O padre e o rádio
Meu pai tinha razão. Foi mesmo um padre brasileiro quem inventou o rádio.
“Que Marconi, o que?!” – bradava ele, com o cachimbo na mão, inconformado com a injustiça.
Desde menina, eu sentia o coração palpitar quando ouvia meu pai, o inesquecível Caroly, contando emocionado a saga do padre gaúcho que, no século 19, teria inventado o rádio. Segundo suas fantásticas narrativas, o padre abandonara a maravilhosa descoberta quando a Igreja da época passou a persegui-lo como bruxo.
Talvez venha dessas conversas cotidianas a minha sempre inexplicável paixão pelo rádio. Claro que eu acreditava piamente em todos os arroubos criativos do meu pai, mesmo os mais criativos. Mas a verdade sempre acaba por mostrar as suas asas.
Foi assim que sorri vitoriosa ao abrir o Estadão de domingo. Lá estava publicada uma interessante matéria cuja manchete estampava a frase: “Padre perseguido por se dedicar à ciência”.
A reportagem versava sobre o lançamento de um livro, por uma importante editora, na Alemanha. Escrita pelo jornalista paulistano Hamilton Almeida, a obra lançada relata ao mundo a história do padre cientista, Roberto Landell de Moura, que morreu no anonimato sem entrar para a galeria dos magos das telecomunicações.
É pena papai não estar mais aqui para poder se alegrar, junto comigo, com a notícia de domingo..
Pode ser que ele tenha conseguido encontrar, lá no azul o eterno, o tal Padre Roberto. Se o encontrou, devem estar rindo juntos, comentando como os supersticiosos brasileiros foram tolos em chamar de “pacto com o diabo” aquilo que um diria viria a ser considerada a “máquina dos sonhos” do homem moderno.
A benção, Padre Roberto, você que foi realmente o primeiro radialista da face da terra!
Luciana Gonçalves - profissional de marketing e telecomunicações - RG 16.829.337