Bairros

Bairros não elegem seus líderes

Thaís Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

presidentes de associações de

moradores como candidatos a

vereador. Dificilmente, entretanto,

eles alcançam o objetivo

de conseguir uma vaga no

Legislativo.

O resultado observado no

último dia 3 de outubro comprova

isso. Nenhum dos cerca

de 20 líderes comunitários

que se candidataram conseguiu

uma cadeira na Câmara

Municipal. As urnas, aliás, reservaram

poucas novidades

em relação à atual formação.

A partir de 2005, os vereadores

de Bauru serão Rodrigo

Agostinho (PMDB), Marcelo

Borges (PSDB), Luiz Barbosa

(PTB), José Clemente Rezende

(PDT), José Carlos Batata

(PT), Toninho Garmes

(PSDB), Salvador Afonso

(PDT), Benê Enfermeiro

(PSDB), Paulo Eduardo Martins

(PFL), Futaro Sato

(PDT), João Parreira (PSDB),

Majô Jandreice (PC do

B), Paulo Madureira (PP),

Primo Mangialardo (PSB) e

Lima Júnior (PP).

Mas será que a cidade perde

ou ganha não elegendo

seus líderes comunitários?

Na opinião de Celso Zonta,

especialista em desenvolvimento

de comunidades, o resultado

é ao mesmo tempo

bom e ruim.

Ele é a favor da participação

popular na política, mas

não da maneira que tem ocorrido

em Bauru. “O que nós

percebemos, na maior parte

das vezes, é que essas lideranças

têm ligações com partidos

políticos e com esferas

de poder local e acabam se

aventurando para a vida política

de uma forma significativamente

prematura”, avalia.

Zonta explica que, no início

do surgimento das associações,

elas tinham característica

reivindicativa. Com

o tempo, entretanto, perderam

seu poder de pressão já

que muitos de seus líderes

foram cooptados pelos poderes

locais.

“Percebemos hoje, inclusive

em Bauru, que a maioria

das associações de moradores

do País está significativamente

partidarizada. As

prefeituras, através de seus

sistemas de cadastro, estabelecem

formas de controle sobre

as associações”, afirma.

Na opinião do historiador

político Maximiliano

Martin Vicente, professor

da Universidade Estadual

Paulista (Unesp), o sistema

de voto setorizado, em que

os eleitores votam no candidato

do seu bairro, só funcionaria

com a implantação

do voto distrital.

“A candidatura de líderes

comunitários vai muito ao encontro

da descentralização do

poder, mas estaria ligada à

questão do voto distrital. Tudo

o que é descentralizar eu

creio que facilita e agiliza muito.

Nesse sentido, creio que os

líderes teriam condições de representar

muito bem os interesses

dos bairros”, expõe o

professor.

Para Vicente, a melhor forma

de governar é ouvir a população.

“Se você dialoga

com a base, a resposta é melhor.

Mas sem uma reforma

política podemos desistir porque

há poucas alternativas.

Através de experiências de

descentralização, as pessoas

entendem e começam a questionar.

O fato da pessoa participar

é melhor do que você tomar

uma medida achando que

está beneficiando todo mundo”,

argumenta.

Eleitores

Mas o que será que pensam

os moradores de cada bairro

que teve um representante entre

os candidatos a vereador da

última eleição? Os entrevistados

do JC nos Bairros divergem

sobre o assunto.

Rita de Cássia Salgado, moradora

do Núcleo Geisel, defende

que os moradores de cada

bairro votem em candidatos

locais. “É mais fácil votar realmente

em quem é do bairro.

Acho que os candidatos daqui

têm como objetivo trazer melhorias

para o bairro. E é disso

que a gente está precisando.

Com certeza eu sempre vou votar

em alguém daqui”, frisa.

O comerciante Renato Nespechi,

do Parque Vista Alegre,

concorda com Rita. “Eu

prefiro votar em alguém do

bairro. Pelo menos, quando

eu precisar, eu encontro ele,

que pode ser amigo da gente.

Quando eu tiver alguma coisa

para reivindicar, eu procuro

diretamente ele”, argumenta.

Na opinião de Nespechi,

as pessoas devem votar de

acordo com interesses particulares.

“Eu acho que cada um

vota em quem é mais interessante

para ele. Eu, por exemplo,

estou priorizando o bairro

em que eu moro. Eu penso

assim”, reforça.

Antônio de Souza Freitas,

outro morador do Parque Vista

Alegre, também acredita

que é essencial tentar eleger

alguém próximo.

“Eu acho que é importante

votar em alguém do bairro - alguém

que já é conhecido do

pessoal e já está fazendo alguma

coisa pelo bairro. Se a

atuação dele é boa no bairro,

acho que vai ser boa para a cidade”,

avalia.

Nem todos, entretanto, são

adeptos desta teoria. Norival

de Souza, por exemplo, morador

do Núcleo Geisel, não é a

favor do “bairrismo”. “Eu não

votaria em um candidato pelo

fato dele ser do meu bairro.

Prefiro escolher alguém que

já trabalhou pela cidade e que

eu saiba que vai continuar trabalhando”,

diz.

“Muitas pessoas pensam

diferentemente de mim e preferem

escolher alguém do

bairro. Se houvesse algum

candidato capaz por aqui, eu

até votaria”, ressalva.

Muitos dos candidatos de

bairro, por sua vez, não negam

o “bairrismo” e admitem

que trabalhariam pela cidade

toda, mas com ênfase na região

em que moram.

Vivaldo Pereira Martins é

ex-presidente da Associação

de Moradores do Parque Santa

Edwirges e faz questão de

deixar claro seu interesse em

atuar na região noroeste de

Bauru.

“Sem ser vereador, eu consegui

mais obras para nossa região

do que muito vereador

que está na Câmara. Só não

fiz lei. Tenho uma preocupação

com a cidade, para que ela

sempre avance mais e mais.

Tem questões que certamente

envolvem toda a cidade”, diz.

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