O analfabetismo funcional é uma das mais terríveis chagas brasileiras. Traduz-se no fato de 75% dos brasileiros serem analfabetos (8%) ou não conseguirem dominar plenamente a escrita e a leitura (67%). Do que poucos se dão conta é que outro fenômeno, ao qual também se pode adicionar o adjetivo funcional, é também, responsável pelo vergonhoso índice de 25% de brasileiros com mais de 15 anos e até 62 em condições de dominar a leitura e a escrita, segundo pesquisa do Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional e da ONG Ação Educativa. Trata-se do popularismo. Diferentemente do populismo histórico, inspirado em causas que agitavam multidões e desfraldadas por auras carismáticas, como Juan Perón, na Argentina, e Getúlio Vargas, entre nós, o popularismo funcional não abriga luta de classes, na perspectiva de embate ideológico entre burgueses e proletários, nem mesmo necessita de líderes carismáticos.
Os popularistas continuam a eleger o povo como referência principal do discurso, mas pregam a conciliação de classes. Saindo daí, emergem as contradições. Na fala, assumem o discurso libertário de Gandhi; nas aparências, a pompa de Luís XIV, o Rei Sol. Só que a fala de Gandhi desaparece no calor da luta eleitoral. Nesse momento, aparece a expressão pérfida de Maquiavel para a preservação do território do príncipe, na sombra da lição “deves parecer clemente, fiel, humano, íntegro, religioso e sê-lo, mas com a condição de estares com o ânimo disposto a tornar-te o contrário”. Os protagonistas usam e abusam do dinheiro do povo. A funcionalidade desta corrente se apresenta ainda no compromisso de enaltecer pessoas e não idéias. Fechando o processo, usam artimanhas do marketing para ganhar sobrevida.
E assim o popularismo funcional contribui para a expansão das mazelas nacionais. No Rio de Janeiro, o distributivismo assistencialista foi peça central de campanha. Em São Paulo, os CEUs da Educação e da Saúde, integrantes dos domínios da prefeita Marta Suplicy, foram destaque. A imponência de um CEU educacional deslumbrou olhos menos atentos, como o do ilustre visitante Kofi Annan, secretário-geral da ONU, extasiado ante crianças pobres tomando banho de piscina. O que sua visão não percebeu foi a precária relação custo-benefício de uma obra que, de tão dispendiosa e seletiva, privilegia pequeno contingente de crianças. Outra distorção: a precária qualidade do ensino. A grandiosidade de prédios na estética miserável das periferias desenha a linha decisória em matéria educacional, enquanto o nível de desempenho de professores e alunos em sala de aula deixa a desejar. É insanidade subordinar a qualidade educacional à qualidade de estampas para programas eleitorais. Quando a gastronomia dos olhos assume importância maior que a maquinaria mental, o analfabetismo funcional encontra campo para progredir.
Distribuir fardas escolares, dar transporte gratuito para crianças, criar bilhetes únicos para uso múltiplo de ônibus, embelezar cantos não deixam de ser atos de valor. São, porém, mais firulas eleitoreiras que políticas estruturantes. A forma, no caso, ganha o lugar do fundo. O povo, tão presente na boca dos popularistas, deixa de ser sujeito para ser mero coadjuvante da política transformada em departamento de marketing.
As administrações popularistas expandem-se pelo desempenho de atores que enxergam a política como negócio, e não como missão. O compromisso fundamental é com a eleição e a lógica que movimenta o negócio é a conquista do poder para usufruto próprio. Assim, o País caminha para trás, somando seus PIBs negativos: o do popularismo funcional, o da irresponsabilidade administrativa, o do desperdício e o da corrupção, que não diminui, segundo a ONG Transparência Internacional. Os ralos da República se aprofundam: 46% da água produzida no País se perdem; 32 milhões de toneladas de alimentos - equivalente a cestas básicas para 10 milhões de famílias durante um ano - vão para o lixo; 15% do total de energia consumida são desperdiçados; e na construção civil se gastam no projeto 20% a mais em peso de materiais como areia, cimento, pedra e cal. O Brasil está destruindo referências de valor. E parcela da população acaba inoculada pelo vírus da desorganização social. A cara do popularismo funcional - é inegável - está fortemente marcada nessa fotografia.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político