Brasília - O crescimento do setor agropecuário (3%) este ano será inferior ao do conjunto da economia (4,5%) brasileira, embora tenha sido decisivo para os bons indicadores obtidos, principalmente por sua contribuição de US$ 33 bilhões ao superávit comercial.
Por outro lado, as perspectivas para 2005 não são animadoras, segundo o balanço anual da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) apresentado ontem pelo presidente da instituição, Antônio Ernesto de Salvo.
“Apesar das dificuldades, o setor agropecuário garantiu uma balança comercial positiva, empregou mais e a comida ficou mais barata para o consumidor”, disse Salvo. A reversão da tendência de crescimento superior à média geral da economia, segundo ele, foi provocada pela quebra na safra de grãos, com perda de 10 milhões de toneladas, e forte aumento nos preços dos insumos.
Para 2005, a expectativa é de redução de renda, crescimento moderado e descapitalização dos produtores rurais, devido ao aumento mundial da produção e os grandes estoques existentes que estão pressionando os preços para baixo. Internamente, os preços dos alimentos caíram 1,78% entre janeiro e novembro, (IPC-Fipe).
Os melhores números do setor estão mesmo nas exportações de US$ 38 bilhões e (US$ 5 bilhões em importações) e na geração de empregos - entre 90 mil e 100 mil novos empregos rurais, frente 58 mil novos empregos em 2003. “Mas isso não vai se repetir em 2005”, advertiu Salvo.
O segmento de carnes foi destaque em 2004 e deve se manter assim em 2005. Entre janeiro e novembro de 2004, o setor enviou 1,684 milhão de toneladas, com faturamento de US$ 2,25 bilhões. O total de exportações de carne bovina deve atingir 1,8 milhão de toneladas, gerando divisas de US$ 2,4 bilhões.
Ao contrário do que ocorre no mercado de grãos, o cenário para o segmento de carnes é de estabilidade em 2005, pois não há tendência de queda substancial de preços. Para as commodities agrícolas, entretanto, o anúncio da supersafra nos Estados Unidos já começou a derrubar preços no final deste ano.
Nem mesmo o aumento da próxima safra brasileira, estimada em no mínimo 128,8 milhões de toneladas frente aos 119,2 milhões de toneladas do ano agrícola 2003/2004, deverá compensar a queda dos preços das commodities, implicando em queda de renda para o produtor. Devido a esses fatores negativos, a CNA/Cepea-USP projetam que o Produto Interno Bruto (PIB) da atividade primária da agropecuária crescerá apenas 2,2% no próximo ano, ou seja, ainda menos que os 3% de 2004.
Um dos principais problemas enfrentados no campo, em 2004, foi a alta dos preços dos insumos, cuja tendência foi movida, pelo menos em parte, pela alta dos preços do petróleo. Entre janeiro e julho, os fertilizantes ficaram 17% mais caros, em média, enquanto o Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) subiu 8%.
Os fungicidas utilizados para combater a ferrugem asiática nas lavouras de soja, além da oferta insuficiente para atender à demanda, apresentaram altas de 50% a 90% em julho, em comparação aos preços cobrados em janeiro. “Os insumos subiram de preço e esqueceram de voltar”, disse o presidente da CNA.
Para 2005, a palavra de ordem é prudência, alertou Salvo. “Os estoques mundiais são grandes, o crescimento brasileiro é pequeno e os preços dos nossos insumos subiram demais. Vamos fazer contas, olhar com cuidado. Não vamos parar de crescer, nem parar de produzir. Vamos até aumentar, mas vamos fazer isso com muito cuidado”, Ponderou Salvo.
Murilo Murça de Carvalho - Correspondente do Jornal da Cidade em Brasília
Estudo faz raio-x da agricultura familiar
Brasília - A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) resolveu enfrentar com números o mito de que a agricultura familiar é a grande responsável pelo abastecimento interno do País, com geração de renda e oportunidades de trabalho.
Encomendado à Fundação Getulio Vargas (FGV), a CNA divulgou ontem o estudo “Quem Produz o Que no Campo: Quando e Onde”, demonstrando que 76,4% do valor bruto da produção agropecuária nacional vêm de propriedades excluídas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
Dos R$ 136,7 bilhões que é o valor do PIB da agropecuária, R$ 104,6 bilhões são produzidos em 1,5 milhão (32%) de propriedades rurais do País que não se beneficiam dos juros favorecidos oferecidos pelo governo aos 3,3 milhões de estabelecimentos rurais enquadrados no Pronaf.
O objetivo da pesquisa, segundo o presidente da CNA, Antônio Ernesto de Salvo, foi quantificar com metodologia científica qual é a real parcela da produção agropecuária gerada pela agricultura familiar e o que é produzido pelos que não se beneficiam dos programas oficiais de crédito a juros mais baixos que os de mercado.
O estudo, baseado no Censo Agropecuário 1995/1996, demonstrou que a agricultura familiar, enquadrada nos critérios do Pronaf, representa 68% dos estabelecimentos rurais, produz apenas 23,6% ou R$ 32,1 bilhões da receita bruta total do setor.
Os médios e grandes produtores respondem por 95,7% do valor bruto da produção de cana, 85,6% de laranja, 80,2% de algodão, 79,3% de café, 77,5% de grãos e 76,3% de batata. Mesmo na horticultura, cuja atividade se concentra em pequenas propriedades, este grupo de produtores sem acesso ao Pronaf responde por 57,8% da produção. Na pecuária, o trabalho mostra que 90,8% do valor bruto da produção de aves, 89,5% de bovinos, 82,8% de ovos, 71,8% de suínos e 65,9% de leite resultam da atividade desenvolvida por estes estabelecimentos rurais.
Os 3,3 milhões pequenos estabelecimentos rurais, tem participação importante na produção de fumo (86,3%); mandioca (73,2%) e horticultura (42%). Nos demais produtos, esta participação cai de forma expressiva: grãos (22%); batata (23,7%); café (20,7%); algodão (19,8%), laranja (14,4%), cana-de-açúcar (4,3%) e silvicultura (4,8%).
“O estudo comprova, portanto, que a quantidade de produtores enquadráveis e não enquadráveis aos critérios de agricultura familiar é inverso à sua participação na geração do valor bruto da produção da agropecuária brasileira”, diz Ignez Lopes, coordenadora do trabalho.
O estudo reforça a argumentação antiga da CNA junto ao governo de que o sistema de crédito rural, assim como benefícios fiscais e desburocratização típicos dos pequenos negócios, devem ser mais abrangentes e beneficiar um número maior de propriedades.
A FGV indicou que, no mínimo quatro milhões ou 84% dos estabelecimentos rurais brasileiros apresentam receita bruta anual abaixo de R$ 120 mil, valor que representa o teto de receita de uma microempresa urbana. Portanto, a maior parte dos produtores rurais brasileiros, mesmo aqueles não atendidos pelos mecanismos de crédito destinado à agricultura familiar, considerados produtores comerciais, seriam enquadrados, no máximo, como microempresários, no meio urbano.
Conforme a pesquisa, “os valores medianos indicam que a metade dos estabelecimentos enquadráveis (atendidos pelo Pronaf) gera receitas abaixo de R$ 3.977,40 e que a metade dos não enquadráveis (excluídos do Pronaf) gera receitas anuais abaixo de R$ 8.969,16”, em valores de julho de 2004.
O estudo demonstra, ainda, grandes desigualdades regionais. Um estabelecimento rural da região Sul, de dois a quatro módulos fiscais, não enquadrável no Pronaf, gera receita bruta anual mais elevado do que um estabelecimento da faixa entre 15 e 30 módulos fiscais da região Nordeste ou uma propriedade entre 30 e 60 módulos da região Norte. (MMC)
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Carnes têm boas perspectivas para 2005, diz CNA
Brasília - De acordo com o presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Ernesto de Salvo, o Brasil tem boas perspectivas para a área de proteínas animais em 2005, carne bovina, suína ou de aves, além do leite, produto do qual o Brasil passou de importador a exportador. Entre janeiro e novembro, o superávit da balança de lácteos foi de US$ 5,1 milhões, frente ao saldo negativo de US$ 60,1 milhões registrado em igual período do ano passado. A estimativa é de que o Brasil terá superávit de US$ 10 milhões na balança comercial de lácteos este ano.
“Mas temos problemas na área de grãos. E é preciso olhar o custo Brasil, ver onde o produtor está localizado, porque conforme o lugar esse custo pode aumentar e até tornar inviável a sua produção”, explicou. “Teremos certamente um ano mais difícil do que o que está acabando, mas com a esperança que seja ainda de crescimento”, disse o presidente da CNA.
Um dos indicadores das dificuldades a serem enfrentadas é a estimativa de exportações de soja, que devem render divisas de US$ 9 bilhões, em 2005, frente aos US$ 10 bilhões deste ano. A previsão de queda no faturamento se deve à redução dos preços médios pagos pelo grão e não pela queda da produção. A produção nacional de soja, aliás, deverá subir de 49,7 milhões de toneladas, na safra 2003/2004, para 63 milhões de toneladas, em 2004/2005.
A produção aumenta porque produtores de culturas como milho receberam preços tão baixos este ano que deverão migrar para a soja, preferindo optar por uma lavoura que, apesar da queda de preço, tem liquidez e valores sustentados internacionalmente.
Ações mais fortes do governo em políticas de sustentação de preços serão essenciais no ano que vem, para evitar perdas ainda maiores de renda no campo. Em 2004, o crédito agrícola foi escasso e chegou tarde às mãos dos produtores, dificultando o planejamento do cultivo e prejudicando a produtividade.
A CNA havia alertado pela necessidade de liberação de R$ 56,2 bilhões de crédito rural, com juro equalizado, para atender à safra 2003/2004, mas o governo anunciou, em seu plano de safra, a oferta de apenas R$ 17,7 bilhões, pouco mais de 30% do necessário. Para 2005, alerta a CNA, é preciso compensar a perda de renda do produtor, sob o risco de comprometer o crescimento da produção nos próximos anos. (MMC)