Diz a sabedoria popular que Deus é um só. Isso não impede que diferentes religiões tenham, cada qual, sua interpretação de Deus. Num país como o Brasil, onde a miscigenação e a mistura de raças e culturas são as principais características do povo, não é de se espantar que muitas famílias agreguem membros de diferentes fés e religiões e que isso não seja motivo para conflitos. Muitas casas e parentes convivem em perfeita harmonia e até provam que religião é, sim, um assunto a ser discutido.
É o caso da aposentada Daucira Rufato Pavani, que é católica praticante. Uma de suas filhas freqüenta a Igreja Presbiteriana e outra, a evangélica. Ela afirma que a situação não causa problemas. “A gente trabalha isso muito bem e vivemos em harmonia. Eu realmente acredito que Deus é um só e que as pessoas podem demonstrar isso”, diz.
Ela conta que a família faz orações em conjunto, especialmente em datas comemorativas, e que chegam a discutir as diferenças nas religiões. “Todos lemos a Bíblia e nos entendemos bem. Acho que todo mundo precisa de uma religião. Meu medo é ter a cabeça vazia. Se a pessoa tem Deus no coração, já está ótimo”, aponta.
A autônoma Querima Kiss de Oliveira relata que conheceu o budismo ainda na infância e voltou a freqüentar as reuniões depois de casada, quando foi reapresentada à religião por sua sogra. “Meu marido é simpatizante e freqüenta algumas reuniões comigo, principalmente nos dias em que todos os maridos acompanham as esposas”, diz.
Já seu filho Bruno não é praticante de nenhuma religião. “Ele diz que acredita em Deus, que tem Deus no coração, mas não vai em nenhuma reunião nem à missa.” A situação a incomoda porque ela diz acreditar que todo ser humano deve se alimentar tanto material como espiritualmente.
Querima comenta que gostaria que o filho fosse praticante de alguma religião, mas nunca impôs isso a ele. “Essa situação não causa nenhum problema em casa, mas acho que os jovens, principalmente, precisam de uma religião”, opina.
Opção pessoal
Situação diferente vive a auxiliar de enfermagem Benedita da Conceição Santos, que é católica e teve de aprender a conviver com a opção da filha, que se tornou evangélica na adolescência. “A gente não pode implicar com isso, é a opção de cada um, então tentamos viver bem, mesmo com religiões diferentes. Eu não critico a religião dela e ela não critica a minha, e assim, não temos problemas”, ressalta.
Adalgisa Maria dos Santos Saez, filha de Benedita, conta que procurou a religião evangélica na adolescência justamente porque sentia falta de alguma coisa no catolicismo. “Faltava algo para mim. Na época, não tivemos conflito quando decidi mudar de religião. Hoje, temos pontos de vista diferente em algumas coisas e por isso, discutimos algumas vezes. Eu tento entender minha mãe e até evito discutir assuntos de religião para não ter problemas”, pondera.
Para Benedita, o mais importante é ter liberdade para escolher qual religião seguir, desde que a pessoa tenha fé em Deus. “Se uma escolha é equivocada, a gente pode aconselhar e conversar, mas nunca proibir. Se a pessoa escolhe o caminho de uma religião, a gente tem que encorajar”, destaca.
Casamento
A escriturária Cláudia Regina Pais de Oliveira Ottaviani é católica praticante, mas foi impedida de casar na Igreja Católica pois seu marido, Marcelo Ottaviani, é evangélico e freqüenta a Assembléia de Deus. Na época do casamento, ela ouviu de um padre que o enlace só seria realizado caso o noivo se tornasse católico. “Não pensamos em mudar de religião, então recebemos a bênção e nos casamos na igreja do meu marido”, diz.
Ela revela que a diferença de religiões não é um tema discutido com freqüência na relação. “O evangélico pensa muito diferente do católico, e para eles, é mais difícil aceitar as idéias católicas do que o contrário. Por outro lado, eles expõe mais sua fé.”
Porém, o casal costuma ir junto tanto às missas como aos cultos, principalmente para que um possa cuidar da filha de 2 anos enquanto o outro faz suas orações. “Quando vamos à minha igreja, ele fica do lado de fora, brincando com ela, e eu faço o mesmo. Em algumas ocasiões, em comemorações ou quando é um padre ou pastor diferente, nós vamos juntos tanto à missa quando ao culto”, conclui.