Se algo incomoda mais que propaganda do governo federal na TV e as grosserias do Faustão aos domingos, certamente é o papo que está em voga, relacionado a uma tal de “dívida histórica”. É dívida histórica com os negros, é dívida histórica com a África, é dívida histórica com as vítimas do governo militar, com os exilados, com os familiares que nem eram nascidos, etc.
Em 2003, a Alemanha firmou um acordo internacional com a Polônia, no qual ambas impediriam ações judiciais de alemães contra o governo polonês e de poloneses contra o governo alemão, onde os cidadãos desses países reclamavam, respectivamente, perdas patrimoniais no período ante e pós guerra. Deram uma feliz demonstração de racionalidade, mostrando que “guerra é guerra” e que suas conseqüências devem ficar sepultadas no passado, desde que se recrimine e puna os responsáveis, aliás, tal como foi feito.
Enquanto isso, aqui se segue na contramão. Recentemente, (mais) um jornalista recebeu uma indenização do governo federal orçada em impensáveis R$ 1,5 milhão, com direito a pensão de R$ 19 mil mensais, por ter sido perseguido no governo militar. Igualmente a ele, até a filha de Olga Benário também passou a receber sua pensão, a partir deste ano, por causa do desatino do ditador Getulio Vargas. Mas, convenhamos, o que eu, que nasci quatro anos após o golpe de 64 e 14 após a morte de Getulio, tenho com isso? Por que eu, que contribuo sobremaneira, exaustivamente e contra minha vontade, para fazer mais farto o orçamento da União de hoje, tenho que pagar a pensão deles?
Por que meus filhos, que estudam em escolas públicas, só por serem descendentes de arianos, terão que perder vagas nas faculdades para uma parcela “afro-descendente” por causa dessa tal “dívida histórica”. Afinal, eu não sou “senhor de engenho”. Trabalho por trabalho, relembro que meu bisavô veio para o Brasil no século 19, viajou em veleiros donde a peste e a morte eram fiéis companheiras, trabalhou em fazendas paulistas em troca de comida (escravo branco), fugindo do regime ditatorial italiano. De quem eu devo cobrar meu crédito histórico: do governo paulista, pela exploração da mão-de-obra estrangeira, da marinha mercante, pelas degradantes travessias do Atlântico, ou do governo italiano? Também quero receber algo, né, afinal, meus ascendentes italianos e espanhóis ajudaram, efetivamente, a transformar esse Estado no mais desenvolvido e rico do País.
Ora, quantos não foram os eventos degradantes, escravagistas e genocidas ao longo da história mundial? Quantos não foram os povos subjugados, com perdas emocionais e materiais incalculáveis? Se “rebobinarmos a fita da história”, veremos que a cada década retroagida existiu uma violação gravíssima a direitos fundamentais, em guerras endêmicas ou internacionais, sem que isso resultasse em “dívidas históricas”. A diferença é que esses povos têm uma característica ímpar que os move adiante, um desejo de recomeçar da estaca zero, de revisão, de reinício. Lutam para ser o que sabem que são, sem camuflar a realidade, incapacidade ou personalidade. A verdade é que o brasileiro é um povo licencioso e oportunista por natureza, fruto de uma terra onde tudo se plantando dá, inclusive preguiça e malandragem. E, mais uma vez contra a vontade, vamos abrir a carteira para pagar a conta dos outros. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)