Não são somente os candidatos que sofrem com a aproximação dos vestibulares. Os pais, que acompanharam toda a vida escolar dos filhos e presenciaram as horas de estudo nos últimos meses, também participam da tensão e da expectativa com esse momento. Entretanto, a participação dos pais não é apenas de espectadores. Na opinião da psicóloga Norma de Fátima Garbulho, eles têm papel fundamental na preparação, no estado emocional e no desempenho dos vestibulandos, e algumas atitudes como a cobrança exagerada podem refletir negativamente nos resultados.
“Não tem receita para se ter um bom desempenho no vestibular. Cada pessoa precisa fazer seu próprio esquema de preparação e estudo, e encontrar a forma a que se sinta mais confortável”, completa a psicóloga, que também é professora de orientação profissional no curso de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Nesta entrevista, ela analisa a importância do diálogo entre a família e da liberdade do vestibulando na escolha da profissão e também explica como encarar a possibilidade de não ser aprovado no vestibular.
Jornal da Cidade – Com a chegada dos vestibulares, qual deve ser o comportamento dos pais que têm filhos se preparando para as provas?
Norma de Fátima Garbulho - Eu penso que essa questão do vestibular é muito mais complexa, não é um ano ou dois anos de colegial ou cursinho que vão dar conta dessa preparação para o vestibular. A preparação é a construção de uma série de conhecimentos que vão sendo desenvolvidos ao longo da escolaridade toda. Em primeiro lugar, é preciso que os pais compreendam que essa ênfase que se dá à questão do ensino médio, muitas vezes totalmente voltado para o vestibular, e do cursinho é todo um aparato que supervaloriza esse momento. Todas as pessoas que estão em volta do indivíduo que vai prestar vestibular acabam sem muito subsídio para pensar o que é, na verdade, o vestibular. Os pais também precisam pensar que esse é somente o “final” de um processo de preparação para a entrada na universidade, e que não começa aí.
Em segundo lugar, deve-se pensar quais ações na relação do dia-a-dia com os filhos podem estar afetando e, às vezes, até contribuindo negativamente para o crescimento do jovem, nessa supervalorização do vestibular. Temos pesquisas que mostram o quanto essa forma de conceber e supervalorizar o vestibular, e a aceitação dele como um instrumento de seleção inevitável, digamos assim, acaba mesmo causando o aparecimento de uma série de situações e adoecimentos, que podem até permanecer após a entrada na faculdade.
JC – Esses sintomas e doenças podem permanecer até mesmo depois que o jovem ingressa na ensino superior?
Garbulho – Em alguns casos isso pode acontecer. Em estudos que eu fiz, eu vi casos de obesidade, por exemplo, que a pessoa teve muita dificuldade em resolver, já estava no terceiro ou quarto ano de seu curso e ainda não tinha conseguido voltar ao peso normal. Isso ocorre até mesmo por conta de uma série de hábitos de vida e alimentação inadequados que acabou perdurando. Vi outros com problemas de gastrite, problemas de pele, insônia, dificuldade de reformular seu padrão de sono e voltar a ter a vida que levava anteriormente.
JC – Como ficam os pais na hora de restringir ou proibir as atividades dos filhos, com a intenção de que eles estudem mais?
Garbulho – Na minha visão, não tem receita para isso. Vai depender muito do tipo de envolvimento que esse aluno teve ao longo de sua escolaridade com os estudos. Se ele foi uma pessoa que não estava acostumada a estudar quatro ou cinco horas por dia, fora o período de aulas, e de repente ele ou os pais vão querer que isso seja feito, é bastante inadequado e difícil. Querer que o filho, que está acostumado a sair todas as semanas, de repente deixe de sair e passe dois ou três meses em casa é um exagero, assim como não ter outras atividades de lazer. Esses exageros têm de ser desconsiderados. Cada um tem que compreender o seu próprio esquema, para encontrar a forma mais adequada para se dedicar mais e se sentir melhor.
Claro que também não se pode restringir à meia hora ou uma hora por dia, porque isso é pouco. Os extremos não podem existir. Conversar tranqüilamente, sem o esquema de pressão, é o mais recomendável. Uma coisa que é muito ruim para o indivíduo nesse momento é a pressão, pois ele já tem a pressão da sociedade como um todo, dos colegas, do colégio. O melhor é sentar e negociar o que um pode fazer, os horários para estudar, e também pensar uma atividade de lazer que possa ajudar a desestressar um pouco. A coerência é sempre o melhor caminho.
JC – Conversando com alguns jovens, podemos perceber que muitos pais ficam mais estressados do que os próprios vestibulandos e até alteram a rotina da casa para tentar ajudar, muitas vezes sem muito sucesso. Como fazer isso sem prejudicar o estudante nem os outros moradores?
Garbulho – Vemos muito isso acontecer, dos pais se estressarem até mais do que os filhos. A expectativa que eles colocam no desempenho do filho é tão grande que ele pode realmente agravar essa situação. É preciso também a coerência e a sensatez dos próprios pais para estarem mais atentos a essas ações. “Por que eu tenho tanta expectativa assim? O que eu pretendo com isso?” De repente, ele quer que o filho consiga aquilo que ele não conseguiu ou quer que o filho consiga exatamente aquilo que ele conseguiu. É preciso que os pais estejam atentos aos seus próprios sentimentos.
JC – E como agir se os pais discordam da escolha do filho por uma carreira?
Garbulho – Quando isso acontece, é preciso que os pais tenham a clareza de pensar o porquê eles desejavam outra carreira para o filho. E também porque é que eles não desejam para o filho aquilo que ele aparentemente escolheu. Sabemos que há uma questão de valores na sociedade, que acaba priorizando ou atribuindo uma importância maior para determinadas profissões e desvalorizando outras. Os pais usam argumentos do tipo “Vai passar quatro anos na faculdade para ganhar o quê depois? Vai viver do quê? Isso não é uma carreira, isso você pode fazer para o seu lazer”, e argumentos desse tipo acabam reproduzindo os valores da sociedade.
É importante que os pais tenham essa compreensão e clareza de que valores estão embutidos nesse desejo e também para saber o porquê do filho desejar aquela atividade profissional. Eu penso que os pais têm uma contribuição muito grande no sentido de auxiliar esses filhos a terem acesso, o máximo possível, a informações, contatos com as faculdades, a busca de informações mais concretas sobre as carreiras, e também para o adolescente entender qual será o significado dessa atividade escolhida para sua vida. Aquele vai ser o trabalho que ele está aparentemente escolhendo para o resto da vida, mesmo que não seja.
JC – Quando os pais percebem que o filho não está aproveitando as aulas nem estudando em casa, o que deve ser feito?
Garbulho – O problema é que essa é a hora em que se tapa o sol com a peneira. Estar atento e acompanhar os filhos não poderia ser uma coisa específica desse momento da vida. Claro que se esse acompanhamento tivesse ocorrido desde cedo, provavelmente essa situação não estaria acontecendo. Estou dizendo em relação àqueles jovens que têm tempo para estudar e condições de ter material, acesso às informações, mas infelizmente, isso não reflete a grande parcela da população.
Penso que não é agora que deve começar essa fiscalização. Se isso está acontecendo, é importante novamente sentar para ouvir e ajudar a identificar onde estão as dificuldades e essa desmotivação. Se forem coisas que podem ser resolvidas, como uma aula particular ou participação maior dos plantões dos colégios, fazer um curso de redação ou reorganizar horário ou o método de estudo, estudar em grupo, enfim, algumas coisas assim podem ajudar. Isso é paliativo. Se houvesse um acompanhamento desde cedo, talvez não chegasse a essa situação.
JC – E o caso de pais que oferecem recompensa para os filhos se eles obtiverem um bom desempenho?
Garbulho – Esse é o reflexo de muitos valores da nossa sociedade, do comprar o desempenho, comprar o comportamento do outro. Eu acho isso totalmente inadequado. Uma relação entre pais e filhos, para atender os interesses dos próprios pais, não deve se dar nesse nível.
JC – Se os pais estão percebendo que o filho está estressado com a chegada das provas, que não está conseguindo se preparar bem ou está muito nervoso, a melhor saída é o diálogo?
Garbulho – É não cobrar. Se o filho está passando por isso, é importante ver de onde vem a cobrança. O adolescente às vezes fala que é ele mesmo quem se cobra. Mas o que significa esse comportamento de cobrança? Ele se cobra ou os pais cobram porque o mecanismo do vestibular acaba sendo internalizado como uma seleção dos “melhores” e o indivíduo atribui para si, individualmente, a responsabilidade do passar, o sucesso ou o fracasso. Trazer para si somente a responsabilidade, ou os pais atribuírem a ele essa responsabilidade de passar, acaba gerando essa internalização do comportamento e isso repercute. De novo, é fundamental que os filhos e os pais compreendam o que é o vestibular: é uma forma que se criou para se barrar um contingente enorme que deseja entrar na universidade - principalmente na pública, porque nas outras faculdades têm vagas sobrando. São pessoas bem preparadas e que teriam condição de freqüentar a universidade, mas serão barradas. Não significa que elas não são competentes.
JC – Para finalizar, o que a senhora poderia dizer para os jovens que estão se preparando para prestar vestibular nesse final de ano?
Garbulho – O jovem precisa compreender e não se culpabilizar por esse momento, já que o vestibular é um mecanismo da nossa sociedade atual. Em segundo lugar, ele também precisa compreender que se não houver possibilidade de entrar na faculdade, isso não vai ser o fim do mundo. Ele vai ter mais tempo para isso, e até mesmo para pensar e refletir melhor sobre suas escolas. A partir daí, ele pode definir quais foram as coisas que aconteceram nesse tempo de preparação que dificultaram e que favoreceram, e se utilizar disso nos outros momentos. Se ele conseguir perceber tudo isso, vai se sentir mais tranqüilo, menos cobrado. Deve também se cobrar menos para se sentir melhor e terá um resultado melhor que pode refletir mais adequadamente o que fez ao longo de sua preparação.