Omeio mais eficaz de resolver o problema da fome oculta no mundo, na opinião dos especialistas, é investir na educação alimentar. Os seres humanos deveriam aprender a importância de cada alimento desde a infância, de modo que montar um prato balanceado, colorido e com produtos de todos os grupos nutricionais fosse um hábito tão rotineiro quanto usar creme dental e sabonete na higiene pessoal.
“Na minha casa, as refeições são sagradas”, conta Luciana Costa. Mãe de Lucas (foto da capa) e Camila, ela afirma que faz questão de oferecer refeições balanceadas aos filhos, sempre com bastante verdura, legumes e frutas. “Não fazemos da hora da comida uma tortura, mas insistimos que eles comampelo menos um pouquinho de tudo o que há sobre a mesa”, afirma.
O presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), Durval Ribas Filho, afirma que, durante muito tempo, acreditou-se que o problema da fome oculta era conseqüência da má distribuição de renda. Pensava-se que a maioria das pessoas comia mal porque não tinha dinheiro suficiente para comprar alimentos variados.
“Mas estudos epidemiológicos mostraram que, quando você dava dinheiro para essas pessoas, ao invés de comprar frutas, verduras e legumes, elas compravam outras coisas. Então, percebeuse que garantir a renda era importante, mas que isso precisava vir junto com a educação”, argumenta.
Segundo ele, a dieta mais adequada para o ser humano é aquela que segue a pirâmide de alimentos. “Ela representa a base mundial com relação aos padrões de boa conduta alimentar”, ressalta.
A pirâmide de alimentos é dividida em cinco partes principais. A base é constituída por carboidratos (cereais e massas), que devem corresponder a 60% dos alimentos ingeridos no dia. Logo depois vêm os vegetais (verduras, legumes e frutas), seguidos pelas proteínas (carnes, ovos e derivados) e pelo grupo do leite (queijos, iogurtes). Juntos, estes três grupos devem representar 30% a 40% dos alimentos ingeridos diariamente.
Gorduras e açúcares aparecem no topo da pirâmide e devem ser ingeridos em quantidades mínimas. Alguns estudiosos defendem até a exclusão destes alimentos do dia-a-dia.
“Até há poucos anos, o brasileiro era um dos países com a melhor alimentação. Nossa combinação de arroz com feijão é muito boa. Mas hoje, as pessoas não querem mais cozinhar, elas buscam o que é mais prático e o mais prático, na maioria das vezes, é o menos nutritivo”, lamenta.
Para Ribas Filho, reverter essa situação é uma questão de escolha. “Você pode perfeitamente jantar uma pizza, mas ao invés de pedir uma de queijo e calabresa, experimente uma de rúcula e tomate seco. O mesmo vale para os lanches e petiscos” acrescenta.
O presidente da Abran observa que o brasileiro cometeu um grande pecado quando trocou seu nacional bauru pelo importado hambúrguer.
“O bauru traz queijo derretido em água, picles e rosbife. Nada de maionese, mostarda, ketchup ou carne gorda. Fizemos uma mudança muito ruim com
a ocidentalização. E as redes de fast-food já começam a perceber a necessidade de rever seus cardápios”, alega.
Para a nutricionista Rita Cristina Chaim, os processos de educação e reeducação alimentar são demorados e precisam quebrar vários tabus.
“As mães ainda oferecem açúcar para acalmar seus bebês, ainda usam a comida como recompensa, enchem o prato e dizem que é preciso raspálo. Coisas assim acabam favorecendo o erro e a compulsão alimentar”, alerta.
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Política nacional
Criar uma política nacional de combate à fome oculta é uma tarefa praticamente impossível, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem. Por isso, o Ministério da Saúde prioriza o combate aos três tipos de deficiência nutricional mais prevalentes na população brasileira: anemia ferropriva, hipovitaminose A e bócio (falta de iodo).
De acordo com a consultora técnica da Coordenação Geral de Política de Alimentação e Nutrição do ministério, Patrícia Chaves Gentil, a anemia ferropriva é a carência nutricional que mais preocupa autoridades de saúde no mundo.
“Levantamentos mostram que a doença afeta 40% a 50% das crianças entre seis meses e cinco anos de idade; e atinge cerca de 15% a 30% das gestantes em todo o País. Aanemia é a maior carência de micronutrientes no mundo, especialmente na primeira infância, quando há um pico de crescimento e a alimentação não consegue suprir a quantidade ideal de ferro”, comenta.
A segunda deficiência nutricional mais prevalente no Brasil, segundo o ministério, é a hipovitaminose A, que afeta 16% a 55% dos brasileiros. “Esses dados são de um estudo realizado em regiões endêmicas, principalmente no Nordeste”, explica Gentil.
O bócio - doença causada pela deficiência de iodo no organismo - aparece em terceiro lugar entre os tipos mais prevalentes de fome oculta no Brasil, segundo o ministério. A incidência é de 1,4% em regiões endêmicas.
A consultora explica que existem três possibilidades de intervenção em casos de carência nutricional: educação alimentar, fortificação de alimentos e suplementação medicamentosa.
“Em relação à deficiência de iodo, o Brasil fortifica o sal de cozinha desde 1956. Por isso, o bócio não é mais considerado problema de saúde pública, mas precisa ser monitorado”, informa.
Para combater a hipovitaminose A, o ministério mantém suplementação medicamentosa para crianças entre seis meses a 5 anos e para mulheres que acabaram de dar à luz em regiões onde a deficiência é endêmica.
“Em relação à anemia,o ministério determinou a fortificação da farinha desde julho deste ano, oferece suplementação para crianças, gestantes e mulheres no pós-parto, além das atividades educativas”, completa.