Multiplicar o número de cursos de engenharias e ciências exatas, buscando maior integração entre as universidades e o setor produtivo e ampliação das atividades de pesquisa voltadas à inovação tecnológica. Esta é a sugestão de empresários brasileiros compilada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e entregue semana passada ao ministro da Educação, Tarso Genro. A proposta de reforma do ensino superior no País foi elaborada a pedido do governo e vai de encontro com a atual realidade, a qual mostra que mais de dois terços dos cursos são voltados às ciências humanas e sociais.
O presidente da CNI, deputado Arnaldo de Queiroz Monteiro (PTB-PE) destaca que o empresariado nacional pretende, com o documento, contribuir para a aprovação da reforma, que será enviada pelo governo ao Congresso Nacional no início do próximo ano.
Além do crescimento no número de matrículas no ensino superior registrado pela CNI nos últimos anos, detectou-se também o crescimento da produção científica, que coloca o Brasil em 19.º lugar em relação aos demais países. Apesar disso, a capitalização do sistema ainda é insuficiente para garantir ao País o crescimento econômico sustentável. Segundo Monteiro, o atraso do setor ameaça a competitividade e a inserção da nação no mercado internacional.
O documento da CNI aponta também para a necessidade de universalização do ensino superior, seguindo orientação do governo Lula, e o aumento de 9% para 30% no número de jovens que estão cursando uma escola de nível superior. O presidente da CNI critica o modelo rígido atual das universidades, que são obrigadas a se dedicar igualmente ao ensino, à pesquisa e à extensão. Na opinião de Monteiro, elas deveriam ter liberdade e flexibilidade para seguir cada qual sua vocação, tendo em vista as realidades regionais e os meios disponíveis.
“A universidade brasileira, atrelada a uma legislação ultrapassada e asfixiante, deve libertar-se do formalismo burocrático para servir ao projeto de nação, afirma. Para ele, a sociedade só se apropria do conhecimento gerado pelas universidades quando ele se traduz em inovação tecnológica.
Mercados crescentes
Seguindo as tendências dos números positivos na indústria brasileira, o mercado de trabalho para os profissionais das áreas de exatas e de engenharias vem apresentando crescimento e absorvendo os recém-formados universitários. É o que indicam os professores e diretores dos cursos da área nas instituições de Bauru consultados pelo JC.
De acordo com a irmã Geni da Silva, diretora da Faculdade de Ciência da Computação da Universidade do Sagrado Coração (USC), o mercado nas áreas ligadas à tecnologia continua sendo um ambiente violento, principalmente pela exigência de um profissional de qualidade. “Muitas instituições têm cursos de computação, por exemplo, mas são poucas as que oferecem uma parte pedagógica bem fundamentada, e isso é o que diferencia o profissionalâ€, aponta.
Ela destaca que poucos recém-formados seguem para a licenciatura e, atualmente, a oferta de vagas para professores de ensino fundamental e médio é grande no País. “Muitas escolas nos pedem estagiários para lecionar, porque não há formados na área que queiram preencher esse mercado. Nem todo mundo quer ser professor, até porque as pessoas ganham mais na indústriaâ€, pondera.
Na opinião do diretor da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Lauro Henrique Mello Chueiri, o mercado de trabalho vem passando por um momento de estabilidade, mas ainda estaria longe do ideal. “O mercado já esteve muito melhor. Notamos que a maioria dos nossos alunos tem conseguido emprego, apesar de algumas áreas terem maior procura. No entanto, muitas vezes o salário não é compatível com a responsabilidade de um engenheiroâ€, diz.
Ele critica o distanciamento das instituições de ensino superior das indústrias e afirma que a reforma universitária se faz necessária para que a aproximação entre os alunos e o mercado de trabalho seja maior. “Temos uma idéia do que se passa na cabeça dos empresários e do tipo de profissional que eles estão buscando, mas a visão do mercado é imediatista e muda muito do momento em que um aluno ingressa na universidade até o momento em que ele se formaâ€, argumenta.
*Com Murilo Murça de Carvalho – correspondente do JC em Brasília