Está completamente claro. O resultado final das eleições municipais representou um recuo e uma derrota para o Partido dos Trabalhadores. As derrotas em São Paulo e Porto Alegre, especialmente, são um duro golpe que concentra o balanço.
Aonde buscar a sua causa? Aonde, senão na frustração representada pela prioridade absoluta ao pagamento da dívida, política imposta pelo FMI e até aqui continuada pelo governo Lula? Aonde, senão no sufoco dos municípios – dos serviços públicos, da saúde e da educação, e dos servidores – em virtude das exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal que garante o pagamento da dívida?
As conseqüências se podem ver no fato dos sem-terra serem obrigados a ocupar, há já cinco meses, a sede do INCRA de Cuiabá (MT), pedindo terra para trabalhar, sem que o ministro Miguel Rossetto resolva.
As conseqüências se podem ver quando se chama a polícia contra a greve dos bancários, como fizeram os presidentes da CEF e do Banco do Brasil, que o governo Lula deveria ter demitido para que fossem atendidas as suas justas reivindicações.
O resultado não podia ser outro.
Já no primeiro turno, o PT perdera 12% de seus votos nos sete municípios do ABC, seu berço operário histórico. Era o sinal.
No segundo turno, em Porto Alegre, o candidato a prefeito do PT perdeu 113 mil votos, quase 1/4 do obtido em 2000.
Em São Paulo, a candidata do PT perdeu 508 mil votos do segundo turno de 2000, 16% do total.
Na soma, o PT que saiu de 2000 administrando municípios com 21,6 milhões de brasileiros, em 2004 passa a administrar 17,1 milhões, uma queda de 21%.
E isso, depois de ganhar a presidência em 2002 com 53 milhões de votos!
A prova está feita! Eis aonde leva a atual política do governo Lula, reproduzida nos municípios. Ela coloca a própria existência do PT em questão.Mas nem tudo esta perdido, e existe uma saída. Ela está colocada nas greves e mobilizações que exigem que o governo rompa com a política do FMI. Ainda é tempo de mudar essa política que joga o PT contra sua base social.
É tempo do governo decidir, enfim, atender às demandas do povo trabalhador, iniciando uma verdadeira reforma agrária, distribuindo terra para as 240 mil famílias acampadas à beira das estradas. É tempo de parar de pagar uma Dívida que literalmente esvazia os cofres da União, dos Estados e Municípios, para produzir o superávit fiscal primário e respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal, apenas para engrossar os lucros dos bancos e das multinacionais. É tempo de abandonar o projeto da reforma sindical e trabalhista gestado no Fórum Nacional do Trabalho para atender a exigência do FMI de “flexibilizar o mercado de trabalho”. É tempo de aumentar os salários e relançar a economia pelo consumo, terminando a política que sufoca a produção em benefício da especulação.
Esse caminho é o contrário das alianças sem fronteira que afastam a militância, deformam o PT e são rejeitadas pelo povo. É o contrário das ditas políticas sociais compensatórias que, como “a esmola, matam de vergonha ou humilham o cidadão”.O povo quer a dignidade e os direitos que lhe correspondem na democracia, o que a chamada “democracia participativa”– assentada na cooptação e em orçamentos subordinados à divida como em Porto Alegre – continua a lhe negar.
A situação é grave. A nossa angústia é a mesma de todos petistas, quando se constata essa derrota.
É tempo, mais do que tempo, de retomar as bandeiras históricas de Terra, Trabalho e Soberania Nacional que fizeram que nosso povo levasse o PT ao governo federal.
Todos os petistas estão convidados a se juntarem a nós nesta batalha urgente, para que o PT exija do governo a mudança da política, que reate com o mandato das urnas de 2002 e rompa com o FMI para aplicar as medidas que todos aspiram, tal como se vê nas mobilizações populares.
Roque Ferreira - Corrente O Trabalho do PT