Oproblema da homogeneização das paisagens urbanas em
cidades de médio porte do Interior paulista, como Bauru, pode ser revertido sem prejudicar a
atuação do poder público em outras áreas.
Aafirmação é da professora Paula da Cruz Landim, autora
do livro “Desenho de paisagem urbana - As cidades do Interior paulista”. Confira, a seguir, trechos
da entrevista que ela concedeuao JC nos Bairros.
JC nos Bairros - Qual foi a característica marcante da paisagem urbana de Bauru que a senhora descobriu em
sua pesquisa?
Paula da Cruz Landim - O trabalho é justamente sobre a não-existência de coisas marcantes em Bauru. É lógico que a gente consegue identificar Bauru porque a gente tem uma relação com ela que é de uso.
Não é só de desenho. A gente conseguiu estabelecer uma relação com esse espaço urbano que é legível para nós. Aquilo carrega um significado que é do nosso dia-a-dia, do nosso cotidiano. Mas, se você não conhece
a cidade, ela é muito semelhante a qualquer outra cidade de porte médio do Interior do Estado que teve a mesma formação histórica - que surgiu ou se desenvolveu a partir do café ou da ferrovia.
JC - Quais são as características que indicam essa homogeneidade?
Paula - Todas elas têm uma rua Sete de Setembro, 15
de Novembro, uma Praça da República e uma avenida Duque
de Caxias. E, se você chega a uma cidade em que você
nunca esteve, pelo próprio desenho da cidade, por onde estão os prédios mais altos, você consegue mais ou menos identificar onde é o Centro, onde é a região
em que mora a classe mais abastada, onde estão as periferias, onde fica o distrito industrial.
Pelo tipo de construção, pelo tipo de arruamento. Essas
estruturas e organizações se repetem.
É um processo de repetir determinados elementos na
cidade sem estar preocupado se aquilo realmente é o mais interessante para aquela realidade,
para aquela comunidade.
JC - Como seria uma cidade “heterogênea”?
Paula - Isso não é uma camisa-de-força. Eu acho que é uma questão de você deixar de importar elementos pensando que aquilo é melhor para cidade. E ouvir as pessoas que vivem no local. Tem que ter um equilíbrio entre o técnico e a aspiração das pessoas.
JC - Quais são os elementos importados, em Bauru?
Paula - Por exemplo, eu acho o Calçadão uma coisa
que, mesmo passados mais de dez anos, eu não consigo entender. Até hoje eu não me conformo. Simplesmente eles calçaram a rua Batista de Carvalho. Se as lojas estiverem fechadas, não tem movimentação
nenhuma. Não tem vida. E, no momento em que não
tem vida, as coisas não são conservadas. Isso não aconteceria se houvesse uma vida cotidiana
no Centro. O discurso, na época de implantação do
Calçadão, era de que ‘agora nós temos um Calçadão igual
ao de Curitiba’. E daí?
JC - A senhora vê perspectivas de mudanças desse cenário em Bauru?
Paula - O que a gente percebe é uma movimentação de
começar a se preocupar com isso, de buscar uma cidade para ela mesma - sem ter em mente outras cidades. As iniciativas de recuperar a área central, por
exemplo, eu acho extremamente positivas. Bauru é uma cidade que ainda se tem controle sobre ela. O problema é o que pode acontecer futuramente.
JC - E o que pode acontecer futuramente se esse cenário for mantido?
Paula - Se a cidade começar a crescer de modo desordenado, sem levar isso em consideração,
num espaço de tempo pequeno você não estabelece
mais nenhuma relação com ela; não há mais identidade; a cidade não se torna mais legível para você; você não mais a reconhece como sua. No momento
em que você não reconhece o espaço urbano como seu, você não tem interesse de cuidar dele. É um ciclo vicioso.
JC - Quais são as sugestões que a senhora faz para
melhorar a situação?
Paula - A primeira coisa seria levar em consideração a expectativa das pessoas nesse
sentido. Isso pode dar parâmetros para projetos públicos - de espaços públicos, principalmente,
e do modo de conduzir as coisas. Isso faz com que as
pessoas sintam-se valorizadas, sintam a cidade como delas e tenham cuidado, interesse. Se os moradores pedem um campo de futebol e a prefeitura
constrói uma praça, a praça será constantemente depredada. Tem de haver diálogo. Quando as pessoas enxergarem aquilo como a tradução do que elas queriam, elas vão ajudar a cuidar das vias, das calçadas, da arborização pública, por exemplo. Isso não é supérfluo e não precisa deixar de lado outros problemas
para cuidar dessas coisas.