Em época de eleições municipais,
muitos líderes comunitários
são reconhecidos na
televisão em horário eleitoral
gratuito. Já tornou-se freqüente
na cidade ver membros ou
presidentes de associações de
moradores como candidatos a
vereador. Dificilmente, entretanto,
eles alcançam o objetivo
de conseguir uma vaga no
Legislativo.
O resultado observado no
último dia 3 de outubro comprova
isso. Nenhum dos cerca
de 20 líderes comunitários
que se candidataram conseguiu
uma cadeira na Câmara
Municipal. As urnas, aliás, reservaram
poucas novidades
em relação à atual formação.
A partir de 2005, os vereadores
de Bauru serão Rodrigo
Agostinho (PMDB), Marcelo
Borges (PSDB), Luiz Barbosa
(PTB), José Clemente Rezende
(PDT), José Carlos Batata
(PT), Toninho Garmes
(PSDB), Salvador Afonso
(PDT), Benê Enfermeiro
(PSDB), Paulo Eduardo Martins
(PFL), Futaro Sato
(PDT), João Parreira (PSDB),
Majô Jandreice (PC do
B), Paulo Madureira (PP),
Primo Mangialardo (PSB) e
Lima Júnior (PP).
Mas será que a cidade perde
ou ganha não elegendo
seus líderes comunitários?
Na opinião de Celso Zonta,
especialista em desenvolvimento
de comunidades, o resultado
é ao mesmo tempo
bom e ruim.
Ele é a favor da participação
popular na política, mas
não da maneira que tem ocorrido
em Bauru. “O que nós
percebemos, na maior parte
das vezes, é que essas lideranças
têm ligações com partidos
políticos e com esferas
de poder local e acabam se
aventurando para a vida política
de uma forma significativamente
prematura”, avalia.
Zonta explica que, no início
do surgimento das associações,
elas tinham característica
reivindicativa. Com
o tempo, entretanto, perderam
seu poder de pressão já
que muitos de seus líderes
foram cooptados pelos poderes
locais.
“Percebemos hoje, inclusive
em Bauru, que a maioria
das associações de moradores
do País está significativamente
partidarizada. As
prefeituras, através de seus
sistemas de cadastro, estabelecem
formas de controle sobre
as associações”, afirma.
Na opinião do historiador
político Maximiliano
Martin Vicente, professor
da Universidade Estadual
Paulista (Unesp), o sistema
de voto setorizado, em que
os eleitores votam no candidato
do seu bairro, só funcionaria
com a implantação
do voto distrital.
“A candidatura de líderes
comunitários vai muito ao encontro
da descentralização do
poder, mas estaria ligada à
questão do voto distrital. Tudo
o que é descentralizar eu
creio que facilita e agiliza muito.
Nesse sentido, creio que os
líderes teriam condições de representar
muito bem os interesses
dos bairros”, expõe o
professor.
Para Vicente, a melhor forma
de governar é ouvir a população.
“Se você dialoga
com a base, a resposta é melhor.
Mas sem uma reforma
política podemos desistir porque
há poucas alternativas.
Através de experiências de
descentralização, as pessoas
entendem e começam a questionar.
O fato da pessoa participar
é melhor do que você tomar
uma medida achando que
está beneficiando todo mundo”,
argumenta.
Eleitores
Mas o que será que pensam
os moradores de cada bairro
que teve um representante entre
os candidatos a vereador da
última eleição? Os entrevistados
do JC nos Bairros divergem
sobre o assunto.
Rita de Cássia Salgado, moradora
do Núcleo Geisel, defende
que os moradores de cada
bairro votem em candidatos
locais. “É mais fácil votar realmente
em quem é do bairro.
Acho que os candidatos daqui
têm como objetivo trazer melhorias
para o bairro. E é disso
que a gente está precisando.
Com certeza eu sempre vou votar
em alguém daqui”, frisa.
O comerciante Renato Nespechi,
do Parque Vista Alegre,
concorda com Rita. “Eu
prefiro votar em alguém do
bairro. Pelo menos, quando
eu precisar, eu encontro ele,
que pode ser amigo da gente.
Quando eu tiver alguma coisa
para reivindicar, eu procuro
diretamente ele”, argumenta.
Na opinião de Nespechi,
as pessoas devem votar de
acordo com interesses particulares.
“Eu acho que cada um
vota em quem é mais interessante
para ele. Eu, por exemplo,
estou priorizando o bairro
em que eu moro. Eu penso
assim”, reforça.
Antônio de Souza Freitas,
outro morador do Parque Vista
Alegre, também acredita
que é essencial tentar eleger
alguém próximo.
“Eu acho que é importante
votar em alguém do bairro - alguém
que já é conhecido do
pessoal e já está fazendo alguma
coisa pelo bairro. Se a
atuação dele é boa no bairro,
acho que vai ser boa para a cidade”,
avalia.
Nem todos, entretanto, são
adeptos desta teoria. Norival
de Souza, por exemplo, morador
do Núcleo Geisel, não é a
favor do “bairrismo”. “Eu não
votaria em um candidato pelo
fato dele ser do meu bairro.
Prefiro escolher alguém que
já trabalhou pela cidade e que
eu saiba que vai continuar trabalhando”,
diz.
“Muitas pessoas pensam
diferentemente de mim e preferem
escolher alguém do
bairro. Se houvesse algum
candidato capaz por aqui, eu
até votaria”, ressalva.
Muitos dos candidatos de
bairro, por sua vez, não negam
o “bairrismo” e admitem
que trabalhariam pela cidade
toda, mas com ênfase na região
em que moram.
Vivaldo Pereira Martins é
ex-presidente da Associação
de Moradores do Parque Santa
Edwirges e faz questão de
deixar claro seu interesse em
atuar na região noroeste de
Bauru.
“Sem ser vereador, eu consegui
mais obras para nossa região
do que muito vereador
que está na Câmara. Só não
fiz lei. Tenho uma preocupação
com a cidade, para que ela
sempre avance mais e mais.
Tem questões que certamente
envolvem toda a cidade”, diz.