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"Leishmaniose requer mais atenção"

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 8 min

O tratamento eficaz da leishmaniose visceral humana passa necessariamente pelo diagnóstico precoce e, para obtê-lo, médicos e pacientes devem estar com as atenções voltadas para os sinais de manifestação da moléstia. A constatação é do especialista José Angelo Lauletta Lindoso, que atua no Instituto Emílio Ribas e estuda a doença desde 1986.

Segundo ele, o fato da moléstia ser pouco conhecida nas regiões onde se instala faz com que as atenções tenham que estar redobradas. “É preciso pensar na leishmaniose”, orienta.

Em setembro do ano passado, Bauru registrou o primeiro caso da doença em humanos. Desde então, foram 33 ocorrências, 17 delas somente em 2004. Cerca de 600 cães foram infectados pelo mosquito palha, transmissor da leishmaniose e que se prolifera em materiais que estão em decomposição.

Lindoso, médico infectologista e doutor em leishmaniose, também trabalha no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP). Ele defende um acompanhamento rigoroso de todos os apectos relacionados à moléstia. “É preciso agir no reservatório (cão), no vetor (mosquito) e nos humanos”, destaca.

O especialista esteve em Bauru no início da última semana para participar do 1.º Seminário Regional de Leishmaniose, realizado na Universidade do Sagrado Coração (USC). A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - O senhor diria que o diagnóstico é o aspecto mais complicado quando se fala em leishmaniose?

José Angelo Lauletta Lindoso - O grande problema em relação à leishmaniose, principalmente quando ela está entrando em uma determinada região, é que pouco se pensa nela, até porque ela é pouco conhecida. Isso ocorreu em vários locais, inclusive no Estado de São Paulo. Hoje, porém, estamos pensando mais na doença. Com essa ação de buscar sensibilizar os profissionais da área da saúde para que seja feito um diagnóstico precoce, temos uma facilidade maior de intervenção para diminuir a mortalidade provocada pela leishmaniose visceral. Se os exames laboratoriais forem bem indicados, a facilidade para obter o diagnóstico também aumenta.

JC - Em Bauru, temos verificado casos de pacientes que vão até as unidades básicas de saúde e, mesmo assim, demoram para saber que estão com leishmaniose. O que é preciso fazer para facilitar o diagnóstico?

Lindoso - Primeiramente, é preciso fazer os profissionais pensarem na leishmaniose visceral. Eles têm que lembrar que determinado paciente vem de uma área endêmica, tem um quadro clínico de leishmaniose visceral e pode estar com a doença. Precisamos sensibilizá-los para que eles pensem na doença. Quando isso começa a acontecer, passamos a ter um diagnóstico mais precoce, que é o que a gente sempre busca quando se trata da leishmaniose, para que a doença seja tratada o mais rápido possível. Aí sim, com certeza, melhoraremos a evolução da moléstia.

JC - O fato de alguns sintomas da leishmaniose serem parecidos com os de outras doenças não atrapalha o diagnóstico?

Lindoso - Às vezes, sim. Sempre bato na mesma tecla, que é pensar na doença. Mesmo que o paciente tenha um fígado ou baço grandes, tenha febre associada e outros sintomas, se eu não pensar na moléstia posso acabar confundindo a leishmaniose com outras patologias que têm uma manifestação clínica parecida. Se não estivermos focados nela, isso pode atrapalhar.

JC - Tivemos dois casos em Bauru de pacientes que só tiveram a doença confirmada após o chamado teste terapêutico (os exames para leishmaniose dão negativo, mas o quadro clínico aponta a presença da moléstia e ela é constatada pela análise do prontuário de internação). Por que isso ocorre?

Lindoso - Eventualmente, esse tipo de caso acontece. Há formas clínicas em que não há muitos parasitas circulando pela medula óssea e não é possível detectá-los. Se o paciente necessita de tratamento, a prova terapêutica é indicada.

JC - E como é realizado o teste para se detectar a presença da leishmaniose?

Lindoso - Primeiro é preciso que haja a manifestação clínica da moléstia. Quando o paciente procura o médico e ele pensa na doença, solicita o exame parasitológico da medula óssea. Também é feito o diagnóstico diferencial com outras doenças que podem causar um quadro clínico semelhante.

JC - Como o senhor avalia a eficácia do tratamento aplicado aos pacientes com leishmaniose?

Lindoso - Se fizermos o diagnóstico precoce e iniciarmos o tratamento, a resposta terapêutica é excelente, apesar de não se ter muitas drogas disponíveis para tratar a leishmaniose. Temos a facilidade para que o paciente evolua bem clinicamente e encontramos essa realidade freqüentemente quando cuidamos adequadamente desses pacientes. Infelizmente, alguns têm fatores associados que podem desviar a evolução da doença.

JC - Recentemente, Bauru suspendeu o exame feito em cães com suspeita da doença porque deixou de receber os kits fornecidos pelo Ministério da Saúde. Como o senhor analisa esse procedimento?

Lindoso - Esse é um problema sério e que envolve o próprio cão que está infectado. Mesmo quando conseguimos fazer o diagnóstico da doença, já há uma grande dificuldade por parte dos donos de animais para entregá-los para o sacrifício. A partir do momento em que isso ocorre, eles imediatamente colocam outro cão em seu lugar e ele também pode estar infectado ou ficar doente. É uma briga constante e não só aqui, mas no mundo inteiro. As sociedades protetoras dos animais sempre lutaram para tratar os cães, mas não há trabalhos na literatura que definam que o tratamento no cão é eficaz. Não adianta a pessoa dizer que vai tentar curá-lo com drogas. A base científica para isso não é sólida.

JC - Muitos proprietários de cães reclamam que o exame indica a leishmaniose, mas os animais têm um aspecto saudável. O teste é totalmente confiável?

Lindoso - Sim. O que acontece é que há os chamados animais assintomáticos. Eles não têm nenhuma manifestação clínica da doença, mas estão infectados. Mesmo com o aspecto saudável, se eles têm a sorologia podem transmitir a leishmaniose.

JC - Uma discussão que se trava entre as autoridades sanitárias e as entidades protetoras de animais é sobre a culpa em relação à proliferação da doença. Na visão do senhor, quem é o vilão dessa história?

Lindoso - O grande vilão é o homem, que invade o habitat natural do inseto. O que vimos nos últimos anos no Brasil foi exatamente isso. A leishmaniose visceral vem afetando áreas de desmatamento recente. Quando o homem vai para esses locais, costuma levar o cão junto e ele se transforma em hospedeiro da doença.

JC - E como o mosquito palha deve ser combatido?

Lindoso - Através da dedetização e da destruição da forma adulta do inseto. É o modelo vigente no mundo inteiro, embora seja preciso utilizar o veneno em toda a área externa dos imóveis e, principalmente, em galinheiros e pocilgas.

JC - Como as pessoas que vivem em regiões que registraram casos da doença devem se comportar?

Lindoso - Elas não podem ter medo da doença. A partir do momento em que eu tenho um cão infectado em área de transmissão, por exemplo, infelizmente um dos objetivos do controle da moléstia é eliminá-lo para diminuir a quantidade de vetores. É preciso ajudar as autoridades sanitárias locais para que as medidas sejam tomadas em conjunto.

JC - E qual deve ser o trabalho do município nesses locais?

Lindoso - Uma doença focal necessita de uma avaliação focal em relação ao vetor, aos cães e aos humanos. O bairro onde a doença foi detectada deve ser priorizado e a limpeza de quintais e terrenos incentivada. A leishmaniose é como a dengue, ou seja, não podemos nos esquecer da doença depois que ela se instala em um local. Temos que estar o tempo todo atentos e vigilantes para que a doença não nos pegue novamente de surpresa. É preciso continuar verificando se há novos casos aparecendo e tratá-los adequadamente o mais rápido possível.

JC - Quando o senhor participa de seminários sobre leishmaniose voltados para profissionais da área de saúde, é comum verificar que muitos deles estão desinformados sobre a moléstia?

Lindoso - Sim. Apesar da doença ser antiga na história, ela é nova no meio e às vezes as pessoas ainda relutam um pouco em relação à moléstica. Quando começamos a conversar e a tirar algumas dúvidas, as pessoas passam a ficar mais tranqüilas. Isso aconteceu quando foi feita a intervenção em Araçatuba, tanto que hoje a leishmaniose está mais controlada naquela região.

JC - Qual é a situação da leishmaniose no País?

Lindoso - Nos Estados onde a leishmaniose é endêmica, ela permanece estavél, mas a doença invadiu toda a região Centro-Oeste e Sudeste. É difícil evitar essa proliferação, porque ela está relacionada ao fluxo migratório e à invasão de áreas onde o mosquito está instalado.

JC - Em Bauru, foram 17 casos em humanos este ano e quatro mortes. Como o senhor avalia esses números?

Lindoso - Eles são preocupantes, porque ajudam a aumentar o número de casos verificados em São Paulo, mas é preciso destacar que as autoridades estão atentas a essa questão.

JC - Tivemos neste ano uma redução significativa do número de casos de dengue em São Paulo. É possível projetar uma situação parecida em relação à leishmaniose?

Lindoso - Acredito que sim. Se agirmos com educação e saúde, com certeza conseguiremos esse objetivo.

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