Ligou em casa dizendo-se leitora destas mal-traçadas. Deixou recado com a minha filha. Queria que eu escrevesse sobre Papai Noel. “De onde surgiu o personagem?” Bem feito. Quem manda dar um tom de Almanaque Capivarol aos artigos dominicais. O meu Larousse diz que tudo começou no século IV com o bispo Nicolau, patrono da Rússia e da Grécia e que viria a se tornar num dos santos mais cultuados tanto no Ocidente quanto no Oriente. Marinheiros italianos levaram suas relíquias para Bari (Itália), onde surgiu um grande centro de peregrinação. Atribuíram a ele o milagre da ressurreição de três crianças assassinadas. Daí começou a transformação deste santo em personagem popular para crianças. Imigrantes holandeses introduziram a figura de Nicolau - Santa Claus em inglês - nos Estados Unidos e daí para frente virou produto de marketing com essa história de dar presentes. No século 19, a Coca-Cola aproveitou-se da popularidade de Santa Claus para dar-lhe um banho de loja. Transformou-o nesse velhinho simpático, todo de vermelho com apliques de pele e o barrete seguindo o mesmo figurino. Se fosse hoje, os publicitários iriam criá-lo com corpo malhado e a barba escanhoada dos metrossexuais. Como o Brasil do século 19 ainda era dominado culturalmente pela França, ficamos com o Père Noël, traduzido para Papai Noel, para denominar esse obeso fantasiado que sua em bicas neste paraíso tropical.
Lembro-me do Vitalino, em fins dos anos 60, Papai Noel de A Regional, importante loja da Batista de Carvalho. Era preto. A cadeia lojista já cultivava o politicamente correto. A criançada o olhava desconfiado. E o negro, firme, dentro da roupa imprópria colada ao corpo, saco vermelho às costas, cheio de papel amassado. O coitado não via a hora de encerrar a via-crúcis, com o fim da jornada puxada de nove horas no Hô! Hô! Hô!, e embarcar na Coréinha, trem de um vagão só que levava os ferroviários que moravam na colônia da Vila Dutra. Que fim teria levado o Vitalino? Por mais consumista que seja a idéia de Papai Noel, não se pode negar, o bom velhinho colabora para criar um clima de solidariedade, ainda que marcado pelo efêmero.
Nesta época do Natal, às vezes, somos surpreendidos por pensamentos tristonhos que bem poderiam ficar escondidos nos recônditos da alma. Creio que me falta a fé da minha mãe, cujo Natal tinha “gosto de uva e sabor de eternidade”. Mudei eu, ou mudaram os natais?, como perguntava Machado de Assis no seu célebre soneto. Na minha infância, os presentes tomavam forma de roupa nova, que era para matar dois coelhos com uma só cajadada: substituir a calça furada e marcar a presença do Papai Noel. Em casa, enquanto se aguardava o macarrão com frango, as indispensáveis castanhas cozidas e as rabanadas de sobremesa, o rádio espalhava som e letra da marchinha de Assis Valente, compositor que se suicidou, aquele que um dia pensou ser todo mundo filho de Papai Noel. Descobriu que a felicidade não passava de uma brincadeira de papel... Carlos Galhardo terminava cantando: “Já faz tempo que eu pedi/ Mas o meu Papai Noel não vem/ Com certeza já morreu/ Ou então, felicidade/ É brinquedo que não tem”. Para quantas milhares ou milhões de crianças Papai Noel nunca existiu? Desejo a todos, neste Natal (e todos os dias) uma ceia justa e merecida. Que a mesa seja farta e não "farte" nada. Que possamos dividir a alegria com o pai, o filho ou o amigo. Mas também que o pão de cada dia seja sublime, pelo menos nesse dia. Pois só quem já viu é quem sabe, minha prezada leitora que me honrou com seu telefonema,: nada mais triste, deprimente e perigoso do que gente com fome.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC