Pesca & Lazer

História de pescador: Feriado em Miranda


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“No início dos anos 90, feriado de finados, fomos eu, meu pai e o senhor Wilson Canela pescar no rio Miranda, em Mato Grosso do Sul. Saímos de Bauru na quinta-feira com o dia clareando, a viagem foi puxada e só chegamos no Rancho no meio da tarde. Era um belo rancho, pertencente ao Canela e aos irmãos Bianconcini, uma casa de madeira bem construída, arejada, com cozinha grande e ao lado um quartão de alvenaria com um potente ar condicionado.

Sem luxo, mas com grande conforto, tinha tudo o que de fato precisava ter num rancho de pesca no Mato Grosso. O rancho não ficava às margens do rio Miranda, mas numa pequena vila, e tínhamos que caminhar uns 100 metros entre outros ranchos para chegar ao rio.

Após descarregar as tralhas, tomamos um banho e ficamos conversando com os piloteiros enquanto a caseira preparava o jantar e, é claro, nós saboreávamos deliciosas cervejas. Logo depois da ‘janta’, fomos deitar para acordar bem cedo no dia seguinte e sair antes dos outros pescadores para conseguir um bom lugar para pescar, afinal era um ‘feriadão’ e a região estava lotada.

Conforme combinado, saímos antes do dia clarear, em três botes, um para cada pescador, e navegamos um bom tempo rio abaixo até que o piloteiro do barco onde estava o Canela, o mais experiente da equipe, escolheu o ponto de parada. De verdade, não é conversa de pescador, mas era fisgado um pacu atrás do outro, nos três botes.

Paramos já no início da tarde alcançando a cota limite, que lotou nossa caixa térmica. Quando aportamos na vila, percebemos que os demais barcos não haviam tido tanta sorte e aí o Canela aprontou uma boa, carregou uma enorme carriola exibindo os maiores pacus por cima e saiu cantarolando e zigue-zagueando entre os demais pescadores, causando verdadeiro furor.

Só fomos almoçar no fim da tarde, com grande fome, daquelas que deixa qualquer arroz com feijão tão gostoso quanto os mais elaborados pratos. Depois fomos dormir e só acordamos no anoitecer para ir jantar em Miranda, sem pressa para deitar, pois decidimos sair bem tarde para pescar no sábado, concluindo assim a brincadeira armada pelo Canela.

Na manhã seguinte, saímos para o rio por volta das 9h, nos mesmos três barcos, só que dessa vez nem tão preocupados em achar o ponto certo da pesca, afinal nosso freezer já estava lotado, o que queríamos era saber se o desfile do Canela na tarde anterior daria resultado.

E não deu outra, foi tiro e queda, um grande número de barcos estava nas proximidades do rancho e à medida em que íamos passando eles iam nos seguindo, formando uma verdadeira fila de barcos rio abaixo, todos nos seguindo em busca daquele ponto onde pegamos tantos pacus no dia anterior, só que, é claro, nossos piloteiros não voltaram mais ao local.

Foi muito engraçado, nós parávamos os barcos e todos iam parando ‘disfarçadamente’ nas proximidades. Depois dávamos a partida e saíamos, sendo logo seguidos pela comitiva. Por várias horas a cena se repetiu, até que seguimos rio acima de volta ao rancho, sem nenhum peixe, desapontando a todos.

No dia seguinte, domingo, saímos antes de clarear para Bauru, pretendendo almoçar em casa, mas o castigo veio a cavalo. Estávamos com uma caminhonete de meu pai, uma Brasinca Andaluz zerinho, que ele havia mandado trocar o câmbio por outro ofertado nos jornais paulistanos, com promessa de que ficaria igual a um carro de passeio.

De fato, as marchas eram trocadas com grande facilidade, só que não agüentou o tranco e acabamos voltando de Mercedes, carregados num ‘Mercedão’ fretado em Três Lagoas, só no meio da tarde daquele domingo, depois que desistimos de tentar consertar aquele maldito câmbio!

Antonio Carlos Piccino Filho é delegado de Polícia, professor e contador de histórias

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