O programa eleitoral gratuito de televisão fechou a divulgação da campanha a prefeito em Bauru pela televisão, ontem à noite, sem o aprofundamento dos problemas político-financeiros enfrentados pelo município. A série de veiculações na TV foi encerrada sem a utilização de ataques pessoais entre os adversários, mas com conteúdo superficial em torno da discussão dos problemas.
Na avaliação do professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru), Maximiliano Vicente, a campanha na TV não foi agressiva do ponto de vista das propostas. “Os temas mais fortes da cidade foram citados nos programas, mas ninguém os atacou. A campanha foi muito superficial”, avalia.
Entretanto, Maximiliano não se surpreendeu com a ausência de ataques mais duros entre os adversários. “A ponderação nas críticas não me surpreendeu. O movimento pela ética pressionou os candidatos a não partir para o tudo ou nada. Foi uma lição que os candidatos aprenderam da eleição anterior, em que a briga entre dois candidatos permitiu a escolha do atual prefeito”, comenta em referência à disputa que foi protagonizada entre Tuga Angerami (PDT), Pedro Tobias (PSDB) e Nilson Costa (sem partido), no ano 2000.
O professor universitário diz que esperava mais dos programas. “A distância acentuada entre o primeiro e o segundo e terceiro colocados exigia que os programas saíssem do superficial, mas isso não aconteceu”, conta. Entre os três principais candidatos, Vicente cita como os conceitos pessoais mais repetidos pelos programas os relacionados a eficiência, experiência e emoção.
"Voto carimbado"
Para o editor de TV Marcelo Malacrida, os programas na telinha cumpriram mais o papel de carimbar o voto. “Os programas serviram mais para sedimentar o voto, carimbar o voto que já estava mais ou menos definido entre os três primeiros candidatos no início do processo”, resume.
“Quem passou informação ao invés de prometer acertou mais. Os três primeiros colocados nas pesquisas fizeram bem o feijão com arroz na TV, o que serviu para manter a intenção do voto”, classifica.
Pelos números, os trinta minutos obrigatórios de propaganda entraram nas casas dos bauruenses sem ter conseguido mudar o panorama das três principais candidaturas apontadas nas pesquisas de intenção de voto, da segunda quinzena de agosto até agora. Tuga Angerami permaneceu todo o período na frente, seguido mais de longe por Caio Coube e Estela Almagro (PT).
“Os programas tiveram conteúdo superficial. Assisti a quase todos. A lista de promessas foi crescendo e ninguém conseguiu mostrar como fazer para uma cidade tão endividada”, acrescenta Malacrida. Graduado em história, ele ainda considera que houve exagero na tentativa de conquistar o voto baseado nos apoios políticos como fator fundamental para a cidade resolver suas carências.
Na periferia
A cozinheira Antonia Vieira Gegarro recebeu a reportagem do JC em sua casa, ontem à noite, em uma das ruas sem asfalto e sem iluminação pública do Núcleo Fortunato Rocha Lima. Ela e o marido, Dorival Gegarro, aceitaram o convite para assistir ao último programa eleitoral de TV junto com a equipe.
“Este é o primeiro dia que eu assisti inteiro. Nos outros dias eu via um pouquinho de cada. Gostei e acho importante porque ajuda a ver o que cada candidato quer fazer”, diz Antonia.
Ela afirma que seu voto já estava mais ou menos definido. “A TV ajudou a definir o voto. Teve uns dois candidatos que eu ouvi ele falar e não confiei”, cita. Em sua opinião, os programas de TV discutiram problemas importantes para seu bairro, como desemprego, o jovem na rua e a falta de asfalto.
O marido, Dorival Gegarro, também avalia que a propaganda na telinha ajuda a analisar os candidatos. “Se não tiver a campanha na TV fica difícil ver o que eles falam, porque a gente trabalha o dia todo”, comenta. Apesar de ter assistido aos programas, Dorival não vai votar no domingo. Ele ainda não transferiu o título eleitoral da cidade de Moreira Sales, no Paraná.
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Perfil na telinha
Tuga Angerami - A experiência foi o principal atributo da campanha. Os programas desfilaram as realizações de Tuga como prefeito e deputado federal, colocando-o como capaz de enfrentar os problemas atuais.
Caio Coube - Divulgado como empresário moderno, atualizado, aquele que pode romper o elo com passado. O apoio do governo estadual e do deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) foram massificados na TV.
Estela Almagro - Teve a campanha com maior conteúdo emocional, que apresentou a mãe de família e a mulher combativa. Estela ainda intensificou o apoio do governo federal como fator importante para atrair recursos.
Luiz Carlos Valle - Iniciou a campanha apresentando uma lista de compromissos em diferentes áreas. Do engenheiro, Valle passou para o pastor evangélico, tentando vincular a escolha do voto ao discurso religioso.
Antonio Marsola - Foi mostrado como o coronel de pulso firme, característica que seria necessária para enfrentar os problemas locais. Tentou se descolar do atual governo e não assumiu a defesa da administração.
Clodoaldo Gazzetta - Dedicou toda a campanha à divulgação de um modelo de gerenciamento público que rompe com a estrutura política atual, o que tornaria o prefeito gerente público.
Sandro Fernandes - Fez uma campanha 100% ideológica, atacando o modelo capitalista. Defendeu o socialismo durante todo o processo.
Maria Cristina - Nacionalizou o debate municipal com críticas ao governo Lula. Procurou se colocar como defensora da classe trabalhadora, mote também defendido por Sandro.