Hoje, 8 de outubro, é o Dia do Nordestino e aproveitamos a comemoração desses nossos compatriotas para refletir sobre a sua contribuição para a construção de nossa etnia e, especialmente, para questionar sobre os preconceitos sulistas que ainda se escondem a respeito deles. As imagens do nordestino sofredor, perdedor, assolado, minguado, prostrado, despolitizado, retirante, fracassado, doído, gabiru, pau de arara, cabeça chata, atrapalhado, etc, foram, ao redor do espaço e do tempo, se reproduzindo nos mitos e preconceitos que aqui se formaram. Quer um exemplo do preconceito sobre o atrapalhado? Quando aqui no Sul se refere a uma pessoa que fez uma coisa muito errada, ridícula, se diz: “Ele fez a maior baianada!”. Quando se refere ao nordestino como gabiru, pessoa de porte pequeno resultado da desnutrição especialmente na primeira infância, mostra-se o preconceito consciente ou inconsciente de querer “apequenar” a imagem dos brasileiros dessa região.
A exclusão do nordestino, reservando-lhe apenas um lugar na “turma da marmita”, isto é, nas tarefas mais miúdas e braçais do mercado de trabalho, esconde outro preconceito. Como se a vaga concedida fosse uma esmola ao migrante, ao desprovido de cultura! O saudoso compositor e cantor Luiz Gonzaga já dizia: “... Mas doutô, uma esmola a um home qui é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão...”. Quando nós assistimos o “empobrecimento” de certos trabalhos, estamos, com certeza, matando o cidadão de vergonha. Não que as tarefas braçais não deveriam ser feitas por alguém, mas reservá-las a uma maioria que detém certas características é preconceito.
É claro também que as empresas modernas procuram “enriquecer” o trabalho, isto é conferir responsabilidades e autoridades ao trabalhador, mesmo nas tarefas mais simples. É certo também que aquele preconceito não só acontece com o nordestino. Acontece também com o brasileiro, nisseis ou sanseis, que vão trabalhar no Japão e lá recebem as tarefas braçais, menores, rotinizadas, que os japoneses de lá não gostam de fazer.
Com certeza, aqueles que praticam turismo sexual, especialmente no Nordeste, admiram nossas belezas naturais, nossa cultura, nossa hospitalidade, mas nos consideram atrasados, interessantes, mas inferiores a eles. Isso é terrível! Isso é exotismo! Pudemos, pois aqui citar, entre tantas, diversas manifestações, que ocorrem nos comportamentos individuais ou coletivos, verbais ou físicos, contra o povo nordestino, com conseqüências econômicas, sociais, psicológicas, culturais e políticas. Para finalizar, queremos, entretanto, lembrar que esse dia é o dia da cidadania nordestina que deve ser refletido, orgulhado e comemorado por todos, do Norte ao Sul, do Leste ao Oeste.
O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor dos cursos de administração, turismo e hotelaria da Universidade São Francisco