O ano de 2004 terminando, é o momento de fazer a tradicional avaliação do comportamento da economia e apontar perspectivas para 2005. Os resultados deste ano são excelentes em matéria de crescimento da economia e de retomada do controle da inflação. Sem dúvida, em 2004 presenciamos uma grande vitória da política econômica do ministro Palocci e a consolidação da confiança dos setores produtivos no governo Lula.
Vamos fechar o ano com um crescimento do PIB acima de 5%, depois de uma expansão de apenas 0,5% em 2003 (o ano do sacrifício necessário) e do pífio crescimento de 1,9% de 2002. Esses resultados foram obtidos junto com o declínio da taxa de inflação que tinha se elevado a 12% no último ano da administração FHC, reduzida a 9,3% em 2003 e chega ao final de 2004 em torno de 7,4%.
São índices a serem comemorados, principalmente no que se refere à expansão da produção, pois é a primeira vez nos últimos 12 anos que a economia brasileira cresce acima dos 5%, com uma diferença absolutamente fundamental: superávit em contas correntes de US$ 8 bilhões, comparado ao déficit de igual valor apurado em 2002, na velha administração tucana. Desde então, o comportamento da economia vem mudando da água para o vinho: o Brasil reencontrou o caminho do desenvolvimento perdido, reconquistou o controle da inflação, inverteu o déficit em conta corrente e voltou a dar empregos à sua gente.
Isso se deve à retomada dos investimentos industriais e à extraordinária expansão das exportações, estimuladas com a volta da confiança dos empresários de que podiam contar com um governo amigável que não deixou faltar crédito e conseguiu reduzir, ainda que modestamente, alguns itens da carga tributária que pesam sobre o setor. E também ao vigoroso crescimento das atividades agrícolas e da pecuária que deram a contribuição decisiva para recuperação da renda interna e para a formação dos saldos comerciais de mais de US$ 30 bilhões em 2004.
A economia vai indo bem, portanto, mas (como tudo na vida), não sem problemas. Avançamos razoavelmente na redução do constrangimento externo mas ainda estamos com um endividamento excessivo, cujo serviço só vai nos dar um pouco de tranqüilidade quando tivermos exportando algo como US$ 110 bilhões ou US$ 115 bilhões e importando US$ 90 bilhões anualmente. Precisamos deste salto para enfrentar eventuais turbulências externas.
Creio que podemos reproduzir em 2005 os bons resultados deste ano, mantendo o desenvolvimento e o controle da inflação. Vamos precisar, contudo, de um crescimento mais forte do setor industrial para compensar algumas das dificuldades que a agricultura vai enfrentar, devido à queda dos preços nos mercados mundiais e a perda de renda derivada do comportamento do câmbio: os produtores fizeram seus investimentos (insumos etc.) a dólar de R$ 3,00 e na hora da colheita estão ameaçados de vender a safra a dólar de R$ 2,75/R$ 2,80. O governo precisa prestar atenção: a agricultura não pode voltar àquela condição de dívidas miseráveis, da qual só começou a se livrar nestes últimos dois ou três anos. Além do reforço da expansão da indústria e das exportações, ainda é o agronegócio que vai fazer a diferença entre um robusto crescimento do PIB e um resultado apenas sofrível em 2005. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)