coisa, tem uma mensagem para transmitir. O verdadeiro crescimento sustentado rejeita o imediatismo do vale-tudo mercadológico.

A fórmula de um bom jornal se resume a uma equilibrada combinação de mudança e coerência. Os jornais, sobretudo os que têm história e um patrimônio ético a preservar, não se podem lançar em aventuras inconseqüentes. As mudanças, contínuas e necessárias, não devem alterar o DNA do produto, não podem arranhar sua identidade editorial. Mas, ao mesmo tempo, não há nada de mais pernicioso que a teimosia dos comportamentos imobilistas. É preciso - e é aí que reside a dificuldade - conquistar novos leitores sem perder a fidelidade dos antigos. A empreitada, fascinante, pressupõe a decisão estratégica de travar uma verdadeira revolução nos conteúdos: a conquista que não se dá pelo artificialismo dos anabolizantes, mas pelo ímã da qualidade editorial. A reinvenção do jornalismo pede a ousadia do revolucionário e o realismo pragmático de quem sabe que o sucesso de uma publicação depende de sua fina sintonia com as verdadeiras (não as aparentes ou supostas) necessidades do mercado. O jornal de prestígio é o resultado da sinergia entre as políticas editoriais e as possibilidades do negócio. A revalorização da reportagem e da informação local deve ser uma das prioridades estratégicas. Teimosamente escanteada pelo comodismo do jornalismo de hambúrguer (insosso e pouco criativo), a reportagem é uma das mais nítidas demandas do leitorado. É preciso atrair o leitor com matérias que rompam com a mcdonaldização dos jornais. (...)

Costumo dizer que, hoje em dia, o pauteiro se transformou em agendeiro. Dependendo da geografia da Redação, nem sequer sabe como anda o tempo. Assim, não dá. Os jornais de maior sucesso são aqueles que decidiram retomar os investimentos na reportagem de qualidade. A globalização, argumento utilizado para justificar certo descaso com a informação local, está produzindo, na prática, um fenômeno curioso: quando tudo parece ser transnacional, o local ganha sabor e importância. O leitor quer saber o que acontece na sua cidade, no seu bairro, no seu quarteirão.

O que vai atrair novas audiências é uma ágil e moderna prestação de serviços, é a informação que não traz o gosto requentado do telejornal da véspera, é a matéria que ultrapassa a superficialidade, é a pauta ousada e criativa. Não devemos creditar a perda de leitores à sua suposta migração para os meios audiovisuais. Devemos, sim, questionar a qualidade do produto que estamos oferecendo. Só uma revolução nos conteúdos, na ética e nos recursos humanos garantirá o crescimento sustentado. (O autor, Carlos Alberto Di Franco, é diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é diretor para o Brasil da Mediacción)

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