Quando Dante Alighieri terminou a sua “Comédia”, que depois seria adjetivada como “Divina”, havia descrito à sua maneira o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Toda vez que acontece um grande incêndio a crônica costuma chamá-lo de “dantesco”. Usa como referência as chamas do inferno imaginado pelo poeta florentino. O seu Inferno, no entanto, não é só tocado a fogo para castigar os maus. Dividiu-o em nove círculos concêntricos, cada qual destinado a castigar almas condenadas por um tipo diferente de pecado. O sexto anel do inferno de Dante está reservado àqueles que mentem, blasfemam, injuriam, difamam, caluniam e fazem falsas promessas. É um inferno sem chamas.
Depois de assistir a uma extensa campanha eleitoral fico pensando na imprevidência dos candidatos, daqui e alhures, que se arriscam à merda eterna só pela possibilidade de se sentir no Poder, durante algum tempo. Os gregos chamavam o pensamento filosófico acerca da moralidade, dos problemas morais e dos juízos morais de “ethos”, de onde vem ética. Ethos também significa “casa”, “o lar”. Entendiam que sem o “outro”, nós, individualmente, não podemos subsistir.
Modernamente virou moda demonizar a televisão como agente de todos os males. O palanque eletrônico, no qual incluo o rádio, transforma os candidatos em atores que se esmeram no papel de salvadores. Como todos eles sabem o que o povo quer ouvir e como dizer, orientados por experientes marketeiros, o discurso fica homogêneo. São tantos os debates que as idéias mais originais de um e de outro acabam também absorvidas pelos oponentes. Todos são competentes, vão melhorar a saúde, a educação, dar moradias ao povo, transportes mais baratos, creches, asfalto, etc. Para sair da mesmice a militância começa a exigir o recrudecimento das críticas como única fórmula capaz de mudar o jogo ou de manter o resultado favorável. Os eleitores às vezes se cansam. Já demonstraram que podem desconfiar de quem abusa do direito de criticar. Jamais aceitam passivamente o que diz a propaganda eleitoral. Sabem checar as informações com os seus valores arraigados. Quando não, perguntam para alguém da sua confiança.
Bauru é uma cidade que perdeu muito do seu prestígio diante dessa política de porco espinho, incapaz de um abraço fraternal. É uma vergonha a cidade ter apenas um representante na Assembléia Legislativa, onde já tivemos três, e nenhum na Câmara Federal, onde dois já falaram alto por Bauru, na mesma Legislatura. Considere-se que a cidade, agora, está com mais de 200 mil eleitores. Grande parte vota em candidatos de fora por falta de uma coalisão inteligente e capaz de unificar o bauruense em torno dos nossos interesses. O município, endividado, cheio de problemas, com um orçamento diminuto, ameaçado de regredir, precisa de alguém capaz de levantar uma bandeira. Tenho esperanças de que este histórico, porque primeiro, segundo turno, marque também o início de uma nova era política e com reflexos benéficos para vida da cidade.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC