Relata-se que, num determinado período da história, toda superfície do planeta foi coberta pela neve numa longa era glacial. Como conseqüência, plantas e animais começaram a perecer. No entanto, porcos-espinhos, movidos pelo instinto, se agruparam e em resultado do calor de seus corpos unidos, sobreviveram. Todavia, com o passar do tempo, esta convivência deixou de ser pacífica e prazerosa, pois, quanto mais se aproximavam para se aquecer, mais seus corpos eram feridos pelos espinhos dos seus próprios companheiros. Em decorrência disso, magoados, se afastaram, cada um procurando seu próprio canto o mais longe possível do outro. Mas, infelizmente, sem a energia do próximo, pereceram...
Este relato é parte da história criada pelo filósofo Schopenhauer (1788-1860) e ilustra muito bem, em maior ou menor grau de intensidade, os vários conflitos existentes no convívio com nosso próximo em todos os grupos dos quais pertencemos: empresa, escola, família e até entre os membros de uma comunidade religiosa.
O homem não pode viver só. Necessita do contato com os seus semelhantes a fim de apropriar-se do patrimônio cultural adquirido pela humanidade. Neste processo de interação com o outro e com o meio, adquire valores, experimenta emoções e sentimentos que o tornam verdadeiramente humano. Também, para sua auto-realização, necessita compartilhar suas conquistas, seus sonhos, seus desejos como também aflições e angústias.
Embora exista o desejo e a necessidade de relacionar-se com o outro, esta convivência nem sempre ou quase sempre, é pacífica. Na verdade, conviver, isto é, viver com, é uma arte e, como toda arte, carece ser estudada, desenvolvida e aprimorada.
É necessário paciência, persistência e esforço árduo a fim de superar os obstáculos que surgem nesta inter-relação, humildade e coragem para reconhecer e aceitar o erro, iniciativa para recomeçar o diálogo, saber como falar, saber ouvir e exercitar amplamente o ato de perdoar.
É importante lembrar que todos nós falhamos, voluntária ou involuntariamente e, em conseqüência, podemos ferir alguém sem perceber. Cientes disto, é recomendável que se aja com empatia, isto é, se colocar no lugar do outro e nos perguntar: como será que eu agiria naquela situação? Teria uma atitude diferente? Gostaria que me tratassem impiedosamente ou me dessem outra chance?
Por outro lado, é vital reconhecer que todos têm qualidades e focar nossa atenção nelas, pois ao passo que minimizamos nossos defeitos, teremos relacionamentos mais agradáveis, harmônicos e felizes.
Aprender a conviver é uma necessidade. Vale a pena insistir. O fato das rosas terem espinhos não justifica o abandono de seu cultivo e da contemplação da sua beleza, assim como não é sábio o abandono de nossa casa por causa de goteiras. As boas coisas da vida, certamente, incluem o convívio com amigos, ambientes de trabalho agradável e lar acolhedor. “Todas as coisas, portanto, que queres que os homens vos façam, vós também tendes de fazer do mesmo modo a eles... disse Jesus Cristo”. (Mateus 7:12). Este verso bíblico é chamado de regra de ouro para a boa convivência. Praticá-lo generosamente nos assegurará mais alegria e satisfação em nossos relacionamentos.
O autor, Clóvis Roberto B. Lourenço, é educador