Nova York sempre surpreende. Andar pelas ruas da “Grande Maçã”, como é chamada, é como se estivéssemos caminhando por uma alameda do Jardim Zoológico com animais exóticos de um lado e aves de ricas plumagens do outro. Em pleno Times Square, estaciona bem na minha frente um Rolls Royce cor-de-rosa do qual desembarca um casal de negros com as duas filhas adolescentes. O carro era guiado por um motorista branco, de uniforme de botões dourados e quepe de fazer inveja a general. Dizem que os negros bem-sucedidos, nos Estados Unidos, adoram carrões. Tanto é que oito em cada dez Cadillacs são adquiridos por clientes negros.
Na Grande Nova York moram pessoas nascidas em 197 diferentes países. Quatro em cada dez habitantes são imigrantes. Fora esse fato estatístico, um dos destinos turísticos mais procurados do mundo é Manhattan. Ver o desfile das pessoas que se encaminham para o distrito teatral já é um espetáculo. Há até mulheres de burca - aquela vestimenta famosa desde a guerra do Afeganistão e que cobre da cabeça aos pés - na fila do Majestic, onde há dez anos está em cartaz o “Fantasma da Ópera”. Lá, se misturam gente de jeans e tênis, com “peruas” de vestidos longos e casacos de pele. Os teatros da Broadway não têm preconceitos. O traje é livre para quem está disposto a pagar US$ 160 por um bom lugar na platéia.
É impressionante o número de gordos nos States. A obesidade assumiu características epidêmicas de tal porte que o governo se empenha em campanhas contra a alimentação altamente calórica e os carboidratos. Até as aeromoças dos vôos domésticos são bem cevadinhas. É proibido discriminar. Todos os aviões de passageiros, ônibus, teatros, cinemas, são obrigados a manter poltronas para os obesos. Eles fazem questão dos seus direitos civis. Conhecem as leis, são ativos junto aos tribunais para reivindicar o direito de caber em qualquer espaço público. Os magazines mantém seções especiais para vender roupas para os superpesados. Gôndolas quilométricas nos supermercados oferecem alimentos isentos de qualquer coisa que possa colaborar para aumentar peso, triglicérides, colesterol, taxa glicêmica ou ácido úrico. Devem ser feitos de isopor. Os gordos representam bilhões de dólares em receitas que não podem ser desprezadas.
Na condição de freqüentador da Big Apple há mais de 30 anos, embora em visitas bastante espacejadas por falta de numerário, tenho notado que a elegância das novaiorquinas degringolou. Lembro-me que no quarteirão do Plaza e na rua interna do Waldorf Astoria desfilavam deusas de peles alvas e aveludadas em vestidos de lamê. No cair da tarde, o cheiro de perfume francês enchia o ar da 5.a Avenida. Será a Uma Thurman? Olha ali a Vanessa Readgrave... Que nada. Tudo clone, mas tão bonitas quanto. Dava vontade de lamber aqueles ombros nus e cheirosos. Infelizmente, tudo o que é bom é proibido. Agora, a mulherada só veste calça corsário. Por mais que cheire e apure o nariz, não chega às minhas sensíveis narinas o odor de um Chanel. Quando encontro mulheres em fina toillet, olho para baixo e, indefectivelmente, estão de tênis. Minha irmã novaiorquina tem a explicação: ninguém entra de carro em Manhattan. Os estacionamentos são caríssimos. Só milionários moram na ilha. A maioria prefere os subúrbios com seus belíssimos condomínios, seguros e tranqüilos. Quem vem à cidade para festas, jantares ou lazer, chega de trem ou de ônibus. Os táxis desaparecem na hora do rush ou do mau tempo. As mulheres evitam ralar o salto do Prada de US$ 400 no cimento das calçadas ou escadarias do metrô. Daí a profusão de tênis. Na porta do restaurante ou do teatro é feita a troca e o borzeguim vai para dentro da sacola. A elegância só fica comprometida no trajeto mas... Nova York é assim. Ninguém conhece ninguém. Dentro da lei, tudo é permitido. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborar do JC)