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Ele criou um 'besouro' conversível

Marcelo Ferrazzoli
| Tempo de leitura: 4 min

O bauruense Marcos José Guaraldo, 56 anos, já está aposentado, mas a “profissão” de inventor certamente lhe caberia muito bem. Isso porque ele foi o mentor intelectual da criação de um automóvel que dificilmente se vê rodando por aí: um Fusca conversível, modelo considerado por muitos especialistas como o mais raro do mundo.

Trata-se de um “besouro” original do ano de 1970 transformado em uma versão cabriolet, veículo que acompanha Marcos há vários anos. “Sempre fui apaixonado por Fuscas, pois aprendi a dirigir nele. E o comprei porque só tinha um carro em casa e minha esposa precisava de um”, conta.

Mas a relação com o “Fuscão” começaria a tomar novos rumos quando Marcos o emprestou para o irmão, que envolveu-se em um acidente com o automóvel na Capital paulista. Após a “tragédia”, o aposentado levou o carro até a oficina de um mecânico muito amigo seu em São Paulo, onde permaneceu por um tempo para ser restaurado.

A intenção de Marcos era reconstruí-lo tendo como objetivo principal deixá-lo da melhor forma possível próximo às características originais. Entretanto, o bauruense teve uma “eureka”: inspirado no espírito criativo digno de um “professor Pardal”, resolveu fazer do “fusquinha” um típico conversível e modernizar sua mecânica.

A tarefa consumiu vários anos, mas o resultado final, segundo Marcos, foi excelente, pois o carro ficou com sua “cara” e ganhou até um apelido carinhoso: Herbie. “O mais gostoso nele é a sensação de liberdade e o vento no rosto. Não tem nada melhor”, considera.

Por fora, obviamente, o que mais chama a atenção, além da cor amarela – escolhida por Marcos para imitar a tonalidade de um carro esportivo da Fiat lançado na época – é a ausência da capota de lona, que fica estrategicamente escondida dentro do tampão do som localizado acima do motor. Para afixá-la, basta retirá-la do local e prendê-la nos botões por pressão espalhados da traseira até o retrovisor.

Detalhes

Também desperta a curiosidade o “santantônio” integrado à carroceria, item inexistente nos Fuscas conversíveis originais. No entanto, sua existência no veículo não é por acaso. “Ele faz parte da estrutura do carro para evitar a torção da carroceria”, explica. Completam o visual externo os pneus 195 estilo BMW instalados em rodas esportivas, os pára-choques pintados em preto fosco e as lanternas traseiras tipo “New Beetle”.

Outro destaque do veículo é sua parte mecânica. Além de contar com freios a disco na dianteira, possui motor e câmbio da Brasilia 1600, que substituíram os originais 1300. Detalhe especial fica por conta da dupla carburação quadrijet do propulsor, que foi feita em Bauru. “Com isso, a potência dele se equivale a de um motor 1800”, compara Marcos.

O aposentado garante que o desempenho do “Fuscão” deixa muitos mais modernos comendo poeira. “Em segunda marcha consigo atingir até 90 km/h”, jura o bauruense. Tamanha capacidade para arrancar, conta o aposentado, já fez “vítimas” no trânsito local. “Um rapaz com uma Saveiro emparelhou comigo no sinal, ficou me olhando com ar de desprezo e me provocou para ver quem saía mais rápido. Quando o farol abriu, deixei-o para trás sem dó e depois ele veio perguntar para mim o que é que o Fusca tinha”, lembra, rindo.

Vender o Fusca? Nem pensar. “Se fizer isso nunca mais vou ter outro igual”, justifica. Deixar outras pessoas assumirem o volante também é hipótese improvável. “Só eu ando nele e ninguém põe a mão”, conclui.

História

Em maio de 1948, começaram a ser produzidas as versões conversíveis do Fusca pelas empresas Karmann e Hebmüller. Enquanto a primeira encarregou-se de construir a versão quatro lugares, à segunda coube o desenvolvimento da de dois lugares. Uma característica peculiar do Hebmüller está na tampa do motor. Apesar de parecer com a do porta-malas, era toda feita à mão, o que tornava impossível saber se o carro estaria chegando ou partindo.

Os primeiros protótipos foram construídos no mesmo ano a partir dos sedãs e, depois de sanados diversos problemas – o principal sendo a baixa resistência à torção da carroceria, pois as portas tornavam-se impossíveis de serem reguladas e os pára-brisas quebravam-se facilmente – a produção iniciou-se em junho de 1949.

Em 23 de julho de 1949, o setor de pintura da Hebmüller foi destruído por um incêndio. A produção foi reconstruída, mas dificuldades financeiras puseram fim à empresa, em 1952, que foi adquirida pela Ford posteriormente. Cerca de 15 carrocerias foram enviadas à Karmann, entre agosto de 1951 e fevereiro de 1953, e estima-se que 696 conversíveis Heb-müller, considerados por muitos especialistas como os Fuscas mais raros do mundo, tenham sido produzidos. Já o Karmann de quatro lugares foi produzido até 1980 na Alemanha.

No Brasil, o veículo chegou a ser importado, principalmente, durante a década de 60.

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