Pesquisa realizada pela Fundação Orsa em centros de referência brasileiros no atendimento de bebês de alto risco mostra que 77,3% das mães que praticaram o Método Mãe Canguru experimentaram momentos profundos de felicidade, amor e carinho por seus bebês.
Cerca de 60% delas afirmaram que o bebê fica mais calmo, dorme melhor, mostra-se mais protegido e seguro, desenvolve- se melhor e mais rapidamente com o uso do método. As únicas queixas foram a dor na coluna e cansaço pelo tempo prolongado que permaneceram no hospital (21,3% das entrevistadas).
O estudo foi realizado entre 2001 e 2003 no Instituto Materno-Infantil de Pernambuco, no Hospital Geral de Itapecerica da Serra (SP) e no Hospital Universitário de Florianópolis (SC). Os dados foram divulgados durante o 1.º Seminário Internacional de Atenção Humanizada ao Recém-Nascido realizado essa semana no Rio de Janeiro.
Além da aprovação do método, o levantamento também traça um perfil das mulheres que utilizam o Mãe Canguru.A maioria tem até 20 anos (31,45%), não trabalha fora de casa (62,2%), mantém uma união estável, com até três anos de convivência conjugal (53,7%) e faz parte de uma família que ganha até dois salários mínimos (59,2%).
A maior parte das gestantes consultadas disse que soube do Mãe Canguru apenas no hospital, pouco antes do parto (87,7%), enquanto apenas 2,7% disseram ter sido instruídas durante o pré-natal.
Assim foi com Viviane Pereira da Silva, 26 anos. Um tombo adiantou, em dois meses, o nascimento de Maitê e Tainá. Prematuras, as gêmeas deveriam estar em uma incubadora, mas o Hospital Maternidade Oswaldo Nazareth, no Rio de Janeiro, incentivou Viviane a adotar o Método Mãe Canguru.
No momento da reportagem, as gêmeas descansavam no colo da mãe. Desde que nasceram, no dia 13 de outubro, elas passam várias horas por dia, em posição vertical, em um contato direto com a pele da mãe, construindo um vínculo que a máquina inviabilizaria.
“Nunca tinha ouvido falar, mas gostei muito. Foi a minha terceira gravidez, a segunda prematura. E acho que é bem melhor ficar perto dos filhos do que deixá-los na incubadora. É como se eles tivessem ainda dentro do útero”, descreve Viviane. “Além disso, o pai também participa. Isso é importante”, acrescenta.
“O prematuro muitas vezes ainda não está apto a exercer funções básicas como controlar o calor do corpo e respirar adequadamente”, afirma o presidente do Grupo Orsa, Sergio Amoroso. “Quando fica no peito da mãe, ele se mantém aquecido e aprende a respirar sentindo a respiração materna”, descreve.
Perfil
De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 20 milhões de bebês nascem prematuros e com baixo peso anualmente no mundo. Nove em cada dez prematuros têm peso inferior a um quilo ao nascer. Um terço deles morre antes de completar um ano de vida.
No Brasil, as infecções perinatais (problemas respiratórios, respiratórios, asfixia ao nascer e infecções adquiridas no parto) representam a primeira causa de mortalidade infantil. Além disso, muitos bebês que nascem antes do tempo (chamados pré-termos ou prematuros) são acomeditos de distúrbios metabólicos, dificuldades em alimentarse, respirar e regular a temperatura corporal.
O Método Mãe Canguru foi instituído oficialmente no Brasil no ano 2000, numa parceria entre o Ministério da Saúde, Fundação Orsa e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que financia o projeto.
A implantação só ocorreu após mais de um ano de pesquisas e observações realizadas pelo Ministério da Saúde em parceria com várias entidades, como: Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Organização Panamericana da Saúde (Opas), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), universidades, hospitais e BNDES.
A coordenadora de Saúde da Criança do Ministério da Saúde, Aléxia Luciana Ferreira, explica que o primeiro passo da implantação foi difundir a norma pelo País. Para isso, foi criado um programa de treinamento teóricoprático, com 40 horas de duração, para capacitar os profissionais das diferentes especialidades que lidam com o recém-nascido de baixo peso, sua mãe e família.
Segundo o ministério, essa capacitação consiste em habilitar os profissionais para o atendimento humanizado, considerando as peculiaridades físicas e psicológicas de cada caso e as mudanças emocionais da mulher durante a gestação e no pós-parto. Técnicas de manuseio, identificação de sinais de risco, estimulação sensorial, acompanhamento do desenvolvimento da criança também são abordadas.
De lá para cá, foram capacitados profissionais de aproximadamente 500 maternidades de referência nacional em atendimento a gestantes de alto risco.
“Não significa que todas adotaram o método. Muitas vezes, as capacitações foram focadas só nas equipes de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) neonatal, elas aplicaram parcialmente o método, mas o processo ainda não ganhou raízes. O próximo passo do convênio, agora, é promover estudos nesse sentido. Identificar onde o método está sendo adotado, como é aplicado para, a partir dessas informações, incentivar sua expansão no País”, explica Ferreira.