Os reflexos dos cortes na área da saúde estão sendo sentidos de perto pela população de Bocaina (69 quilômetros a Nordeste de Bauru). A política de contenção de gastos, que atinge serviços como transporte de pacientes e distribuição de medicamentos, foi iniciada pelo prefeito Moacir Donizete Gimenez, o Zete (PSDB), nesta semana, após a eleição.
Por conta do problema, dois boletins de ocorrência já haviam sido registrados até ontem na delegacia local. Um deles é o da moradora Anna Alice de Abreu, 66 anos. A paciente tinha consulta agendada para a sexta-feira com um médico especialista em coluna no Hospital de Base de Bauru. Na última terça-feira, ela foi até o posto de saúde do município e, segundo o registro policial, foi informada pela funcionária de que a viagem foi suspensa. A consulta teria sido agendada pela moradora há cerca de seis meses.
Situação semelhante viveu a desempregada N.D.A, 43 anos, que preferiu não ser identificada. N. tinha uma consulta agendada em Jaú, mas não pôde comparecer ao exame porque o transporte foi cancelado pela prefeitura. “Demorou quase um ano para eu conseguir essa vaga”, lamenta a moradora, que está realizando tratamento dentário. Na opinião da desempregada, a suspensão do serviço foi uma retaliação do prefeito ao resultado da eleição. O candidato apoiado por Zete, Celso Abreu (PSDB), foi derrotado nas urnas.
A empregada doméstica Vera Lúcia Leite Galvão, 45 anos, considera a medida um desrespeito à população e afirmou ontem que vai registrar um boletim de ocorrência. Segundo ela, sua filha, de 19 anos, enfrenta uma gravidez de risco e tem que ser acompanhada semanalmente no Hospital das Clínicas de Botucatu. Vera Lúcia afirma que até a semana passada o transporte vinha sendo realizado regularmente pela prefeitura. “Agora, a prefeitura diz que não pode dar condução para levá-la para Botucatu. E eu não tenho condições financeiras para mandar minha menina para lá. Ela vai ter que parar o tratamento”, diz a empregada doméstica, destacando que ganha R$ 260,00 por mês.
O delegado de Bocaina, Mario Bérgamo Jr., afirma que notificou o prefeito para que se manifeste em relação às denúncias formalizadas nos boletins de ocorrência no prazo de cinco dias úteis. “Se ele (prefeito) não esclarecer o que está acontecendo, eu encaminharei o caso ao Ministério Público pedindo providência”, diz.
A moradora Cristiane Aparecida Rosa, 21 anos, conta que nesta semana sua mãe não conseguiu retirar um medicamento para pressão alta no Centro de Saúde, como ocorria até então regularmente.
“A funcionária do posto disse que o Zete mandou proibir, cancelar a entrega de remédios”, conta a moradora, que também avalia os cortes como retaliação política.
A mesma dificuldade para conseguir um medicamento foi enfrentada pela aposentada Elena Costa, 71 anos, que estava na porta do Centro de Saúde ontem à tarde. Seu filho, Bento Francisco da Costa, 35 anos, estava revoltado com a situação. “Ele (prefeito) não podia fazer isso”, resume.
Segundo Costa, além dos problemas sentidos no Centro de Saúde, também o transporte gratuito da cidade está sendo atingido desde o início desta semana. O morador conta que, anteriormente, o ônibus circular passava pela cidade a cada uma hora. “Agora está passando umas duas vezes por dia”, diz. O prefeito afirmou ontem não ter conhecimento desse problema.
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Turbulento
A campanha eleitoral de 2004 foi turbulenta na pequena cidade de Bocaina, de cerca de 10 mil habitantes. O fato se comprova pelo número de boletins de ocorrência envolvendo denúncias de crimes eleitorais registrados durante o período: cerca de 40. Os casos estão sendo apreciados pelo juiz eleitoral. “Foram denúncias de pintura em local proibido, denúncia de distribuição de cesta básica, de tentativa de compra de votos, entre outros”, revela o delegado Mário Bérgamo Júnior. “Para a cidade, é uma quantidade grande e atípica de boletins de ocorrência”, conclui.
No município, os principais concorrentes ao cargo de prefeito foram o peesedebista Celso Abreu (situação) e João Francisco Danieletto (PV), vencedor da eleição.