Ao longo da recém-concluída campanha eleitoral norte-americana, assistimos, atemorizados, a violência no Iraque e as declarações belicistas do presidente Bush, enquanto seu adversário Kerry não ficava atrás, com exceção de alguns matizes. Esta violência é intrínseca ao espírito imperial arraigado na cultura ocidental, pois sempre se mostrou imperialista, sobrepondo-se a todos os “outrosâ€, a todos os “diferentesâ€. A reeleição de Bush assegura a continuação dessa trágica política e talvez seu agravamento.
Em nossos dias, lamentavelmente, há poucos amantes da paz. E abundam os obsessivos da guerra. Temos necessidade de fontes inspiradoras para a paz. Uma das mais consistentes foi formulada por Immanuel Kant (+1804), em seu escrito de 1795 que leva o sugestivo título de A Paz Perpétua (Zum ewigen Frieden). Kant propõe a república mundial (Weltrepublick), baseada na cidadania mundial. Esta cidadania mundial tem como primeira característica a “hospitalidade geralâ€. Precisamente porque - diz o filósofo - todos os humanos estão sobre o planeta Terra e, sem exceção, têm o direito de estar nele e de visitar seus lugares e os povos que o habitam. A Terra pertence a todos, comunitariamente.
O império do direito e a difusão da hospitalidade devem criar uma cultura dos direitos, gerando de fato a “comunidade dos povosâ€. Tanto pode crescer a consciência desta comunidade, diz Kant, que a violação de um direito em um lugar chegaria a ser sentida em todos os demais lugares, conceito que mais tarde será repetido por Ernesto Che Guevara. Se queremos uma paz perene e não apenas uma trégua ou pacificação momentânea, devemos viver a hospitalidade e respeitar os direitos.
Diferente é a visão de outro teórico do Estado e da globalização, Thomas Hobbes (+1679). Para ele, a paz é um conceito negativo, significa a ausência de guerra e o equilíbrio da intimidação entre os Estados e os povos. Esta visão cria um paradigma que predominou durante séculos e que hoje recobra vigorosamente atualidade, depois dos atentados terroristas do 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos decidiram combater o terrorismo com a guerra, deixando de lado a perspectiva de paz. Instalaram um regime de segurança nacional e internacional inspirado na lógica perversa que lhe é intrínseca: suspeitar de todos. Um árabe ou muçulmano, só pelo fato de sê-lo, já é um eventual terrorista. Em nome da segurança nacional suprimem-se direitos constitucionais que eram um atributo da democracia norte-americana. Os acusados de terrorismo são presos e mantidos em lugares secretos, às vezes fora de seu próprio país, sem acesso aos seus familiares, advogados e até à Cruz Vermelha Internacional. Como se isso não bastasse, a superpotência propicia medidas militares preventivas e coopera com os organismos internacionais apenas na medida em que os instrumentaliza, como se viu com as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança. O retorno ameaçador do Estado-Leviatã de Hobbes, inimigo visceral de toda estratégia de paz. Em sua lógica não há futuro para a paz nem para a humanidade.
O autor, Leonardo Boff, é teólogo e ambientalista brasileiro