A viagem do astronauta brasileiro por pouco não foi “para o espaço”. A possibilidade do tenente-coronel aviador Marcos Pontes sair da órbita terrestre a bordo de uma espaçonave americana ou russa foi adiada, outra vez, para 2006 porque o Brasil não cumpriu suas atividades no cronograma da Estação Espacial Internacional (ISS), conforme acordo assinado em 1997.
O risco da missão ser prorrogada mais uma vez ainda não está descartado. A Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Nasa (agência espacial norte-americana) redimensionaram o acordo inicialmente firmado para reduzir os dispêndios brasileiros junto à ISS. Diante das alterações, a agência acredita que terá condições de cumprir o novo acordo, assim que ele for aprovado pelo Congresso.
Caso não haja mais empecilhos e outras dificuldades de ordem financeira, Pontes pode tornar-se o primeiro brasileiro a participar de uma viagem espacial em 2006, ano em que se comemorará o centenário do primeiro vôo de Santos Dumont. Para contar a evolução da aviação, o astronauta brasileiro veio a Bauru, cidade onde nasceu.
Ele abrirá hoje a exposição fotográfica “100 anos de pioneirismo”, oportunidade em que deve esclarecer dúvidas da população e da imprensa. Pontes, porém, já adiantou ao JC algumas informações em entrevista realizada via e-mail. A seguir, os principais trechos:
JC - Existe alguma confirmação de data quanto à viagem ao espaço?
Marcos Pontes - Existe uma previsão para 2006.
JC - Ela foi ou pode ser mais uma vez adiada?
Marcos Pontes - Sim, ela foi adiada pois o Brasil não cumpriu com suas atividades no cronograma da ISS segundo o acordo original assinado em 1997. Pode ser novamente caso o País não cumpra o protocolo internacional assinado em 2002. Contudo, segundo o atual presidente da AEB, Sérgio Gaudenzi, o Brasil cumprirá sua parte nesta administração.
JC - O perfil e os objetivos da missão podem ser alterados em função das prorrogações da viagem?
Pontes - O perfil da missão só é conhecido no momento da escalação, cerca de um ano antes da decolagem. Contudo, os objetivos científicos e cívicos da missão para com o Brasil permanecem os mesmos.
JC - As pesquisas científicas brasileiras são de padrão internacional?
Pontes - Em algumas áreas, sim. Em outras, falta ainda um longo caminho. Pesquisas em microgravidade, por exemplo, que são uma tendência mundial, ainda precisam de muito incentivo e desenvolvimento no País. Meios de acesso à microgravidade são difíceis e caros. A ISS representa uma maneira simples, eficiente e barata para o País conseguir se firmar no uso dessa ferramenta de pesquisa de ciências puras e do desenvolvimento de métodos e tecnologias.
JC - Nos últimos quatro anos a imagem do Brasil mudou junto à Nasa?
Pontes - Em termos de imagem científica e de competência técnica administrativa, refletida na performance perante aos parceiros da ISS, nossa imagem foi deteriorada ao longo dos sete anos de participação no projeto sem a produção de nenhum componente nacional para o complexo.
JC - Quais missões imediatas da Nasa estão previstas? Houve alguma mudança de planos após o último acidente com o ônibus espacial?
Pontes - O retorno ao vôo dos ônibus espaciais deverá acontecer em maio de 2005. Atualmente, as missões tripuladas para a ISS têm sido realizadas a bordo das espaçonaves russas (Souyuz)
JC - A permanência do governo Bush pode alterar o rumo dos trabalhos na Nasa?
Pontes - Não. O governo Bush colocou novos rumos durante 2003 e 2004 para a Nasa, partindo das missões de baixa órbita (ISS) para missões de longa duração (Lua e Marte). Esses objetivos continuarão.
JC - A Força Aérea Brasileira fará campanha para divulgar a missão brasileira?
Pontes - Sim. A Força Aérea tem sido essencial para a execução com sucesso da parte operacional do projeto, não só na minha formação como também para apoio público, como é o caso dessas campanhas.
JC - O senhor levará objetos de Santos Dumont para o espaço?
Pontes - Em 2006, o ano previsto para meu vôo, fará 100 anos do primeiro vôo de Santos Dumont. Quero levar seus objetos pessoais como uma homenagem ao pai da aviação. Isso é uma forma singela de homenagear nosso patrono da aviação e herói nacional perante o mundo.
JC - A expectativa da viagem tem abatido o senhor?
Pontes - Confesso que estou muito ansioso. A expectativa só aumenta a motivação, assim como tenho certeza ocorre com cada brasileiro que acompanha os fatos e tem orgulho em ver a bandeira do Brasil no espaço. Inclusive, nesse aspecto, fiquei surpreso e extremamente feliz ao tomar conhecimento de uma campanha pública, iniciada, desenvolvida e realizada por pessoas que admiram o nosso trabalho e vêem a importância do evento histórico do meu vôo para o País. Eles se organizaram e criaram um comitê nacional chamado “Marcos Pontes” para informar e coletar assinaturas de apoio. Fiquei realmente emocionado e agradecido pelo carinho e apoio que tenho recebido do nosso povo.
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Exposição mostra 100 anos de conquista
O astronauta brasileiro, tenente-coronel aviador Marcos Pontes, abrirá hoje em Bauru a exposição fotográfica interativa “100 anos de pioneirismo”. Através de painéis, a mostra apresentará as atividades da Força Aérea Brasileira (FAB) e da estação espacial, além da história dele e de Santos Dumont.
Pontes deve tornar-se o primeiro brasileiro a fazer uma viagem espacial em 2006, ano em que se comemorará o centenário do primeiro vôo de Santos Dumont. Por essa razão, a exposição contará a evolução da história da viagem ao espaço desde o “pai da aviação” até o astronauta brasileiro, que cedeu para o evento até seus capacetes de vôo da época em que pilotava caças.
Os participantes da mostra ainda terão a chance de conhecer o check list de um ônibus espacial e um modelo de uniforme extra veicular de astronauta, que poderá ser vestido pelos interessados.
O lançamento da exposição será hoje às 10h30, na rua Alípio dos Santos, 5-22, na Vila Universitária. No entanto, a mostra será mantida até dia 29. De amanhã até sexta-feira, o horário de visitação será das 7h às 22h. No sábado, das 7h às 12h. Do dia 20 ao dia 29, os interessados poderão comparecer das 9h às 19h e no próximo sábado, das 9h às 12h.