Colocar no papel de maneira clara e objetiva os avanços e dificuldades que a ciência oferece diariamente ao mundo, de forma que o leitor do jornal e da revista, o ouvinte do rádio e o telespectador consigam entender a importância daquilo que está sendo informado. Esse é o desafio cotidiano do jornalismo científico, que exige uma fiel parceria entre o repórter e sua fonte.
Para o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), José Roberto Ferreira, é obrigação dos jornalistas de todas as áreas - esportes, economia, policial, saúde, dentre outras - divulgar fatos relevantes com clareza.
“A questão é quais são as dificuldades que o jornalismo científico tem para vencer esse desafio. A linguagem é uma delas”, explica. Ferreira esteve em Bauru na última terça-feira para instalar oficialmente o Núcleo Regional da ABJC.
Na avaliação dele, o problema de linguagem é apresentado na medida em que a fonte não está acostumada a atuar como agente de divulgação. “O jornalismo científico não é muita coisa sem a fonte. Essa questão depende muito da disposição da fonte em auxiliar a comunicação”, diz.
O presidente da ABJC concorda que a questão da linguagem é crucial. “A melhor solução dela é quando a fonte e o jornalista se dispõem a uma interação visando o público que será o consumidor daquela notícia”, observa. Ferreira afirma que o jornalismo científico no Brasil está evoluindo e se aperfeiçoando.
“Há cada vez mais um número expressivo de jornalistas que se dedicam à ciência. Portanto, a linguagem utilizada pelo jornalistas de Ciências também está se aperfeiçoando”.
Na opinião dele, a cultura científica do brasileiro médio é muito baixa. “Se você sai na rua perguntando para as pessoas o nome de um músico erudito importante, vão falar Beethoven, Bach, Mozart. São nomes que as pessoas conhecem. A cultura literária as pessoas também conhecem. Se perguntar, vão falar do Jorge Amado, Paulo Coelho. Agora, pergunte o nome de um cientista importante para as pessoas de Bauru. Não vão falar porque não conhecem. Mas as pessoas estão aí”, diz.
Para Ferreira, essa é uma questão importante na qual o jornalismo científico procura colaborar. “Queremos que a cultura científica do brasileiro melhore. Porque cultura científica é um aporte importante para a cidadania também. As pessoas terem uma noção da importância de pesquisas como da célula-tronco, por exemplo, significa que elas poderão se posicionar com informações”, conta.
Núcleo Bauru
A Associação Brasileira de Jornalismo Científico foi criada em 1977. Segundo Ferreira, desde então havia uma expectativa de que a entidade se desconcentrasse de São Paulo. “Ela nasceu em São Paulo e a maior parte desse tempo e suas diretorias sempre estiveram ligadas à Capital. Nessa nossa gestão, resolvemos abraçar efetivamente esse desafio de descentralizar a ABJC. Só que isso é uma coisa que temos que fazer com cuidado”, comenta.
A regional Bauru da ABJC é a primeira experiência da entidade no projeto de descentralização de sua atuação. “Conforme as coisas ocorrerem aqui, vamos adotar Bauru como modelo para outras regionais. Encaramos Bauru como uma experiência piloto, portanto, de erros e acertos para se chegar a um formato que servirá de modelo para outras regiões do Brasil”, explica.
O fato de Bauru ser um pólo que congrega hospitais de porte, como o Centrinho da USP, o Instituto Lauro de Souza Lima - especializado em hanseníase -, o Hospital Estadual - recém-inaugurado -, agregado a um centro universitário, portanto, de pesquisa e extensão, colaborou para a escolha do município.
“Temos a região muito bem servida por universidades, como os câmpus da Unesp em Marília, Botucatu, Assis, além do Hospital Amaral Carvalho, especializado no tratamento de câncer, em Jaú. Mas contribuiu também fundamentalmente o fato de a imprensa na região de Bauru ter um significado importante no ponto de vista regional”, avalia. O presidente da ABJC diz que essas características da cidade vão possibilitar à entidade ter uma experiência importante.