“E vida marvada, não dianta fazê nada...?”.
Esse é um verso do nosso cancioneiro popular, com a sabedoria própria do povo, é como no dizer de Manuel Bandeira, “na língua certa do povo, na língua errada do povo”. Não dá para entender a vida. E por que teimamos em tentar entendê-la?
A vida é paradoxal e com isso faz-nos também paradoxos ambulantes. Há um só tempo estamos alegres e num instante nos sentimos tristes. Há um só tempo somos felizes e uma palavrinha boba qualquer nos faz infelizes. Há um só tempo amamos e somos capazes de odiar. Há um só tempo nos sentimos especiais e comuns. Há um só tempo nos sentimos muito amadas e por um gesto nos percebemos mal-amadas.
A dualidade do ser é coisa complicada. Complicada e séria, pois torna-o vulnerável ou forte dependendo das circunstâncias. Há que se entender essa dualidade para que se entenda o ser. Mas alguém, algum dia, será capaz de compreendê-lo?
Contudo, se as pessoas que nos cercam, acostumaram-se a se fortalecer na nossa força, não admitem em nós essa fragilidade, e nos cobram um comportamento homogêneo, perfeito, sem se darem conta das nossas imperfeições como ser humano que somos, e portanto com direito adquirido de tê-las, vez ou outra ou vez em sempre!
A lucidez em certas ocasiões nos faz mais mal que bem. Bem-aventurados os simplórios... são felizes por nada saber. E pela vida à fora, ou a dentro, nem sei mais, todos esperam de nós, coerência, eficiência, tolerância, paciência... Mas nunca ninguém nos ensinou a lição que nos fará aptos a driblar a dor de uma saudade, ou a insensatez que algumas vezes tem vez no nosso ser. Quem porventura nos deu a lição que o coração não tem dono, e nas ordens é senhor?
Bem, viver é a arte do encontro, diz o poeta, embora haja tantos desencontros pela vida. Mas o poeta é um fingidor, capaz de fingir que a dor que sente nem é dor. Aos outros mortais, os comuns mortais, cabe apenas viver como manda as escrituras, deixando para cada dia o seu mal, ou completando, viver o bem de cada dia, porque não sabem quanto tempo durará.
Seja como for, haja o que houver, custe o que custar temos essa vida para viver. Todos queremos vivê-la bem; com alegria, com satisfação, com paz e com perdão... todos queremos sonhar e nossa busca maior e inconteste é ser feliz.
Não me sai da cabeça os versos da canção... “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar... brilha tranqüila, depois de leve oscila precisa que haja vento sem parar...”.
A autora, Ercília Ferraz de Almeida Police, é escritora, poeta e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte / Especial para o JC