A descoberta do Viagra, há cerca de nove anos, causou uma verdadeira revolução no comportamento sexual humano. O remédio capaz de promover ereções perfeitas em homens vítimas de “impotência” (disfunção erétil) causou uma reviravolta tão grande nos relacionamentos como a descoberta das pílulas anticoncepcionais na década de 70.
Desde que foram colocados no mercado, muito já se discutiu sobre indicações, contra-indicações, dosagens, segurança, duração do efeito e tantos outros aspectos destes remédios para ereção. Pois o Projeto Sexualidade da Universidade de São Paulo (ProSex/USP) resolveu inverter o foco das pesquisas e foi às ruas investigar o impacto dessas drogas para a vida delas - as mulheres.
O estudo foi iniciadoemoutubro, quando 2.100 mulheres entre 18 e 65 anos responderam a umquestionárioemdiferentes regiões do Brasil. Os primeiros resultados foram anunciados semana passada durante o debate “Viagra: amigo ou inimigo da mulher?”, realizado em São Paulo.
De acordo com a coordenadora do ProSex, a psiquiatra e psicoterapeuta Carmita Abdo, a maioria das entrevistadas mostrou-se satisfeita com a própria vida sexual.
“A maioria das mulheres cujos parceiros usam medicamentos para melhora do desempenho sexual referiu que o sexo melhorou e que o homem ficou mais seguro e interessante (depois que começou a tomar a droga). Metade delas participa da decisão do homem de tomar o remédio e apenas 15% acreditam que o parceiro deveria interromper o uso”, resume.
Questionada sobre esses 15%, Abdo comenta que não havia essa pergunta no questionário e as respostas foram anônimas. “Mas se eu pudesse ir até elas e perguntar por quê, com certeza elas diriam ‘porque não gosto de sexo’ ou ‘porque com problema de ereção ele não me procura’”, afirma.
Segundo a especialista, apenas 50% das mulheres são saudáveis sexualmente. “A outra metade tem dificuldades sexuais, seja por falta de desejo ou dificuldade em atingir o orgasmo (...) Então, elas não querem que o parceiro melhore seu desempenho sexual”, afirma.
Ela salienta que 82% das mulheres cujos parceiros usam medicamentos para ereção perceberam mudanças em sua vida sexual - na maioria das vezes, mudanças positivas, como um parceiro mais seguro, mais calmo, mais interessante.
A pesquisa apontou que 80% das entrevistadas, emmédia, consideram excelente ou boa sua vida sexual, bem como o desempenho do parceiro, a duração e a freqüência das relações sexuais.
Aliás, o Brasil destaca-se em freqüência quando comparado a outros países. Segundo a pesquisa, 45% das mulheres fazem sexo três vezes ou mais por semana. “Nos Estados Unidos, Inglaterra e outros países da Europa, essa freqüência é de cinco a seis relações sexuais mensais e esse número de repete em diferentes pesquisas. Sem dúvida, somos um povo altamente sexualizado”, observa Abdo.
Presentes ao debate, a atriz Christiane Torloni e o cartunista Miguel Paiva elogiaram a disposição brasileira para o sexo. “Fico impressionadíssima que as pessoas consigam fazer tanto sexo num País com problemas tão graves”, comenta Torloni.
“Acho que o apetite sexual do brasileiro aumentaria muito se nossa vida média fosse melhor, com uma saúde legal, educação melhor, políticos menos corruptos. Mas apesar disso tudo, o brasileiro não desiste. Acho que o sexo é nosso ópio”, acrescenta.
“Pois eu acho que sexo deveria ser feito todo dia. Não cansa, não causa problema, não causa doenças (quando feito de maneira responsável), não há nenhuma contraindicação para isso (...) Então, todo mundo para a cama, porque lá é o melhor lugar que existe”, arremata Paiva.
Melhoria global
Omédico urologista Sidney Glina destaca que a disfunção erétil causa grande sofrimento e até quadros depressivos. Por isso, os medicamentos para ereção acabam promovendo uma melhoria global na vida desses homens, o que acaba de ser constatado em outro estudo, feito em vários países.
“O objetivo da pesquisa era determinar se o tratamento com Viagra melhorava a auto-estima e a confiança dos pacientes com disfunção erétil (...) O grupo que recebeu o remédio relatou uma melhora muito maior (o dobro, em pontuação) que o outro que recebeu placebo”, comenta.