De repente os pais descobrem um objeto diferente na mochila que o filho trouxe da escola. Ou desconfiam que ele pegou, sem avisar, aqueles trocadinhos que estavam na gaveta. Adotar uma postura franca, coerente e firme, voltada à educação, é a orientação dos especialistas para lidar com essas situações.
O primeiro passo, de acordo com a psicóloga e psicopedagoga Ana Cássia Maturano, é admitir que aconteceu e conversar com o filho a respeito. “Os pais devem abordar o assunto claramente com a criança. Se você tem certeza que seu filho tirou R$ 10,00 da sua carteira, diga-lhe com firmeza que você sabe que ele pegou o dinheiro, peça de volta e explique que ele deve pedir quando precisar”, defende.
Ela ressalta que é importante não fazer perguntas quando já se sabe as respostas. “Ao se sentir acuada, a criança pode criar uma nova mentira, aumentando o risco de uma reação agressiva por parte do adulto. Alguns pais, confusos quando o filho nega o furto, reagem insultando-o de ladrão ou mentiroso. Uma reação tranqüila, porém firme, leva a criança a confiar no adulto e a aprender que não tem necessidade de mentir”, alerta.
A psicóloga Carmen Maria Bueno Neme, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, acrescenta que a atitude dos pais deve ter caráter de acolhimento. “Os pais não devem chegar nunca em tom acusatório ou condenatório. Uma atitude receptiva ajuda a criança a contar o que fez e por quê. Isso abre caminho para que os pais expliquem como ela deveria ter agido”, salienta.
O segundo passo, segundo as psicólogas, é fazer a criança reparar seu erro e devolver o que pegou. “Os pais podem até ir junto à casa do coleguinha devolver o brinquedo. É uma forma de possibilitar a reparação do erro sem excesso de culpa e sem expor demais a criança (ao constrangimento), afirma Neme.
Mas os pais só devem ajudar - nunca reparar o erro em nome da criança. Se ela comeu os bombons da tia, não são os pais que vão comprar uma nova caixa de bombons. A criança é quem deve juntar o dinheiro para repor a caixa. É isso que vai dar a ela a devida noção de respeito e responsabilidade.
“Claro que, se a criança não tem dinheiro, os pais devem ajudar, mas não comprando para ela e sim atribuindo tarefas para ela ganhar o dinheiro, como ajudar a lavar o carro, tirar a mesa, lavar a louça ou recolher o lixo”, exemplifica Maturano.
Quando o assunto são as travessuras da infância, todo mundo tem dezenas de histórias engraçadas para contar e os pequenos furtos fazem parte desta lista de “artes”. A maioria deles representa atitudes tomadas por ingenuidade e desconhecimento.
“Eles estão na fase de testar seus próprios limites, de vencer desafios. Cabe aos pais ensinar os limites do certo e do errado, do que pode ou não pode. Esse limite é necessário para que a criança aprenda a identificar e controlar seus impulsos. É a partir das regras educativas que ela vai aprender a satisfazer suas vontades de maneira saudável”, completa Neme (leia mais abaixo).
Distúrbios de conduta
Quando os furtos tornamse freqüentes, são cometidos por crianças mais velhas e envolvem objetos de valor, a criança pode estar apresentando um distúrbio de conduta, motivado por alterações emocionais importantes.
Foi o que aconteceu, recentemente, em uma colônia de férias na região de Bauru, com um grupo de jovens entre 9 e 15 anos. De modo organizado, eles invadiram casas de vários conhecidos para furtar desde CDs até aparelhos de TV.
“O caso foi parar na polícia e uma das crianças foi tomada dos pais pelo Conselho Tutelar sob a acusação de abandono. O pai viajava muito e a mãe trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Todos aqueles pais estão fazendo tratamento psicológico”, conta uma vítima, que pede para não ser identificada.
Segundo Neme, furtos graves e repetitivos podem ser resultado de alguma carência. “Pode ser carência financeira, já que os valores humanos hoje estão muito ligados ao ter. Porém, na imensa maioria das vezes, esses furtos estão relacionados a carências afetivas. São tentativas da criança de preencher um vazio ou de chamar a atenção de alguém”, observa.
Se o problema se repete e os pais têm dúvidas sobre o que fazer, o ideal é buscar ajuda de um especialista.
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Limites precisam ser bem definidos logo na infância:
Na opinião das psicólogas Ana Cássia Maturano e Carmen Neme, por mais inocentes que sejam os pequenos furtos na infância, os pais devem aproveitar esses momentos para explicar aos filhos conceitos importantes, como propriedade e respeito. Conhecer seus limites desde pequeno será fundamental para o bom convívio social da criança e isso valerá por toda a vida.
Mãe de dois filhos, Jéssica (nome fictício) conta que, certa vez, ela e um grupo de crianças pularam o muro para a casa de uma vizinha no intuito de apanhar laranjas. “Ela era muito amiga da família, brincava com a gente e até viu quando entramos pelo muro. Voltamos para casa com um monte de laranjas e muito eufóricos com a conquista”, diz.
Jéssica comenta que a mãe até riu da travessura, mas quando o pai chegou, a bronca foi geral. “Ele fez a gente colocar as laranjas que restavam numa bacia e devolver tudo para a vizinha. Disse que nós havíamos invadido uma propriedade particular, que era um absurdo pularmos o muro e que, se queríamos laranja, deveríamos ter pedido à vizinha”, lembra. Hoje, ela segue o exemplo com os filhos.
Para Neme, o que esse pai fez foi definir limites para aquelas crianças. A psicóloga explica que essa “arte” de subir no muro para pegar frutas sem o intuito de depredar é pura molecagem. É uma forma de testar seus próprios limites e viver uma aventura.
“Mas uma atitude firme dos pais nesse momento, mostrando que aquilo não é correto, é muito importante”, garante. Segundo Neme, é o adulto que vai mostrar, por meio das regras educativas, que não é possível satisfazer todas as vontades, mas que é possível buscar alternativas.
“Até os 5 anos, a criança não tem ainda delimitado o eu e o outro. Se o brinquedo está ali, ela entende que é dela. Na hora de ir embora, ela quer levar e muitas mães pedem para a mãe do outro deixá-la levar. É erradíssimo isso (...) A criança precisa ser frustrada. Isso a ajuda a aprender a lidar com esse tipo de situação”, orienta.