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Sol de finados


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O sol nasce hoje com nova determinação: iluminar com seus raios o Dia de Finados. Uma vez por ano, ele é celebrado para lembrar aqueles que, tendo fechado os olhos à existência, foram sepultados pelos que ficaram neste vale de lágrimas, mas não os esquecem, mantendo-os como vivos em suas memórias, sem direito a apagá-los nem um pouquinho.

Sendo, então, dia de recordações, Finados não deixa de se aureolar com o verde das plantas e a variedade das flores, do que fala emotivamente uma poesia, dizendo aos que ficaram: “Não te aflijas, amigo, se há trevas. É que depois do inverno é certa a primavera. E não há noite que não gere a madrugada. Nem amanhecer que não ceda ao dia. Teu vazio há de ceder mais tarde. Como o embrião que dorme dentro da semente, da noite espessa nascerá a luz. Esquece, então, a solidão das horas mortas que sentes escoar sem vibração, enquanto permaneces só e triste, estranho à multidão que está junto de ti nesta imensa necrópole”.

Aí estão, por isso, as artérias da cidade com milhares de braços carregando flores para enfeite das últimas moradias dos que já se foram e não voltam mais, enquanto outros viventes se colocam junto às sepulturas e os jazigos entoando cânticos e pronunciando orações em louvor deles.

Não é somente a tradição que promove as reações humanas diante das tristezas da morte, pois também figuram no imenso rol o amor e a solidariedade que todos os corações armazenam em memória dos amigos que ganharam as alturas, levando tudo, deixando na terra somente a saudade, que aqui vai ficar eternamente, ou seja, até que os saudosos de hoje se tornem os saudosos de amanhã.

O que fazer se a vida de uns é menos longa que a de outros, deixando mais cedo os papais, mamães e irmãos, com os quais conviveram, durante muito tempo, sob a escuridão da noite e a claridade do dia? Deles nada restou, a não ser a melancolia que, essa sim, mora com quem vai viver mais um pouco, pois ainda não chegou a hora de alugar sua derradeira morada. É a filosofia dos finados e a nossa opinião.

O autor, N. Serra, jornalista responsável do JC, é delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

“Que você não perca o sentimento de justiça, mesmo sabendo que o prejudicado pode ser você. Que você não perca o seu forte abraço, mesmo sabendo que um dia seus braços estarão fracos. Que você não perca a vontade de amar, mesmo sabendo que a pessoa que mais ama pode não sentir o mesmo sentimento por você”.

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