Geral

Edmundo: de vereador a ‘1º ministro’

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 11 min

Há um ano, o economista e vereador Edmundo Albuquerque (sem partido) traçou o seu futuro. Anunciara publicamente que não disputaria a reeleição à Câmara Municipal e, para provar que não estava blefando, desfilou-se do PPS já no período em que não poderia se abrigar em outro partido para disputar mais um mandato parlamentar.

Achava que sua cota de contribuição à vida pública chegara ao fim. Mas o jargão diz que “a política é muito dinâmica”. Tanto é verdade que os planos de Edmundo deram um giro de 180 graus em apenas alguns meses. Sua intenção de pendurar as chuteiras na política passou longe do apito final de um jogo que começou em julho passado e acabou no dia 30 de outubro com a eleição de Tuga Angerami (PDT) à Prefeitura de Bauru.

Aparadas as arestas que sobraram com o então deputado Tuga Angerami na eleição legislativa de 1998, Edmundo abraçou a campanha para prefeito do pedetista em julho e a coordenou até o fim. Tornou-se um dos principais nomes ligados a Tuga. Junto com o vereador Rodrigo Agostinho (PMDB), viabiliza a transição do governo Nilson Costa para a futura administração.

O ‘primeiro-ministro’, como já é chamado por alguns tuguistas, tem consciência das diferenças que encontrará na atuação junto ao Executivo com relação ao Legislativo. “Tenho a expectativa de que vou me sentir melhor (no Executivo) porque sempre fui de realizar”, avalia. Entre um telefonema e outro no seu gabinete da Câmara, Edmundo concedeu a seguinte entrevista ao Jornal da Cidade:

Jornal da Cidade - Como o senhor iniciou na vida política?

Edmundo Albuquerque - Foi através da participação na Igreja Católica. Nós discutíamos os problemas sociais do município, do Estado e do País. E nas discussões, muito se falava que as soluções para esses problemas vêm da ação política. E a ação política, que é sempre praticada, pouca gente se dispõe a participar. Eu costumo dizer que o político é igual a sacerdote: muita gente quer um bom sacerdote, mas na família dos outros. E aí um grupo me incentivou a participar da ação política.

JC - Antes de ingressar na vida pública o senhor já se considerava uma pessoa politicamente conscientizada?

Edmundo - Sim, porque eu participava das discussões. Fui fundador de uma creche no núcleo Otávio Rasi, buscando atender as necessidades daquela região com as mães que trabalhavam. Já havia uma participação como liderança em movimentos sociais. Entendia que fazer política era lutar pelo bem comum. Eu já fazia isso sem fazer política partidária.

JC - Alguns segmentos mais conservadores da Igreja Católica defendem que política e religião não devem se misturar. O senhor concorda?

Edmundo - Eu entendo totalmente o contrário. A religião busca lutar pelo próximo, busca o bem comum. E a política é a melhor forma de se fazer isso. Essas pessoas, provavelmente, não leram os documentos do Papa João Paulo II que falam sobre a participação dos leigos na política, incentivando-os a ingressar na vida pública. O que as pessoas confundem é em relação ao sacerdote, que não deve participar da política. Também não deve usar a Igreja para fins políticos. Mas o cristão leigo que tem a consciência da luta para melhorar as condições de vida das pessoas mais necessitadas deve atuar na política.

JC - Nas eleições municipais deste ano, um grupo de padres da Paróquia Nossa Senhora das Graças tornou pública uma carta de apoio a um candidato à Câmara. O senhor, como ativista da Igreja Católica, concorda com esse tipo de manifestação por parte do clero?

Edmundo - Eu acho correto. Todas as comunidades deveriam ter um posicionamento de apoio a alguém. Logicamente que tem que ser uma pessoa que já participava da Igreja, que tenha um histórico de envolvimento, ou seja, um militante e não qualquer um que apareça lá e queira tirar proveito da situação. Tem que haver um crivo: a comunidade deve escolher e indicar. Evidente que nem sempre isso resulta em eleição, mas acredito que a Igreja deve caminhar por aí. As discussões devem começar antes das eleições. O erro que tem se cometido na Igreja Católica é que se discute política somente no ano eleitoral. Temos que discutir política permanentemente.

JC - O senhor cumpriu três mandatos como vereador. Qual a avaliação que se pode fazer da sua primeira legislatura, de 1993 a 1996?

Edmundo - Foi um primeiro mandato de alguém que não tinha experiência de atuação política parlamentar, mas tinha experiência de vida até pela idade e por tudo que já tinha passado. Acredito que tive uma boa atuação até porque teve momentos em que fui o único parlamentar contrário à administração Tidei de Lima (ex-prefeito). Eu era oposição. Não fiz parte do famoso Trem Bala (bancada de vereadores que apoiava o então prefeito Tidei de Lima). Debati violentamente nos meios de comunicação a minha posição contrária ao empréstimo para a construção do viaduto. Infelizmente, a gente sabe que a administração Tidei de Lima conseguiu envolver toda a Câmara através do Trem Bala. Conseguiu até envolver a sociedade. Sendo oposição, encontrei resistência. Mas sempre digo que a atuação do político se mede no tempo. Hoje, é possível enxergar que em alguns momentos eu tinha razão. Entendo até que os problemas de Bauru começaram no último ano do mandato do prefeito Tidei de Lima. É lógico que temos que considerar que ele executou alguns projetos de interesse social, como o do desfavelamento, que a Igreja Católica participou.

JC - O segundo mandato do senhor, de 1997 a 2000, pode ser considerado como o pior momento da sua história política?

Edmundo - Eu não diria da minha história política, mas da história de Bauru. Acredito que foram muito difíceis aqueles dois primeiros anos. Apoiei o Ricardo Carrijo para prefeito e quem venceu foi o Antonio Izzo Filho. Lamentavelmente ele se acercou de pessoas que não tinham condições morais para participar da administração de nosso município. Isso ficou evidente logo nos primeiros meses de seu mandato. Cheguei a dizer na tribuna: ou o prefeito toma uma providência ou íamos passar a considerá-lo participante do que estava acontecendo. Conivente ele já estava sendo. Eu entendo que a minha participação pessoal foi importante para o município. Fui eu quem fiz o pedido de cassação de seu mandato.

JC - Esse período foi bastante conturbado, com ameaças a vereadores. Em algum momento o senhor se sentiu acuado?

Edmundo - O clima na cidade era muito difícil. Mas sempre tive apoio da família, dos amigos. Me lembro do pessoal da Igreja Católica fazendo orações na minha casa numa noite. Mas por incrível que pareça, nunca recebi nenhuma ameaça. Nem mesmo telefonemas. Muitos vereadores foram ameaçados, inclusive pessoalmente. Tivemos as bombas nas casas de alguns colegas.

JC - O senhor atribui essa blindagem a quê?

Edmundo - Entrei na política pelo PSDB. O prefeito, na época, era o Izzo Filho. E nós tivemos muitas reuniões. Ele sempre viu que eu tratava a coisa de maneira política. Nunca fui para o campo pessoal. E desde que ele iniciou o segundo mandato, eu, algumas vezes, logo nos primeiros meses, tentei ajudá-lo, mas percebi que não tinha condições e me afastei. Sempre me posicionei politicamente como oposição. Em nenhum momento fiz ataques pessoais. Não quero dizer com isso que quem foi ameaçado tenha tido outro tipo de comportamento. Porque tivemos vereadores com esse tipo de comportamento e também foram ameaçados. Também tenho que acreditar em alguma coisa a mais: a proteção divina.

JC - Em 1998, ainda filiado ao PSDB, o senhor conseguiu a indicação para disputar a Assembléia Legislativa, mas o então deputado federal Tuga Angerami decidiu não disputar a reeleição. O senhor ficou magoado com a desistência repentina do Tuga, com quem iria compor uma dobradinha?

Edmundo - Coloquei isso pessoalmente para o Tuga. Disse a ele que fiquei magoado naquele momento porque esperava dele um apoio àquela candidatura. Evidente que é preciso respeitar o estilo de cada um, mas não dá para fugir que fiquei com mágoa naquele momento. Tenho a convicção de que hoje já nos entendemos, nos acertamos. Eu compreendo o momento que ele passou. O Tuga não queria ser candidato a deputado federal para poder disputar a prefeitura em 2000. Foi uma fase que a gente passou por cima. Eu sempre digo que o apoio de um homem público para o outro tem que ser na base das qualidades morais, integridade, na vontade política e na disposição de fazer o que for melhor. O que for particular, temos que tentar passar por cima.

JC - Em 2000, Nilson Costa assumiu de vez a prefeitura, o senhor se filiou ao PPS. Informalmente, o senhor defendeu a administração municipal na Câmara. Mas a inabilidade política do prefeito provocou descontentamento geral no Legislativo. O senhor ficou decepcionado?

Edmundo - Politicamente me decepcionei. Na minha avaliação não vejo problemas no Nilson como homem público, honesto e íntegro. Era um momento em que a cidade se unia em torno do prefeito para se fazer uma boa administração. E ele não soube aproveitar. O principal pecado dele foi não formar um grupo político com o qual ele discutisse os problemas da cidade e os encaminhamentos que deveriam ser feitos.

JC - Faltando menos de um ano para as eleições municipais de 2004, o senhor se desfiliou do PPS e anunciou que estava encerrando sua vida pública. Naquele momento o senhor tinha mesmo vontade de cumprir essa decisão?

JC - Sim. Era meu projeto pessoal de não atuar mais na vida pública porque como vereador me senti impotente. Havia determinados momentos que você desejava mudar alguma coisa mas não tinha condições. Digo que o vereador tem duas situações: ou se posiciona contra o Executivo, é oposição, ou tenta ajudar o prefeito a fazer a cidade caminhar. Eu já tinha feito as duas coisas. Fui oposição ao Tidei e ao Izzo. Acho que dei minha contribuição, mas desejava realizar alguma coisa. Tentei isso com o governo Nilson Costa. Infelizmente, por uma série de fatores, não conseguimos caminhar. O estilo dele era diferente do meu estilo de fazer política. Me senti impotente. Tem hora que a gente se sente enxugando gelo.

JC - O que fez o senhor mudar a decisão de encerrar a carreira política neste ano? A reaproximação com Tuga Angerami pesou?

Edmundo - O Tuga me procurou pedindo apoio como vereador à sua candidatura. Eu entendi que o Tuga era a melhor posição para o município. Algumas pessoas que conviviam comigo politicamente colocaram que eu não podia me afastar, abandonar a experiência dos 12 anos que tive de vida pública. Ponderando tudo isso, resolvi me posicionar em apoio ao Tuga. A coordenação de campanha veio de surpresa. O próprio Tuga anunciou, em discurso, que eu seria seu coordenador de campanha sem me consultar. Fiquei numa situação difícil de fugir daquele convite. Naquele momento não tinha convicção de que iria continuar na vida pública. Apenas fiz o papel de alguém que contribuiu com a campanha eleitoral.

JC - O Tuga foi eleito prefeito e o senhor deverá desempenhar uma função de peso na futura administração. Já falam até num cargo que desempenhará a função de primeiro-ministro.

Edmundo - Não gosto dessa afirmação porque ela acaba me deixando com muita responsabilidade e também me coloca numa situação diferenciada dos meus companheiros de equipe. Minha função de coordenador de campanha acabou com a eleição de segundo turno. Fiquei uns dias sem atribuição. Novamente o Tuga me convidou para cuidar da equipe de transição junto com o vereador Rodrigo Agostinho. Se eu falar que não vou participar do próximo governo seria dizer que estaria longe do Tuga. É logico que será diferente e que deverei participar do governo. Mas em nenhum momento discutimos cargos.

JC - O senhor vai compor uma administração que terá desafios pela frente, principalmente na área financeira, cujos recursos são poucos se comparados com a dívida do município.

Edmundo - Todos têm essa consciência. O Tuga, os candidatos que não se elegeram, a população e os meios de comunicação têm essa consciência. Todos nós, do grupo, sabemos das dificuldades. Temos que acreditar nas alternativas, nas ações políticas que independem de recursos financeiros. Há uma disposição do Tuga de buscar recursos em Brasília e no governo do Estado. Tenho a convicção de que o deputado Pedro Tobias também vai colaborar em buscar recursos para o nosso município.

JC - A transição do governo Nilson Costa para a futura administração já completa duas semanas. Como está a relação com o Palácio das Cerejeiras?

Edmundo - Há um relacionamento muito bom do nosso grupo com o prefeito Nilson Costa e seus assessores. Felizmente, passamos por um momento que Bauru pede por entendimento e isso está ocorrendo. Quero aproveitar a oportunidade para parabenizar o prefeito e sua equipe. Vamos continuar nesses próximos dias com esse clima de cordialidade e entendimento. Isso é bom para a cidade.

Comentários

Comentários