Ir ao mercado sozinha,
caminhar pelo próprio bairro
em que mora e sair à noite
são atividades que já não fazem
mais parte da rotina de
Janete Santos Silva, moradora
do Parque Santa Edwirges.
Há algum tempo, ela
vem mudando seu comportamento
para prevenir fatos desagradáveis.
Conversando com moradores
de diferentes bairros de
Bauru, é fácil encontrar pessoas
que de alguma forma alteraram
seus hábitos por medo
da violência.
“Depois das 22h, eu não
ponho o pé para fora de casa
por nada. A gente não freqüenta
nada aqui no bairro. Eu não
freqüento mercado, bar, nada.
Não vou ao mercado sozinha
de maneira alguma. Tenho
medo”, conta.
Para fazer as compras da
casa, Janete espera o marido
e, ainda assim, não vai ao mercado
do bairro. O casal vai de
carro a um estabelecimento
distante de onde moram.
Como o marido trabalha
durante boa parte do dia, Janete
fica trancada em casa e dificilmente
sai às ruas. No Parque
Santa Edwirges, ela estabeleceu
um perímetro “freqüentável”.
“Quatro quadras
para cima da minha casa eu
nem conheço e nem procuro
conhecer”, explica.
A moradora conta que passou
a tomar mais cuidado depois
que começou a conhecer
a realidade do bairro e da
cidade em que mora. “Antes,
andávamos desinformados.
Quando a gente está desinformada
a gente anda
mais à vontade. Com o passar
do tempo, fui me informando.
A gente passa a conhecer
melhor o bairro e começa
a ficar com mais medo”,
justifica.
Antônio Cabral da Silva,
marido de Janete, também
evita sair à noite. “A gente vê
coisas na rua depois da meianoite
e preferimos não sair para
não irritar os outros. Se
tem algum movimento na rua
e a gente sai, o pessoal já
acha que a gente é curioso. À
noite é meio complicado”,
afirma.
Outro cuidado que ele tomou
foi equipar sua casa
com muros altos, cerca elétrica,
alarme, grades, portão eletrônico
e interfone. Além disso,
colocou a casa no seguro.
“O pessoal está invadindo casas
mesmo com pessoas dentro.
Eu tenho fechadura elétrica
justamente para não facilitar
muito”, diz.
Maria de Lourdes Chiquini
Lopes, moradora do Parque
Jaraguá, decidiu até mudar
de casa e de cidade para
fugir da violência. Ela quase
não sai de casa e por isso mal
conhece seus vizinhos.
“Eu não saio nem de dia.
Vai fazer dois anos que eu
moro aqui e não conheço quase
ninguém. Dá medo de andar
por aí. Tem tantos assaltantes
que dá medo de acontecer
alguma coisa”, explica.
Natural de Garça, Maria
de Lourdes quer vender a casa
em que mora atualmente
para voltar à sua cidade natal.
“Só saímos se precisar
mesmo. Eu saio para ir ao
médico, para ir ao posto de
saúde e para fazer compras”,
salienta.
O aposentado Jurandir
Gavaldão, morador do Jardim
Europa, já deixou de viajar
com a família por medo
de deixar a casa sozinha e
ter uma surpresa desagradável
na volta.
“A gente se preocupa
mais porque tem dois terrenos
vazios ao lado de casa.
Antes, eu fazia uma viagem
uma vez por ano com a família.
Eu deixei de viajar pela
casa”, conta.
Gavaldão, além disso, reforçou
as travas de todas as
portas e janelas da casa.
“Quando sai todo mundo, eu
ponho travas nas janelas e
nas portas para dificultar alguma
coisa a mais. Coloquei
cadeados e substituí as portas
antigas por novas de ferro.
O portão é eletrônico,
mas mesmo assim eu coloco
cadeado”, revela.
Aparecida Fabiano Geanezi,
moradora da Vila Independência,
também tem medo
e evita sair de casa. Ela
sai apenas quando é extremamente
necessário. “A gente
tem um pouco de medo de
sair. Principalmente à noite.
Precisa ter muito cuidado
aqui. Tem muitos roubos e a
gente sempre precisa tomar
cuidado”, reforça.
A moradora sai apenas para
ir à igreja e ao Centro. Embora
more sozinha, Aparecida não
freqüenta o mercado porque
sua filha faz as compras da casa.
“Ultimamente eu redobrei
os cuidados. O bairro era muito
calmo, mas agora está meio
abalado”, afirma.
Também motivado pela
insegurança, Sebastião Aparecido
Eusébio, morador da
Vila Industrial 3, já deixou
até de trabalhar. “Eu liguei
no meu serviço e disse que
não poderia ir trabalhar. Só
para ficar em casa. Quando
eu entro às 22h e fico até de
madrugada eu fico com medo
de voltar para casa e acabo
gastando R$ 5,00 de mototáxi
para evitar andar sozinho
a pé. O bairro é perigoso
e já teve muito roubo”, diz.
Sebastião jamais deixa a
casa sozinha. Quando a família
sai, sempre alguém fica para
tomar conta do patrimônio.
“Quando sai um, fica outro.
Quando minha mulher sai para
trabalhar, eu fico em casa.
Quando ela chega, eu saio.
Não dá para descuidar porque
já tentaram roubar minha casa
várias vezes. A casa não fica
sem ninguém. Dá medo. Hoje
em dia, tanto dentro de casa
quanto na rua está perigoso”,
destaca.
Adilson Soares Alves, morador
do Parque Santa Edwirges,
adota um procedimento semelhante.
“A gente não pode
facilitar. Sempre que alguém
pode ficar em casa a gente deixa
para não ter problema. Mas
quando precisa mesmo sair, fechamos
a casa e pedimos a
Deus para guardá-la.