RH & Tendências

Campanha busca igualdade a terceirizados

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Trabalhadores, mesmo na condição de terceirizados, colaboram para que as empresas tenham sucesso em seu segmento. Seria justo que esses profissionais recebam um tratamento de segunda classe, já que estão diretamente envolvidos no desenvolvimento econômico do lugar onde trabalham?

A Federação dos Trabalhadores em Asseio e Conservação (Femaco) não concorda com o “tratamento desigual” e inicia uma campanha que pretende igualar profissionais efetivos com aqueles que atuam por empresas terceirizadas.

A reversão dessa desigualdade é a mobilização pela conquista, primeiro, do vale-refeição com a campanha “Apetite de Igualdade”, que pretende que as prestadoras de serviços ofereçam o benefício. Isso significa dar acesso a refeições para cerca de 150 mil profissionais que atuam no Estado de São Paulo, conforme dados da Femaco.

A campanha quer mais do que o tíquete e exige dignidade e igualdade no ambiente de trabalho. “Nosso pessoal que traz marmita paga do próprio bolso pela sua refeição diária e ainda por cima é humilhado e discriminado, já que os demais trabalhadores recebem vale-refeição”, afirma Roberto Santiago, presidente da Femaco.

O digitador André Luiz Fernandes Apolonio presta serviço numa grande empresa de Bauru da qual não tem queixas. Entretanto, reclama da falta de convênio médico e do vale-refeição. Ele comenta que onde trabalha o grau de responsabilidade de um funcionário efetivo e de um terceirizado é o mesmo.

Constata-se que profissionais em regime de contratação completamente diferente, na prática, são submetidos aos mesmos critérios de cobrança de performance. “Se um cliente fez uma consulta e foi lançado outro valor, somos responsabilizados”, lamenta. Não fossem as diferenças salariais e a inexistência de benefícios para alguns, quase passaria desapercebida a desigualdade.

Apolônio não se queixa do salário e nem do trabalho, apenas gostaria de ter outros benefícios. Inclusive porque tem pretensões de avançar na empresa, pois sempre cobre férias, oportunidade em que circula por outros setores e passa a dominar novas funções.

Há dois anos prestando serviço na mesma empresa, às vezes ele se sente discriminado, inclusive por sua condição de terceirizado. Ele comenta que o prestador de serviço não usa uniforme da empresa e, nem sempre, o tratamento de cordialidade é igual ao do profissional contratado. Este tratamento desigual não é sentido apenas por ele.

A diretora de uma firma prestadora de serviços terceirizados, advogada e psicóloga Daniela Gibin Duarte, confirma que muitos funcionários se queixam de discriminação, como a não participação em eventos internos. “Tal fator ocorre por uma falta de política de RH planejada e comprometida para com esses funcionários por parte da empresa contratante e falta de parceria com a tomadora (empresa que contrata os serviços). Eles precisam saber que existe uma empresa na qual eles podem confiar, que lhes dê suporte administrativo, financeiro e operacional, e que essas diferenças são questões profissionais, que fogem do âmbito pessoal”, ressalta.

O funcionário terceirizado José Luiz Perotto comemora o fato de receber o tíquete-refeição, porém, o valor pago é a metade do que recebem os funcionários da empresa em que presta serviço. O vale-refeição não é obrigatório e, ainda que pago por algumas terceirizadas de Bauru, apenas atenua a diferença de renda e benefícios. Pertencente ao Sindicato de Asseio e Conservação (Sindcon), Luiz tem direito legal apenas à cesta básica e vale-transporte.

Ele é controlador de acesso de público numa grande empresa de Bauru, que também terceiriza o serviço de limpeza.

Conforme dados da Femaco, os trabalhadores em serviços (asseio e conservação, bombeiros civis e funcionários em lava-rápidos) ganham R$ 354,28, o que dá um ganho liquido diário de aproximadamente R$ 9,00.

Dados do Departamento de Assessoria Econômica da Femaco calculam que o pagamento de vale-refeição no valor de R$ 3,50 por dia representaria R$ 154 milhões por ano para que os trabalhadores em serviços gastem com refeição.

A reportagem do JC consultou, através da assessoria de imprensa, o Sindcon e o Sindicato das Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros, Colocação e Administração de Mão-de-Obra e de Trabalho Temporário no Estado de São Paulo (Sindeprestem) a respeito da campanha “Apetite de Igualdade”, mas até o fechamento desta edição, não obteve uma posição das entidades.

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