Três dimensões se destacam no balanço dos três debates entre os candidatos presidenciais e o único entre os que disputam a vice-presidência dos EUA. Em primeiro lugar, a obsessão central dos participantes continuou sendo a mesma: não cometer um enorme erro digno de passar para os anais. Nesse sentido, ambos resultaram plenamente vencedores.
Em segundo lugar, o ambíguo e certamente frio ambiente do primeiro enfrentamento verbal, realizado em Miami, foi endurecendo moderadamente na medida em que eram inseridos temas que fugiam do roteiro monográfico sobre o Iraque, que surpreendentemente presidiu o primeiro encontro dedicado à política externa. Em terceiro lugar que, para o eleitorado norte-americano, o resto do planeta não existe.
Seria como se, na medida em que avançavam os debates, os candidatos aprendessem a se sentir mais cômodos e focassem melhor os temas e as câmeras, olhando de frente nos momentos convenientes.
Ao tratar de alguns dos temas mais contundentes de política interna, e sobretudo do que se poderia considerar como ideologia, os candidatos presidenciais saíram à superfície como defensores de duas tendências plenamente contrárias. John Kerry oscilou inexoravelmente para as teses que poderiam ser consideradas social-democratas na Europa, no que se refere à saúde, ao emprego e ao papel do governo, enquanto nunca pareceu interessado em explicar o especial perfil do “conservadorismo compassivo”.
O ângulo mais polêmico de política externa explorado ao máximo por george W. Bush foi, desde o primeiro debate, o chamado “teste global” que Kerry defendeu quanto à atuação dos Estados Unidos em aventuras militares. O presidente acusou seu oponente - em clara tergiversação das intenções de Kerry - de pretender condicionar a soberania dos eua ao veto do resto do mundo.
Se serve de lição ou confirmação de suspeitas, o debate, finalmente, ratificou a sensação de que para a maioria dos norte-americanos, com a exceção da ameaça terrorista e do desastre do Iraque, o resto do mundo quase não conta. Perdeu-se a dourada oportunidade de Miami para discutir algumas dimensões das relações com a América Latina, mesmo que fosse em dimensões monográficas, como o tráfico de drogas ou a imigração ilegal, o fechamento da fronteira Arizona deixou muito a desejar, e dedicaram apenas alguns minutos ao espinhoso tema dos trabalhadores ilegais.
Quanto ao resultado eleitoral dos debates, enquanto as pesquisas dão uma vantagem à candidatura de Kerry e Edwards, é preciso esperar os últimos dias para ver o impacto dessa subida. A chave está nos 50% de indecisos, que são de verdade (porque os outros 50% mentem e já se decidiram). Alguns detalhes detectados nos próximos dias decidirão a balança.
No momento, o que a equipe democrata conseguiu é ter se colocado no mesmo nível da equipe presidencial, o que não é pouco. Deixou nervoso o presidente em alguns momentos, e levantou certas dúvidas em sua sólida posição. Também é certo que Bush encaixou o golpe, e melhorou em sua atitude posterior. Se vencer, esse detalhe lhe terá dado a renovação do mandato. Se ganhar Kerry, ter desenvoltura presidencial no primeiro debate terá sido chave.
O autor, Joaquín Roy, é catedrático de Relações Internacionais na Universidade de Miami