Na 5ª feira, dia 15, na Paróquia Universitária do Sagrado Coração de Jesus, a Câmara Municipal, por uma propositura do vereador Edmundo Albuquerque, aprovada por unanimidade pelos senhores vereadores, concedeu ao padre Enedir o título de Cidadão Bauruense. Compareci à solenidade. Após os discursos do vereador Edmundo e do homenageado, gostaria de ter usado também da palavra, mas como o protocolo não permitia, calei-me.
De volta para casa, pensei muito sobre as palavras proferidas pelos oradores da noite, o local onde aconteceu a cerimônia, as pessoas presentes, muitos ex-alunos, dentre eles destaco o Fernando Jorge Salomão, engenheiro, pessoa muito estimada pela comunidade o qual desenvolve como leigo, dentro de um espírito de entrega total, um trabalho muito eficiente na construção da Paróquia Universitária do Sagrado Coração de Jesus. Concluí, pelo que vi e senti naquela noite, e pela pessoa homenageada, que eu tinha o dever moral de, pelo menos, escrever alguma coisa. A verdadeira amizade não pode silenciar numa ocasião como esta.
Às vezes Deus nos proporciona encontros inesperados, para que compartilhemos nossas vidas com pessoas que não nos são muito especiais, como foi o caso do padre Enedir. Quis a providência que o padre Enedir vindo lá de Braúna, aportasse, um dia, como pároco, aqui em Bauru, na paróquia de Santa Rita (1992 - 1996), quando eu e toda a minha família nos fizemos seus amigos.
Por isso mesmo, como amigo, escrevo-lhe estas linhas que brotam do fundo do coração.
Verdadeiro foi o sr. Felisdeu Leão, no seu artigo, na tribuna do leitor, 14 de dezembro, página 22, quando afirma que o título de Cidadão Bauruense concedido ao padre Enedir foi motivado pelo seu zelo apostólico como Ministro de Deus. É dentro deste espírito religioso, de sua postura como sacerdote, é que ouso fazer algumas reflexões sobre o homenageado.
Você, padre Enedir, se lembra bem quando o Senhor o chamou, você no começo relutou, mas não teve jeito, pois foi um chamado insistente, contínuo, ao qual você não pôde, como Maria em Nazaré, dizer não aos Anjos que o mesmo Deus lhe enviou para convencê-lo de que era necessário dizer sim. Um sim de entusiasmo, sofrido, mas foi um sim que o levou longe de sua casa, de seus queridos pais, o sr. Benedito, falecido, e a sra. Orneide, presente na sessão solene, e de seus irmãos. Para trás, ficaram também os amigos, os parentes. A caminhada não foi fácil. Aparecem dificuldades e nuvens que ofuscaram por instantes a beleza de sua vocação, mas uma força dentro de você chamava-o, impulsionava-o a continuar a caminhada. Você chegou a sentir que o ser sacerdote era maior que você. Você viu que o celibato não era doce e leve como você imaginava. Você perseverou, caminhou resoluto e um dia você subiu ao altar. Festa, alegria. Todos aqueles que você deixara em Braúna e mais os que você conquistou na sua caminhada, estavam felizes, orgulhosos de você. Você era feliz, você agora era sacerdote para sempre.
Começou aí o seu caminho de entusiasmo e de amor. Por onde você passava, deixava rastros de amor e felicidade.
Você caminhou, os anos se foram. Novas dúvidas, novas solidões, novos momentos de martírio. Você olhou com desejo de mártir, de apóstolo, os campos do seu apostolado. Lágrimas, quem sabe, sonhos, mas você a tudo superou e continuou o caminho, agora com passos mais lentos, mas não com menos amor, não com menos entusiasmo. Cada missa que você celebrava era mais sofrida, mas não com menos sangue de mártir.
Padre Enedir, você é sacerdote para sempre. Com o mesmo amor, você quer viver a sua adesão a Cristo. Não tenha medo, caminhe e, um dia, Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, fá-lo-á sentar-se à sua direita, porque você, Sacerdote, foi servo bom e fiel.
Padre Enedir, nós precisamos de sua presença paternal, ela sempre sinaliza que o Senhor permanece conosco. Precisamos de sua Cruz sacerdotal, sempre colada à Cruz maior, que é a de Cristo, tão amada e tão odiada ao longo de tantos séculos.
Por tudo isso, não se canse de ser vítima. Não se canse de ser hóstia. Deixe-se moer ainda uma vez, sob a pesada mó as incompreensões e desentendimentos. Quando Jesus chamou por você, tudo isso estava incluído no seu chamado.
Padre Enedir, nesses anos de sacerdócio, você construiu uma cidade, assumiu o compromisso de liderar a campanha para a construção de uma igreja, uma casa de Deus, a Paróquia Universitária. Olhando para trás, você verá uma incontável multidão de homens e mulheres que passaram pelo seu caminho, ouvindo uma palavra de paz, recebendo um gesto de compreensão. Sem você, tantos se teriam perdido, afastados da verdade. Depois de se encontrarem com você, a vida deles adquiriu sentido. A sua também.
Tem mais, meu amigo, padre Enedir, Você não se pertence! No dia da sua ordenação, você se consagrou, entregou a própria vida como posse de Deus. Nada que você venha a fazer, poderá anular essa entrega. Desde então, você pertence a Deus e ao povo dele.
Você, agora, mais do que nunca pertence também à cidade de Bauru, pois você, padre Enedir, é, de fato, Cidadão Bauruense.
Professor Gino Crês