Não é só o Papai Noel e o espírito de Ano Novo que aparecem em dezembro. Com eles também surgem novas oportunidades de emprego geradas pelas diversas formas das empresas se prepararem para as datas, consideradas o “filé mignon” para as vendas diante do enorme aumento da demanda. Há quem disponibilize vagas temporárias, estabeleça rodízio ou banco de horas entre os empregados ou prefira apenas pagar horas extras, mas é fato que os trabalhadores também encaram algo comum nessa época: uma jornada que exige fôlego de atleta e criatividade para superar a correria do serviço, cuidar da casa e da família.
“Tem de tudo. Desde contratações temporárias formais, com direito até a contrato de experiência, às informais, que se estabelecem quando as empresas convidam as pessoas para trabalhar, combinam uma porcentagem sobre as vendas e, após dezembro, a relação entre empregador e empregado se finda. Mas é difícil quantificar isso”, diz Edson Quintiliano, assessor de comunicação do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bauru.
Já Cássio Carvalho, da Associação Comercial e Industrial de Bauru, destaca que as empresas escolhem a maneira para superar o aumento do movimento conforme sua estrutura, mas que o banco de horas, atualmente, tem sido uma das formas preferidas. “O comércio tem o privilégio de ter o banco para compensar as horas adicionais obtidas em datas especiais no ano, como dia dos Namorados, das Mães, Natal e Ano Novo. Geralmente, quem o adota são as firmas que não suportariam pagar horas extras. Já os temporários são absorvidos, principalmente, pelas grandes lojas de rede”, enfatiza.
Segundo Carvalho, o banco de horas facilitou a vida dos comerciantes. “Sem ele, muitas empresas não teriam condições de atender os consumidores em horários diferenciados”, sustenta. E quem também aproveita o mês “quente” de vendas, e as chances abertas pelo comércio para “beliscar trocos” a mais para o orçamento doméstico, são os trabalhadores, que também se desdobram no trabalho e em casa.
É o caso de Flávia Marques, que atua há quatro anos e meio como vendedora em uma loja de departamentos da cidade, onde permanece das 8h às 20h e, depois, precisa iniciar o “segundo turno” na residência, quando o marido e a filha de 3 anos lhe esperam. “Chego e, além de ajudar o esposo a cuidar da filha, faço comida e passo roupa”, conta.
Apesar disso, ela não reclama e encara a jornada dupla com valentia. “A vida fica corrida mesmo, mas é uma boa hora para a gente ganhar um dinheirinho extra. Por isso, quando vou trabalhar estou sempre disposta e com sorriso nos lábios, como manda o figurino do bom vendedor”, garante Flávia. “Em casa parece que o serviço nunca acaba. Já no trabalho a gente sabe que tem horário”, complementa. E engana-se quem pensa que o marido protesta por Flávia precisar atuar como mãe e dona de casa diariamente. Ela afirma que ele é compreensivo, principalmente por também trabalhar no comércio. “Ele entende”, afirma.
Quem também encontrou uma maneira criativa de encarar a dupla tarefa sem arrumar “briga” com o esposo é Simone Mansano, operadora de caixa temporária em uma loja de departamentos de Bauru. Para isso, ela discriminou em uma lista, devidamente digitada no computador, as tarefas diárias de cada um, como lavar louça e fazer comida. “Funciona direitinho”, garante.
Simone revela, ainda, que a listagem também envolve providenciar cuidados para outros “hóspedes” especiais da residência: dois gatos e um cachorro. “Tenho o marido e os bichinhos para tomar conta. Por isso é que conversamos e dividimos bem o que cada um precisa fazer”, diz, rindo. Além disso, ela frisa não ter dúvidas sobre onde prefere atuar. “Não gosto de ficar parada em casa. Prefiro a agitação do trabalho”, salienta.
Já o jovem Giovani Bertoni Sebastião, que conseguiu vaga temporária de segurança numa loja, conta que sua vida é um pouco mais “fácil” que a dos casados. Além de ser solteiro, mora com os pais. “Só isso já dá uma força boa, pois conheço quem tem família e trabalha nessa época. A correria deles é intensa” conclui.