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Omelete sem quebrar os ovos


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A luz amarela para os partidos, há tempos aguardada, acende agora na encruzilhada pós-eleitoral. É o aviso de que, no último pleito, mais uma vez perfis pessoais prevaleceram sobre idéias. E, a continuar assim, a canibalização recíproca será fatal para a sobrevida dos partidos. Daí a indagação que fazem as principais siglas que perderam raízes sociais, depois de tanto tempo se apresentando ao eleitorado de maneira amorfa. Que caminho seguir?

O PT exauriu o modo de governar, na expressão de João Paulo, presidente da Câmara dos Deputados, necessitando reaglutinar as bases para promover, na visão de seu principal intelectual, Tarso Genro, ministro da Educação, “transição para um modelo econômico diferente”. O PMDB, pela vontade de governadores e presidente do partido, será instado a resgatar a identidade histórica, estabelecer um projeto para o País e apresentar candidato próprio à Presidência da República, condições para deixar de ser ator secundário. O PSDB, que passa por bom momento, também se perde no meio da crise por que passa a social-democracia no mundo, explícita no dilema que se apresenta aos governos: como fortalecer programas sociais com receitas econômicas comprimidas? E o PFL, que sobrevive mais à custa de líderes regionais do que pela força do pensamento liberal, avisa, pela voz do prefeito César Maia, do Rio, que arrumará também um programa estratégico para a sociedade.

Expostas as intenções, resta saber quem terá efetivas condições de formular um ideário capaz de motivar grupamentos e trazê-los para os domínios partidários. Em qualquer país, um projeto de tal envergadura carece de maturação, tempo e visibilidade. Há razões para acreditar que, no Brasil, os impasses para sua implantação sejam bem maiores. Oresultado geral é a expansão do abismo entre sociedade e Estado. Se essas crises assolam até nações democráticas, como a França, berço dos estatutos democráticos contemporâneos, no Brasil, onde as instituições não estão plenamente consolidadas e onde padrões políticos exibem o figurino do passado, as crises ganham proporções fantásticas. Essa, portanto, é a moldura sobre a qual os partidos brasileiros tentarão remontar a identidade e resgatar a imagem. Se não conseguirem, estarão, mais uma vez, tecendo o fio comum de uma história de 180 anos de vida partidária, marcada por fragilidade, caráter efêmero de siglas e desinteresse de participantes com relação a ideais e deveres. Tem sido assim desde o Império, quando o Partido Conservador e o Partido Liberal, mesmo representando ideários diferenciados - de um lado, grupos ligados à lavoura e pecuária e, de outro, profissionais urbanos e comerciantes -, agiam independentemente de ideologia, lutando apenas pela posse do poder. Ou mesmo no ciclo do regime militar, quando Arena (matriz do PFL e PPB) e MDB (hoje PMDB, que deu origem ao PDT, PT e PSDB), depois de se revezaram no poder, acabaram esquecendo causas, transformando-se nas duas grandes fontes do atual ciclo da geléia geral.

Trabalhar com o campo das idéias é a alternativa que resta sob pena de os partidos continuarem assemelhados, amorfos e inodoros. A formação de identidade, nesses tempos de desideologização, passa por desafios. Como organizar um programa capaz de preencher lacunas, adotar políticas macroeconômicas que garantam estabilidade, definir políticas setoriais que impulsionem setores produtivos e, mais que isso, atendam às demandas de todas as classes? Como estabelecer pontos de diferenciação ideológica que não sejam considerados retrógrados e como fazer a transição de modelos econômicos, como querem alguns, pregando-se independência e um discurso nacionalista na esfera de economias globais e interdependentes? Ganhará o troféu o partido que fizer omelete sem quebrar os ovos.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político. E-mail: gautor@gtmarketing.com.br

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