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'Eleição não muda relação Brasil/EUA'

Cristiane Goto (com Diego Molina)
| Tempo de leitura: 6 min

A eleição presidencial dos Estados Unidos, que será realizada no próximo dia 7, é ponto de discussões no mundo todo. Uma das grandes preocupações se refere à influência do futuro presidente americano e as relações comerciais entre os países. No caso do Brasil, o resultado das urnas americanas não deverá influenciar no cenário político-externo, segundo Lawrence Cohen, conselheiro-adjunto da Embaixada dos EUA.

Cohen esteve em Bauru na última terça-feira, para ministrar palestra sobre a política externa americana na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ele conversou com o Jornal da Cidade e, entre outros assuntos, fez uma análise sobre os reflexos da eleição presidencial dos Estados Unidos e as relações comerciais entre Brasil e EUA. Confira os principais trechos da entrevista a seguir.

JC - Como o senhor analisa as eleições americanas e seus efeitos para os Estados Unidos?

Lawrence Cohen - Penso que a política externa americana não sofrerá mudanças drásticas, seu conteúdo deve permanecer consistente. O que vai mudar, obviamente, será o estilo de como o novo presidente, seja George W. Bush ou John Kerry, vai encaminhar esses assuntos. As questões em si, como o Iraque ou o terrorismo, tendem a ser colocadas pelo público americano sobre seu presidente independente de quem seja, e o estilo de governo de cada um vai ser diferente, com certeza.

JC - Quais serão os reflexos dos resultados da votação presidencial americana para o Brasil?

Cohen - Eu não acredito que as eleições americanas tenham um grande impacto no Brasil porque, independente de quem ganhar a eleição em novembro, o senador Kerry ou o presidente Bush, a política americana permanecerá consistente, as relações continuarão fortes. São assuntos que transcendem a política do cotidiano americano. A questão mais importante para o Brasil é simplesmente mais de estilo, e não de substância.

JC - Qual é sua avaliação sobre as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos?

Cohen - Não sou um especialista em assuntos comerciais, mas acredito que, independente de quem seja eleito, o presidente vai manter o apoio à Alca. Parecem, às vezes, que os EUA não está dando atenção suficiente ao Brasil, mas essa relação em si, especialmente entre as pessoas, é excelente. Os dois países, neste sentido, trabalham com proximidade e possuem muitos programas e oportunidades conjuntas, o que facilita as trocas culturais

JC - O senhor avalia a Alca positivamente?

Cohen - Sim, essa é a minha opinião, mas penso que, independente de Kerry ou Bush serem eleitos, as questões comerciais permanecerão como prioridade e a Alca será parte da negociação. Não vejo diferença significante entre o posicionamento dos dois candidatos quanto a esse assunto.

JC - O terrorismo internacional é um tema que não foge das discussões mundiais. O senhor acredita que, a exemplo dos ataques de 11 de setembro, o Brasil poderá sofrer alguma ameaça neste sentido?

Cohen - Eu não vejo o Brasil como um possível alvo de ações terroristas, mas ele sempre é. Nós sempre procuramos o Brasil para programas de coordenação e cooperação, e o compartilhamento de informações e a cooperação entre os EUA e o Brasil sempre foram muito boas. Nosso principal foco ao trabalhar com o Brasil agora, mesmo que não haja ação de grupos terroristas organizados aqui, é que o país ainda pode ser usado por grupos que fazem lavagem de dinheiro ou como local de trânsito para entrar nos EUA ou outros países. Este provavelmente é o maior risco atualmente.

JC - O Brasil é um país neutro?

Cohen - Não, não é um país neutro, pelo contrário, é um país que está por dentro do que acontece na guerra contra o terrorismo. Não penso que o governo brasileiro veja o país como um alvo, mas certamente os terroristas poderiam usar o país de forma prejudicial. Então trabalhamos juntos para garantir que isso esteja claro, no caso desse tipo de ação se tornar realidade. O governo brasileiro vem sendo cooperativo e os dois países vêm trabalhando de maneira muito próxima para combater esse tipo de ação.

JC - O senhor acha que o documentário “Fahrenheit 11/9”, de Michael Moore, influenciará as eleições americanas?

Cohen - Eu vi o filme duas vezes e eu penso que nos EUA - que é onde a opinião que realmente importa quanto às eleições americanas - o filme reforçou atitudes a favor e também contrárias a Bush. As pessoas que eram contra o presidente Bush ganharam um incentivo em sua atitude negativa, e as pessoas que eram pró-Bush provavelmente viram o filme como um ataque injusto. É difícil apontar o que vai ser influenciado até que tenhamos a eleição, só então saberemos com certeza. Eu acho que o filme foi muito bem feito e levanta um grande número de questões, mas também há partes do filme que, na minha opinião, poderiam ter sido mais moderadas para que atingissem um público mais amplo.

JC - O filme estimula discussões sobre a situação americana?

Cohen - Sim, especialmente a segunda metade do filme, que tem um tom mais emocional e que foi destinada a provocar um impacto maior. Na primeira metade, em que ele (o diretor Michael Moore) aponta para diversas direções, as pessoas que defendem o presidente Bush sentiram que os ataques foram injustos.

JC - Qual é sua análise sobre a influência da cultura americana no Brasil, fazendo uma contrapartida com a entrada de produtos culturais brasileiros, como a música, em terras americanas?

Cohen - A influência dos EUA é muito ampla no Brasil assim como no mundo todo porque a liberdade de culturas nos EUA tem sido tão forte com artistas, músicos e intelectuais que age como um catalisador para o que acontece ao redor do mundo na música, na literatura. Penso que a divisão do impacto cultural foi ótima, e não só dos produtos que vêm dos EUA, mas também os que vão para lá. Em qualquer grande cidade americana se pode encontrar samba e a música brasileira. Além disso, os americanos conhecem mais futebol agora do que há 20 anos, por causa do Brasil.

JC - Qual é a imagem do Brasil atualmente nos EUA?

Cohen - É uma imagem muito positiva mas a maioria dos americanos não sabe muito sobre o Brasil, infelizmente, por causa da autopromoção do Brasil. Não vemos o País se promovendo o suficiente para alcançar os americanos e muitos deles não devem ter consciência de que aqui a língua é o português e não o espanhol. O Brasil tem suas próprias metas para desenvolver o turismo. Francamente, o Brasil faz um trabalho medíocre para promover seu turismo no Exterior, e isso poderia ser muito melhor.

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