Diego Molina
Será que podemos contribuir para o Brasil dar certo? A questão foi o tema da palestra ministrada por Ozires Silva nesta semana em Bauru. E ele responde que sim, que o País pode buscar seu desenvolvimento econômico com ações que não são fáceis, contudo, não seriam impossíveis. Em sua opinião, o País carece atualmente de ações empreendedoras que movimentem a economia do mercado interno e possam melhorar a qualidade de vida da população.
“Nenhum de nós, brasileiros, têm dúvida de que queremos que o Brasil cresça. Os desequilíbrios sociais são muito intensos, o nível de renda está baixo demais, há anos o Brasil não enfrenta um índice de crescimento econômico razoável e tem perdido espaço no mercado internacional”, enumera Silva, que é bauruense e foi presidente da Petrobras e da Embraer, ministro da Infra-Estrutura do governo Collor e atualmente é membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia.
Jornal da Cidade - O senhor é membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia. O Brasil já faz frente aos grandes produtores de tecnologia mundiais?
Ozires Silva - É exatamente esse tema que vem sendo discutido pelo conselho e surgiu uma abordagem que é, no mínimo, curiosa. Verificamos que o Brasil hoje é um dos países mais significativos do mundo na produção de teses científicas, doutores em ciência e resultados científicos que justificam até que alguns jornais mantenham páginas especiais sobre esse tema. O Brasil está entre os dez países mais importantes na produção de conhecimento científico, mas não está entre os 50 países mais importantes na produção de tecnologia aplicada. O País claramente tem falhado em transformar esse desenvolvimento científico em desenvolvimento tecnológico, comercial e industrial, que são aqueles que geram emprego e melhoram a qualidade de vida da população. Não podemos fazer tecnologia sem ter ciência, mas não adianta ter ciência e não produzir tecnologia.
A resposta à qual chegamos no conselho foi justamente na direção da complexidade de funcionamento do País, que não gera empreendedores e empreendimentos capazes de correr o risco de pegar a ciência e jogar no campo prático. Nosso problema é a estrutura administrativa, não só a governamental, mas também a privada, que se caracteriza por uma burocracia e preços operacionais extremamente elevados que acabam fazendo com que o conhecimento permaneça nas mãos apenas dos pesquisadores, universitários e inventores.
JC - O senhor defende as pesquisas para a produção de hidrogênio no Brasil, para buscar a redução do consumo de petróleo. Atualmente, isso é possível? O que ainda falta para essa iniciativa dar certo?
Silva - Não falta iniciativa, mas falta ação, de novo, faltam empreendedores. O mundo consome 85 milhões de petróleo por dia. Medindo a eficiência termodinâmica e mecânica dos veículos que estamos utilizando atualmente, você chega à conclusão de que bombeamos por dia na atmosfera 10 milhões de toneladas de poluentes dos canos de escapamentos dos automóveis, termoelétricas, navios, aviões, etc. Temos de levar em consideração que somos um planeta completamente isolado no espaço sideral. Nenhum dos planetas próximos, que poderíamos atingir, pode nos socorrer na falta de oxigênio na atmosfera. O que é preocupante é que, se seguirmos nesse ritmo, em 200 anos teremos destruído a vida na Terra.
Então, temos de parar de usar combustíveis fósseis, não porque o petróleo vai acabar, não acredito que vá acabar tão cedo. Mas se não tomarmos uma providência, o petróleo vai acabar conosco! Uma das opções que a tecnologia proporciona é a substituição do petróleo pelo hidrogênio. Por unidade de massa, o hidrogênio tem o dobro do poder calorífico do petróleo, portanto, caminha na direção que a economia determina, é extremamente eficaz. E aponto que o Brasil tem uma vantagem competitiva nesse negócio que é quase única no mundo, e seria uma pena, um desperdício perder a oportunidade de dar salto para o futuro.
JC - Como o Brasil pode sair na frente na produção de hidrogênio combustível?
Silva - Desenvolvemos o álcool no Brasil, que perde do petróleo em poder calorífico, mas ganha do metanol (um dos combustíveis derivados utilizados na produção de eletricidade e propulsão mecânica). Temos, pela primeira vez, a oportunidade de usar nosso álcool como fonte produtora de hidrogênio, o que pode dar uma vantagem comparativa ao Brasil de extraordinário valor. A economia do hidrogênio vai nos atingir muito mais cedo do que imaginamos. No ano que vem, a Toyota e a Chrysler, num projeto junto com a Mercedes, já lançarão os primeiros carros elétricos comerciais do mundo, que queimam hidrogênio para produzir eletricidade, com propulsão de motores elétricos. O Brasil pode se tornar um grande fornecedor de hidrogênio, uma vez que o líquido é a forma mais prática que você tem para transportar, assim como é com a gasolina. Imagina se a gasolina fosse um gás, como seria complicado! Temos uma possibilidade imensa, mas precisamos acelerar as pesquisas e usar todo esse talento científico que temos. Com o acelerador no fundo, a gente consegue chegar na frente e o Brasil terá um salto qualitativo de extraordinário valor. Ninguém deseja o monopólio, mas se estiver do nosso lado, nós não reclamamos (risos).
O álcool tem 50% a mais de átomos de hidrogênio do que o metanol. Ele precisa ser “reformado”, de modo que possa produzir hidrogênio. Há um processo tecnológico envolvido, com duas vertentes claras, e a melhor delas é separar o hidrogênio por sistema físico, porque o processo de produção de eletricidade através do hidrogênio é físico. Devemos tentar escapar dos processos químicos e termodinâmicos que ocorrem nos nossos automóveis, que é isso justamente que faz com que a atmosfera seja mais agredida.
JC - Como está atualmente o setor da aviação no Brasil?
Silva - A regulamentação no sistema de transporte aéreo é excessiva, asfixiante e não permite que as iniciativas dos empresários possam florescer normalmente. O sistema de transporte aéreo mundial está doente. Considerando o Brasil em particular, se lá fora ele está doente, aqui o transporte aéreo está em estado terminal. A demanda é pouca porque a população reclama que as passagens são caras. Mas não é que as passagens sejam caras, a renda do brasileiro é que é pequena demais. Os preços de hoje são os mesmos praticados nos EUA, que voam 20 vezes mais passageiros por ano do que o Brasil. Os americanos transportam 40% do tráfego mundial, e a gente tem de entender que o transporte aéreo é um vetor de desenvolvimento, sobretudo num país grande como o nosso. Você não pode imaginar que uma pessoa vá de Bauru a Manaus de ônibus para fazer um negócio. Tenho acompanhado de perto as ações do governo, que quer estabelecer um novo marco regulatório, e espero que a classe política brasileira entenda que as mudanças são inevitáveis, pesando as proposições colocadas pelos especialistas. Se não forem adotadas mudanças, o transporte aéreo do Brasil desaparece.
JC - O senhor também já fez críticas ao novo aeroporto de Bauru. Por quê?
Silva - É lógico que fiz. Daqui a São Paulo um jato moderno voa em 30 minutos. Do Centro de Bauru ao (novo) aeroporto, de carro, você precisa de 40 minutos! Acho muito estranho que Bauru, com o privilégio que tem de ter um aeroporto central, queira expulsar o aeroporto a um local a 40 quilômetros da cidade. Os ingleses enfrentaram uma bruta batalha ecológica fazendo o aterro de um pedaço do rio Tâmisa para fazer um aeroporto perto de Londres. Os japoneses aterraram o mar em Nagoya para fazer a pista do aeroporto, que é um elemento fundamental para o desenvolvimento econômico, e no momento em que temos um pólo dentro da cidade, como o aeroporto está, constroem outro aeroporto a 40 quilômetros de distância. Que negócio é esse? Não está certo, mas enfim. É uma pena, não sei o que deu na cabeça dos meus conterrâneos.
JC - Nos últimos meses, temos visto na imprensa diversos índices que apontam uma certa melhoria na economia. Na sua opinião, a situação realmente está melhorando?
Silva - Está. Eu seria a última pessoa do mundo a querer ser estraga-prazeres. Mas tenho receio de que esteja melhorando mais porque há uma melhoria global do que uma melhoria diferenciada aqui no Brasil, e isso sim seria uma grande vantagem. Se isso acontecesse, nós seríamos campeões. Nas últimas três décadas, estivemos na rabeira, acompanhando o mundo que, quando desenvolve, nós desenvolvemos. O mundo entra em crise, nós entramos também. Tenho receio de que é isso que esteja acontecendo agora. Se olharmos para os cidadãos, o que mudou? Nada. Ao contrário, esperávamos mudanças maiores com um governo fundamentalmente da oposição e as mudanças não aconteceram. Sou fã incondicional do Brasil e tenho lutado, ao longo da minha vida toda, para dar minha contribuição para o desenvolvimento do País, mas sinto que isso é mais um resultado do que está acontecendo no mundo, e isso é um perigo porque ficamos dependentes. Parece que temos medo do crescimento e as pessoas ficam procurando desculpas potenciais para justificar os erros que estão sendo cometidos e que tenham reflexo no futuro.
JC - Como o senhor analisa o governo Lula até agora?
Silva - Esse tem sido um governo surpreendente. Eu esperava muitas modificações que não ocorreram, felizmente de um lado e infelizmente do outro. A única coisa que tenho insistido, como membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, é que a satisfação dos condicionantes financeiros que temos hoje, que a comunidade financeira internacional esteja contente com o Brasil, eu asseguro que é uma condição necessária, mas longe de ser suficiente. Temos de enfrentar o desenvolvimento. O fato das autoridades internacionais estarem contentes porque estamos pagando nossas contas direitinho, ótimo. Mas não é suficiente. Se você determinar na sua casa que economizar é importante, isso é claro e necessário. Mas não é o suficiente. Você precisa trazer dinheiro para casa. A situação é mais ou menos por aí.
JC - Estamos nos aproximando das eleições municipais. Como bauruense, o que o senhor afirma que um bom prefeito precisa ter para comandar a cidade e mostrar um futuro próspero para a população?
Silva - É uma pergunta um bocado complicada, mas diria que em primeiro lugar, liderança. Precisa acabar com essa história de comitê, comissão, grupo de trabalho para resolver tudo. Essa liderança não é autárquica e ditatorial, mas sim uma inversão do que temos aqui. É colocar o governo subordinado ao povo. O candidato está no Calçadão da Batista distribuindo santinho, mas depois de eleito, você não consegue marcar uma entrevista com ele. Isso está errado. Eles precisam enfiar na cabeça que o povo é quem tem a última palavra.
Pelo que conheço dos meus conterrâneos, o bauruense gosta da cidade e tenho certeza que de eles serão honestos para ajudá-la. É importante que a cidade tenha uma vocação, e é isso que deveria estar sendo discutido agora. Quantas vezes perguntam para a gente, quando criança, o que a gente quer ser quando crescer. Por que pensamos isso para as crianças e não para as cidades? Quais são as projeções de Bauru para 2005, 2007 ou 2010? O que vai ser da cidade? Temos de pensar em termos de enriquecimento da cidade e perguntar: qual é o elemento que vai fazer essa cidade enriquecer? O que essa cidade pode explorar com vantagem comparativa? É essa a resposta que o novo prefeito tem que apresentar. Adoro Bauru, mas fico triste de ver a cidade como está hoje. Temos de insistir com os atuais candidatos que trabalhem a vocação dessa cidade, trabalhar para que isso se materialize utilizando os elementos atuais que podem financiar a consolidação dessa vocação, mas evidentemente, tem de formular o futuro. Não é possível mexer no passado, mas com certeza, conseguimos moldar o futuro.